Apesar de ser mulher

Publicado em 19/10/2011

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Depois de apenas duas semanas no poder, o governo da social-democrata Helle Thorning-Schmidt já conseguiu decepcionar os que torciam para que a posse da nova primeira-ministra da Dinamarca não fosse apenas um marco simbólico na luta por uma participação mais representativa das mulheres no comando do país.

Agricultural show in Roskilde, Denmark. Openin...

Helle Thorning-Schmidt na abertura de uma feira agropecuária em 2008. Image via Wikipedia

O anúncio da composição do novo governo frustrou as expectativas dos que esperavam um ministério com ampla representação do sexo feminino. Somente 39% dos ministros do novo governo são mulheres, enquanto metade do ministério conservador e liberal anterior era ocupado por mulheres.

O novo ministério talvez não devesse ser motivo para decepção. Afinal, Helle Thorning nunca foi porta-voz de bandeiras feministas. Bem ao contrário, em nenhum momento da campanha eleitoral a atual primeira-ministra levantou questões como a igualdade de direitos entre homens e mulheres ou tentou apelar especificamente ao eleitorado do sexo feminino. Na verdade, durante a campanha ficou bem evidente que ela escolheu se esquivar de temas que lembrassem ao eleitor que ela é uma mulher ou que a associassem a bandeiras feministas.

Como afirmou a escritora Hanne-Vibeke Holst em artigo para o jornal Politiken, “não podemos esquecer que Helle Thorning-Schmidt não se tornou primeira-ministra porque ela é mulher. Ela se tornou primeira-ministra apesar de ser mulher!” (minha tradução livre).

A ausência das questões de gênero na campanha eleitoral pode dar a impressão de que elas não tenham influenciado a corrida para o parlamento. Mas não é o que pensa outra escritora dinamarquesa, Jette Hansen. Em artigo no mesmo Politiken ela escreveu (minha tradução livre):

“A afirmação de que o sexo não desempenhou nenhum papel durante a campanha eleitoral mostra que os dinamarqueses, ao mesmo tempo em que rejeitam cada vez mais intensamente tudo que apenas cheire a feminismo, politica de gênero ou igualdade de direitos, também se tornaram cegos para o papel que o sexo das pessoas tem na sociedade.”

Jette Hansen lembra que a mídia, antes e depois da campanha, sempre associou Helle Thorning ao estereótipo da mulher que fala pelos cotovelos, extremamente preocupada com a própria aparência e apreciador

a de roupas e acessórios caros. Uma revista sensacionalista chegou a analisar as medidas corporais de Helle Thorning numa reportagem intitulada “Obcecada pela juventude” e publicada um dia antes da eleição.

A discussão me fez pensar sobre minha própria avaliação de Helle Thorning. Será que comprei a imagem que me venderam? Me perguntei se minha opinião pouco favorável sobre ela não teria sido influenciada pela imagem distorcida que a mídia sensacionalista e conservadora faz dela. Percebi que muitas das coisas que a mídia associa negativamente a Helle Thorning, como a preocupação com a aparência, são associadas às mulheres de modo geral. É como se a mídia e, por extensão, a sociedade tivessem a tendência a desvincular o que é feminino do que é competente e inteligente. Portanto, de acordo com a lógica dos estereótipos, uma candidata que fala demais, se preocupa com a própria aparência e gosta de roupas e acessórios caros, não poderia ser mais apta para o cargo de primeiro-ministro do

que um homem.

A reflexão não me tornou fã ardorosa de Helle Thorning. Continuo achando que ela se parece demais com uma pessoa que coloca as ambições pessoais acima de princípios. Mas passei a olhá-la com mais simpatia e a continuar torcendo por ela e por seu governo. Além disso, voltei a celebrar mais uma vez e desta vez comigo mesma a primeira primeira-ministra da Dinamarca.

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Publicado em: Dinamarca