“O Brasil é mesmo um mundo lento, onde as pessoas se preocupam mais com futebol e em curtir a vida”

Publicado em 19/12/2011

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English: University of Juiz de Fora, Brazil Po...

Universidade de "um país lento". Foto via Wikipedia.

O título desta postagem é minha tradução livre de um trecho de artigo publicado semanas atrás (página 6, caderno “Viden”, edição de domingo, 20.11.2011) na seção de educação de um dos principais jornais dinamarqueses, o Politiken, e que foi escrito por uma estudante universitária, Maj Thinggaard, que é aluna do curso “Estudos Brasileiros” na Universidade de Århus, na Dinamarca. O artigo, escrito na forma de diário, cobre uma semana da vida da estudante de 22 anos de idade que frequentou um semestre do curso de jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) .

No artigo ela conta, por exemplo, que num dos “muitos feriados que se tem o privilégio de se desfrutar” no Brasil, por motivos que ela desconhece, tudo fecha, com exceção dos bares onde há sempre uma televisão mostrando jogos de futebol. Nesse dia de folga, percebendo os efeitos dos cinco meses vivendo em Juiz de Fora, a futura diplomada em assuntos brasileiros constata: “Devo ter me abrasileirado porque acordo tarde e durante umas duras horas curto um livro na rede”.

Lá pelas tantas, ela comenta: “O último dia de trabalho da semana é, como sempre, um dia de festa. (…) Depois de duas raras aulas bem sucedidas no curso de Jornalismo, vou me encontrar com um grupo de amigos.”

Mais adiante, uma conclusão brilhante de alguém que parece conhecer profundamente o país que a recebeu: “É verdade, o Brasil é mesmo um mundo lento, onde as pessoas se preocupam mais com futebol e em curtir a vida, mas se levarmos em conta o calor que faz aqui, não é realmente muito difícil entender por quê”.

Apesar do tom irônico e pretensamente crítico, ela deixa transparecer ter se adaptado sem problemas à lentidão, ao hedonismo e ao corpo mole dos brasileiros. Na aula de sua disciplina favorita (apresentação oral, minha tradução) “como de costume, não se trabalha muito duro, mas temos a chance de tentar fazer um discurso para a classe inteira e rir um bocado”. Ela também faz um elogio duvidoso a uma outra aula, cujo assunto ela não menciona: “Foi provavelmente uma aula extremamente interessante que eu no entanto não consegui ouvir da minha cadeira no fundo da sala de aula”.

Em nenhum trecho do texto a estudante demonstra estar sinceramente interessada pela qualidade do ensino que estava recebendo. Ela também não comenta nenhuma tentativa de tentar contribuir, mesmo que criticamente, para a melhoria do ensino. O texto deixa transparecer pouco caso e desinteresse pelo que deveria ser a principal razão da estada dela no Brasil: o curso acadêmico.

As conclusões apressadas da estudante me deixaram estupefata, mas o que mais me irritou foi irresponsabilidade do jornal Politiken de ter publicado um texto tão pobre. Não defendo que as opiniões negativas da estudante sobre o Brasil devessem ter sido censuradas, mas acho que um bom editor deveria ter exigido da estudante mais informações e análises sobre o que deveria ter sido o aspecto central da matéria: se o curso e a estada no Brasil teriam contribuído para a formação acadêmica dela.

Esta não foi a primeira e obviamente não será a última vez que me irrito com a forma como o Brasil é retratado pela mídia dinamarquesa. Na maior parte das vezes acabo engolindo em seco e tentando ignorar o que, para mim, são demonstrações do reduzidíssimo conhecimento que os profissionais de imprensa daqui têm sobre o Brasil.

Mas dois ou três atrás vi um texto no site do principal canal de televisão da Dinamarca, a DR, que reavivou minha irritação. Uma nota contava que o secretário geral da Associação Dinamarquesa de Handebol, Morten Stig Christensen, estava insatisfeito com a má organização do Campeonato Mundial de Handebol, realizado em São Paulo e encerrado no último final de semana. Segundo ele, especialistas europeus deveriam assessorar a organização da competição toda vez que o torneio acontecer em ”países tão exóticos quanto o Brasil”.

Achei quase engraçada a classificação do Brasil como exótico. Isso porque num planeta onde vivem 7 bilhões de pessoas, a grande maioria enfrentando megaproblemas e vivendo em megacidades, nada mais exótico do que um pequeno país com 5 milhões de habitantes que desfrutam de altíssimo padrão de vida, andam de bicicleta para ir ao trabalho e são regidos por uma rainha risonha mãe de dois príncipes simpáticos que se casaram com plebeias estrangeiras. Bem que eu gosto de algumas das excentricidades dinamarquesas, mas que tudo é mesmo uma questão de óptica, ah isso é.

Publicado em: Brasil, Dinamarca