Iraquianos na Dinamarca

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Um artigo da jornalista Anita Bay Bundegaard, no jornal dinamarquês Politiken, alguns dias atrás, trouxe números que me chocaram: 184 iraquianos vivem há pelo menos sete anos, alguns há 12 anos, num abrigo para refugiados que tentam conseguir asilo na Dinamarca.

O governo dinamarquês, seguindo à risca sua rígida política de asilo, recusou asilo a esses 184 iraquianos que, no entanto, se negam a voltar para seu país. A Dinamarca não pode obrigar os iraquianos a voltar porque o governo iraquiano não quer recebê-los. Talvez porque já tenham problemas de sobra no Iraque. Enquanto os dois países não se entendem, os iraquianos vivem como párias: têm suas necessidades básicas atendidas mas não podem participar ativamente da sociedade que lhes dá comida, roupa e teto. São proibidos de trabalhar e obrigados a viver no abrigo chamado Sandholm, que alguns dinamarqueses já começaram a chamar de campo de concentração.

A jornalista Anita Bay Bundegaard comparou a questão dos refugiados iraquianos na Dinamarca e no país vizinho, a Suécia. Os suecos receberam 60 por cento de todos os iraquianos que fugiram para a Europa depois da Guerra do Iraque. Desde o início do conflito, a Suécia recebeu mais de 9,000 refugiados. Lá os refugiados têm permissão para trabalhar e morar em residências como o resto da sociedade.

O curioso é que a Suécia não participou da invasão do Iraque. A Dinamarca, ao contrário, foi um dos poucos países europeus a entrar na coalizão que invadiu o Iraque em 2003.

Ironicamente, enquanto a Dinamarca pressiona em vão o governo iraquiano a receber os refugiados de volta, a Suécia e o Iraque assinaram um acordo que prevê o retorno dos refugiados que estão em solo sueco. Aliás, a Suécia já conseguiu que três mil refugiados voltassem voluntariamente para casa.

Na opinião de Anita Bay Bundegaard, ali na Suécia, vivendo como parte da sociedade que os recebeu, os refugiados mantém sua dignidade, podem estudar e tentar se manter no mercado de trabalho e assim se sentem mais fortes e preparados para retornar ao país de origem.

Aqui na Dinamarca, sem poderem trabalhar e à margem da sociedade, os refugiados estão desaprendendo o que sabiam e aprendendo a viver na dependência de uma sociedade que não os quer. Casos de depressão e outros problemas psíquicos são comum entre os refugiados de Sandholm. O relato de uma ex-refugiada, Dina Yafasova, parece confirmar a tese de Anita. Segundo Dina, que acabou de escrever um livro sobre o assunto, “viver num abrigo como o Sandholm não é aparentemente tão ruim. As pessoas tem um lugar para dormir, roupa e comida. O pior de lá, algo que não se percebe imediatamente mas talvez apenas depois de um mês ou coisa parecida, o pior de lá é o clima de prisão”.

Colocar pessoas fugidas da guerra num lugar que parece uma prisão não deve mesmo ser bom para a saúde mental dessas pessoas. O pior é se a “prisão” se estende por dez, onze, doze anos.

É difícil não concordar com Anita.

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