Dia dos pais

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Amanhã seria dia de ligar para meu pai e lhe desejar feliz dia dos pais. Na minha família sempre fomos críticos do caráter comercial dessas datas, mas assim mesmo embarcamos sem pestanajar na onda de presentes e reuniões familiares nos dias das mães e dos pais.

Antes de me mudar para a Dinamarca, dia dos pais tinha invariavelmente reunião da família toda em torno de uma churrasqueira e presentes para o meu pai, que nesse dia via uma das vantagens de ter tido cinco filhos.

Para meus irmãos, minha mãe e eu, a semana que antecedia o segundo domingo de agosto era de dúvidas sobre o que dar ao ”melhor pai do mundo” que também podia às vezes se comportar como ”o pai mais chato do mundo”. Como era difícil presentear meu pai. Ferramenta era quase certo que ele ia gostar de receber, mas ele já tinha tanta geringonça que ninguém mais tinha vontade de lhe dar uma nova. Livro era meio complicado, porque, ao contrário da minha mãe, ele nunca foi muito de ler. Roupas ou sapatos, claro, seriam a alternativa mais correta, porque, como minha mãe dizia, ele andaria como um mendigo se não fosse as roupas e sapatos que nós comprávamos para ele. Não que lhe faltasse dinheiro para isso, mas é que ele nunca encontrava tempo para compras.

Mas comprar sapatos e, principalmente, roupas para meu pai, era um esporte arriscado. Nos últimos anos ele ficou mais tolerante, mas durante muito tempo tive a impressão de que nada que eu dava a ele o agradava. Ele sempre agradecia, é claro, mas na primeira oportunidade soltava algo como ”essa camisa é muito bonita mas essa gola não é meio assim como a de um pastor?” ou ”calça de boa qualidade, hein minha filha, pena que falta um bolso aqui”. Pois é, calça comprida para meu pai tinha de ter bolsos, muitos bolsos. No da direita, ele colocava a carteira, no da esquerda, uma cadernetinha, no da perna direita, uma caneta e um canivetinho, no da esquerda, o chaveiro. Nos bolsos dos fundos, nada, claro, porque ”eu também não sou bobo de dar mole para batedor de carteira” A necessidade de bolsos do meu pai Juarez era tanta que ele chegou a mandar alguém costurar bolsos extra em algumas das suas calças.

Nos bolsos iam também as listas de compras de supermercado que ele precisava fazer. Lá em casa sempre foi meu pai o maior responsável pelas compras de supermercado. Nos supermercados, mercadinhos, frutarias e feiras de Taguatinga, ele todo mês deixava boa parte de seu salário de policial militar.

Aliás, para compras de alimentos o seu Juarez sempre tinha tempo. Ele sentia um prazer imenso em abastecer a casa de comida, comida e comida. Acho que talvez porque ele se orgulhasse de nos ver atacando uma melancia deliciosa que ele havia comprado, confirmando o talento dele de quase sempre acertar na hora de comprar frutas e verduras. Ou nos ver devorando um frango assado preparado com um tempero delicioso que já tentei inúmeras vezes copiar. Ele gostava tanto de nos encher de comida, que mesmo no dia dos pais muitas frequentemente era ele que ia para a churrasqueira cuidar da carne, frango e linguiças que passaríamos um dia quase inteiro comendo.

Depois que me mudei para a Dinamarca, disse adeus a esses domingões dos dias dos pais. A preocupação sobre o presente também diminuiu porque depois de algum tempo passei a comprar apenas um presente pelo Natal, aniversário e dia dos pais, e entregá-lo pessoalmente nas minhas visitas anuais ao Brasil. Para mim, no dia dos pais sobrou apenas aquele telefonema, quase sagrado, que eu dava todo ano ao meu pai. Amanhã será o segundo dia dos pais em que nem isso vou poder fazer.

Ai pai. Como a saudade dói.

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