Prêmio controverso

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Às vezes aqui na Dinamarca me sinto sozinha no meu jeito de pensar, como se eu fosse a única em toda essa pequena nação que enxergasse o absurdo na maneira como alguns políticos dinamarqueses falam de pessoas que têm religião e cultura diferentes das deles. Como se eu fosse a única que se enfurecesse quando políticos do partido de extrema direita que participa da aliança governista, sem o menor constrangimento, dizem horrores como “os homens muçulmanos não só matam suas filhas como também fingem não ver que elas são estupradas pelos tios delas”.

Embora eu não saiba onde estão, talvez porque não ganhem espaço na mídia, deve haver muitos aqui que pensam como eu. Mesmo assim frequentemente chego a me achar uma esquisita, como se minhas opiniões contra a discriminação religiosa que os muçulmanos sofrem aqui na Dinamarca fossem tão radicais que me transformassem numa extremista.

Por isso me senti de alma lavada quando semanas atrás li uma longa entrevista com o escritor dinamarquês Carsten Jensen no jornal Politiken. Ele é um dos romancistas e ensaístas contemporâneos mais populares e premiados na Dinamarca, autor de “Vi o mundo começar” (minha tradução do título em inglês I’ve seen the world begin. ) e Nós, os afogados (minha tradução do título original em dinamarquês, “Vi, de druknede”).

Nessa entrevista Jensen disse:

“ – Se eu fosse imigrante, eu me se sentiria muito ofendido pelo modo como se referem a mim (…) Eu me sentiria diminuído”.

Recentemente ele recebeu o prêmio Olof Palm, por seu “humanismo, sensatez e fé no futuro”, concedido pelo Fundo pelo Entendimento Internacional Olof Palm. O prêmio o colocou ao lado de laureados nobres e respeitados como Anistia Internacional (1991), Václav Hnavel (1989), Daw Aung San Suu Kyi (2005), a ativista iraniana Parvin Ardalan (2007). Ao invés de se orgulharem do reconhecimento recebido pelo conterrâneo, muitos dinamarqueses ficaram furiosos com o prêmio e a imprensa reagiu de forma surpreendentemente negativa.

“Carsten Jensen recebe 400.000 coroas por criticar a Dinamarca” (Carsten Jensen får 400.000 kr. for at kritisere Danmark ), foi a manchete do Politiken, que é o mais à esquerda entre os três grandes jornais do país. Algo no mesmo tom saiu no site do DR, o maior canal de TV do país. Leitores do jornal chamaram o escritor de hipócrita e covarde e alguns pediram que ele se mudasse para a Suécia.

Tanta reação quase me chocou. Mas depois de ler um pouco mais sobre Jensen, comecei a entender tanta ira. Como um outro leitor do Politiken comentou, as reações furiosas são uma prova de que “… Carsten Jensen acerta no cerne do problema com a Dinamarca. Carsten Jensen mereceu esse prêmio. Peguem um Kleenex e sequem o ódio dos estrangeiros de suas faces” (minha tradução).

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