Feijão cozido

em
canned black beans must drain (after rinsing) ...
Image via Wikipedia

Havia cozido um quilo de feijão, que ela dividira em vários recipientes plásticos para guardar no congelador. Aquilo seria suficiente para várias semanas já que, ao contrário do que acontecia na casa da sua mãe, eles não comiam feijão todo dia.

Enchia os recipientes plásticos pensando que talvez aquilo fosse perda de tempo se seu marido não se lembrasse de usar o feijão nas semanas seguintes, enquanto ela estivesse ausente. Seria perda de tempo ainda maior se a operação e o tratamento não dessem resultado e ela nunca mais voltasse para casa. O feijão cozido ficaria ali esquecido no congelador. Meses, quem sabe anos se passariam até que talvez alguém de sua família, provavelmente uma irmã, viesse visitar seu marido e filhos e descobrisse o feijão preto escondido no meio do gelo do congelador.

Será que eles iriam ousar descongelar e comer aquele feijão esquecido ou o jogariam fora? Seria uma pena jogar um feijão preto tão bom fora. Ainda mais ali, onde era tão difícil achar feijão preto de boa qualidade.

De qualquer maneira, agora não adiantava lamentar sobre feijão cozido. Se ela não voltasse mais do hospital, o feijão ficaria mesmo ali esquecido, mas talvez o problema se resolvesse se ela colocasse um recado na porta da geladeira lembrando o marido de que havia feijão cozido no congelador. O problema é que ela também teria de colocar instruções sobre como preparar o feijão, porque de feijão preto seu marido não entedia nada. Não, deixa pra lá, pensou desistindo da nota sobre o feijão. O recado poderia dar a impressão de que ela não acreditava que sobreviveria ao tratamento e ela não queria preocupar o marido com seu pessimismo.

Um pensamento escapuliu: “Além disso, será que alguém ia querer comer um feijão congelado que havia sido cozido por uma pessoa morta?”

“Ai, Helena, para de pensar besteira”, ela se repreendeu. Tentou se convencer de que não havia porque pensar que ia morrer agora só por causa daquela besteira que havia aparecido em seu seio direito, que agora se espalhara para o esquerdo e que os médicos diziam ter indícios de que tinha chegado aos pulmões. Lembrou-se do que uma amiga com quem não falava havia anos lhe dissera sobre como os pensamentos atraem coisas negativas. Tinha se tornado sua religião: se esforçar para pensar positivamente, mesmo que sua alma crítica e estatística sempre achasse atalhos agourentos.

Voltando ao feijão, acabou concluindo que o recado era mesmo uma boa ideia. Podia até funcionar como um testamento de – já que não podia lhes deixar muitos bens, podia lhes testamentar bons hábitos alimentares e o recado para que comessem o feijão cozido seria a documentação desta sua última vontade: Alimentem-se bem, meus queridos filhos e marido.

Estatísticas dizem que pessoas bem alimentadas têm menos chances de contrair diversas doenças, inclusive aquela que tinha invadido seu corpo. Pelo jeito as estatísticas mentem porque sempre se alimentara bem e agora essa coisa que ela não via nem sentia havia invadido seu corpo e ameaçava destruir sua vida e talvez a impedisse de ver seus filhos crescerem e …

– Escreve logo essa porra de recado!, gritou. Imediatamente olhou pela janela para ver se nenhum vizinho tinha ouvido aquele rompante. Era uma preocupação sem sentido. Era preciso mais do que um gritinho histérico para atravessar aquelas paredes grossas feitas para isolar a casa do frio escandinavo.

Num impulso rasgou o papel onde havia escrito “Meus queridos…”, colocou uma manta sobre os ombros e saiu para o jardim para procurar pelo amarelo das eranthis que insistiam em brotar no meio da neve que começava a desmilinguir.

Respirou fundo o ar frio de março e se alegrou: “Ah, afinal a primavera!”.

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