Sete de setembro

Sete de Setembro
Sete de Setembro ( Foto da Agência de Notícias do Acre)

Acho que a primeira vez que me senti brasileira deve ter sido pouco tempo depois de 1970 e a razão não foi a terceira conquista da Copa do Mundo pelo Brasil naquele ano. Me lembro quando meus pais levaram a minha irmã e eu da cidade satélite de Taguatinga, onde morávamos, ao Plano Piloto da capital do Brasil para assistir à parada militar. Era 7 de setembro, data nacional do Brasil, quando nas escolas as crianças ouviam que deveriam prestar homenagem à grandeza do país que eu mesma estava começando a amar.

Há duas imagens do meu primeiro desfile militar que ficaram na minha memória: as bandeiras e um rosto. O governo distribuía milhares de bandeirinhas do Brasil para o público do desfile. Como toda criança, eu adorava sair andando com uma ou várias daquelas bandeirinhas verdes e amarelas e sempre tentava ganhar o maior número possível delas.

O rosto era o do presidente brasileiro na época – o general Emílio Garrastazu Médici. Não sei se eu realmente me lembro disso ou se eu criei na minha mente a impressão de que eu vi nitidamente o rosto do general naquele 7 de setembro. Se eu tivesse perguntado ao meu pai, ele provavelmente teria dito que aquela imagem só existia na minha imaginação, já que o público não tinha autorização para chegar perto do presidente. Resultado ou não da minha imaginação, a face do presidente Médici ficou na minha memória associada ao 7 de setembro, uma ligação que de certa forma viria a destruir o meu prazer de celebrar o Dia da Independência do Brasil.

Como criança, eu via o rosto do presidente Médici como a de um homem sério e merecedor de respeito que me inspirava confiança e sensação de segurança. Quando seu mandato terminou, em 1974, eu quase me senti triste porque o novo presidente, o também general Ernesto Geisel, parecia sempre tão severo, rígido e com um ar ressentido.

Mas alguns anos mais tarde eu descobriria que naquele 7 de setembro, enquanto minha família e eu estávamos ali acenando para o presidente ao levantar nossas bandeirinhas sob o céu sem nuvens de Brasília, havia outros brasileiros que não tinham nada o que celebrar. A presidência de Emílio Garrastazu Médici correspondeu ao período mais repressivo da ditadura militar que dominou o Brasil de 1964 a 1985. Seu governo (1970-1974) foi responsável pela tortura de milhares de pessoas, pelo desaparecimento e assassinato de militantes de esquerda, pela censura da imprensa e pela revogação dos direitos políticos dos que ousavam contestar o regime militar. Estima-se que mais de 10 mil brasileiros foram obrigados a deixar o país e procurar exílio para fugir da repressão.

Quando, na minha adolescência, comecei a descobrir o que meu país havia passado durante o governo Médici, eu me senti ludibriada e com raiva. Eu não consegui aceitar que alguém que tinha a missão de proteger os cidadãos de seu país, na verdade estava dando ordens ou, no mínimo, permitindo que esses cidadãos fossem perseguidos, torturados e até mesmo assassinados.

Somente pouco tempo atrás, depois de trabalhar alguns anos no Conselho Internacional para Reabilitação de Vítimas de Tortura (International Rehabilitation Council for Torture Victims – IRCT), eu comecei a me perguntar se aquela desapontamento de criança teria tido alguma coisa a ver com as minhas escolhas profissionais. Talvez eu tivesse de qualquer maneira escolhido trabalhar para uma organização de direitos humanos mas eu acredito que aquele mito infantil desfeito de alguma maneira me direcionou a sempre tentar trabalhar para que mentiras, tortura e repressão nunca mais desonrem o país onde nasci e que eu amo.

PS: A versão original deste publicada em inglês no site do IRCT.

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8 comentários Adicione o seu

  1. Deolinda disse:

    É… Margareth (Marga ou Fia prá mim), a gente quando criança, tem sonhos, e esses sonhos muitas vezes se revelam num simples desfile militar ou mesmo desfilando pela escola que se estuda. Mas quando crescemos, percebemos que os nossos sonhos ficaram lá atrás, naquela infância já tão distante. Mas, o importante é, que como humanos que somos, continuamos a sonhar, mesmo apanhando da vida. Faz parte. Bjos.

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  2. Vera disse:

    Margareth, o silêncio, sobre a violência da ditadura que se impôs em nosso país, produziu efeitos muito fortes e de larga duração.

    É um alento quando, ao participar de mesas redondas e debates, vejo jovens interessados e curiosos em entender melhor a violência do passado e suas conexões com a atual.

    Estamos trabalhando para ampliar este debate, para levar a profissionais de saúde nossa experiência clínica com afetados pela violência de Estado.

    Obrigada por compartilhar tua experiência pessoal com todos nós.
    bj

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  3. Vera disse:

    Querida Margareth

    Aqui estamos, agora tambem vinculadas por este meio, o FaceBook, que nos mantém mais atualizadas em nossos pensamentos e ações.

    Muito bonito o teu relato, muito importante que seja divulgado: por sua sensibilidade e por ser um estímulo aos jovens para que saibam e pensem que ocorreu em nosso país. E mais, por ser uma experiência que da infância à vida adulta sofreu um desvio fundamental em direção à defesa dos direitos humanos! A contribuição para a quebra do silêncio sobre o período trágico em que nosso país esteve mergulhado é fundamental. Se vc me permite, poderia mandar para alguns companheir@s.

    Com Dea, falamos carinhosamente de vc em Baires!
    bj
    Vera

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    1. Margareth Marmori disse:

      Querida Vera,
      Que bom te encontrar por aqui e desculpa a demora na resposta. Curioso você mencionar os jovens, porque quando pensei em escrever esse texto, falei sobre a ideia com um jovem colega de trabalho que gostou muito da ideia. “Gente da minha idade não pensa muito nessas coisas. Eu mesmo, antes de vir trabalhar aqui no IRCT até achava que o Mahmud Ahmadineyad fosse um cara legal”, ele comentou. Acho mesmo que a desinformação sobre o que aconteceu no Brasil e sobre o que está acontecendo em regimes ditatoriais pelo mundo afora é muito grande, principalmente entre os jovens, o que é uma pena. No Brasil, o que me preocupa muito é o desinteresse e até menosprezo que os jovens demonstram pela participação política. É como se direitos civis como a liberdade de expressão, tão apreciada pelos jovens, fosse um bem natural automaticamente assegurado e não uma conquista da sociedade.
      Por favor, fique à vontade para passar adiante.
      Bj,
      Margareth

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  4. Ana Maria Melhim disse:

    Querida Margareth,
    Seu artigo expressa o sentimento de se sentir ludibriada, que acredito que mtos brasileiros que eram criancas naquela época, compartilha.
    Em 1964,eu morava em Vicosa-cidade universitára em Minas Gerais- qdo a cidade foi invadida por tanques, caminhões e,na minha cabeca de crianca, milhares de soldados bonitos. As criancas vestiam suas roupas de missa e as mocas roupas de festa, enfim, todas mto enfeitadinhas para visitar o acampamento militar. Este clima de festa rapidamente foi desfeito pela violencia contra os estudantes. A cidade virou um campo de batalha, claro que por mto pouco tempo. A repressão militar era massacrante.
    No ano seguinte, todos as escolas eram obrigadas a desfilar na parada de 7 de setembro. A violencia vivida no ano anterior foi substituida por um clima de festa. Como vc bem descreveu, as criancas juntando bandeirinhas pelas ruas, os estudantes colegiais com seus uniformes de gala, todos ingenuamente contribuindo para que a repressão não fosse percebida ou que pelo menos perdesse seu gosto amargo.
    Felizmente existem pessoas e organizacões independentes, que nos ajudam a não esquecer nossa história e a nos mantermos críticos e conscientes do momento em que vivemos.
    Receba meu carinho e agradecimento.
    Ana melhim

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    1. Margareth Marmori disse:

      Querida Ana,
      Estou emocionada com o seu relato. Muito obrigada por ter compartilhado isso. Não estávamos sozinhas na nossa desilusão.
      Margareth

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  5. railda disse:

    Margareth, que linda esta reflexao que voce faz do 7 de setembro e dos desdobramentos que este dia teve em sua vida.

    Eu sempre disse para voce que as suas reflexoes neste processo do cancer deverias ser publicadas. Continuam achando.

    Sobre a avaliacao do periodo militar, eu estou te convidando para escrevermos um livro a quatro maos. Tenho certeza que conseguiriamos publicar aqui na Dinamarca. Topa? temos uma diferenca de idade – e portanto de comeco de militancia que seria enriquecedor.

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    1. Margareth Marmori disse:

      Obrigada, Railda. Estou me organisando para ter mais tempo para escrever, embora um livro ainda não esteja em meus planos imediatos.
      Quanto ao livro sobre nossa militância, podemos, claro, conversar, mas acho que não tenho tanta bagagem nessa área como você. Abração, Margareth

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