Sustos outonais

Todo ano, mais ou menos nesta época, início do outono europeu, começam as discussões no Parlamento dinamarquês sobre a divisão do orçamento público federal para o ano seguinte. E todo ano, desde que a direita assumiu o poder na Dinamarca, é tempo de eu me preocupar sobre o que vai sobrar de ruim para os estrangeiros dessas discussões.

Outono na Dinamarca
Outono na Dinamarca

O orçamento público federal não está necessariamente ligado à situação dos imigrantes no país, mas o partido de extrema direita Dansk Folkeparti (Partido do Povo Dinamarquês) todo ano insiste em condicionar seu apoio à proposta orçamentaria do governo a alterações na legislação que regular a imigração e a vida dos estrangeiros no pais. O partido liderado pela Pia Kjærsgaard tem um trunfo quase imbatível. Os partidos do governo, o Venstre e os conservadores, não tem maioria absoluta na Parlamento e, ao invés de tentar negociar o orçamento mais amplamente com os partidos do outro lado do espectro político, preferem sempre se ancorar no apoio do Dansk Folkepart (DF) para ter suas propostas aprovadas.

Claro que o apoio do DF às propostas do governo não sai de graça: o partido sempre consegue direcionar recursos orçamentários para beneficiar setores da sociedade nos quais o partido mais encontra seus eleitores: os idosos. Foi assim com o chamado cheque do idoso, um tipo de bônus dado indiscriminadamente a todos os idosos na Dinamarca, que de antemão já recebem aposentadoria e têm direito a benefícios como ajuda para limpeza da casa e entrega de refeições a preços subsidiados.

Além de agradar seus eleitores com recursos públicos, o DF também sempre aproveita a discussão do orçamento para forcar o governo a aceitar propostas que, de uma maneira ou de outra, dificultam a vida dos imigrantes na Dinamarca.

Todo ano fico tentando adivinhar o que o partido vai inventar contra os imigrantes. Todo ano me irrito com as propostas apresentadas, e quase sempre aceitas, pelo partido. Este ano, a proposta do partido não só me irritou, mas também me revoltou.

Desta vez o DF quer tirar dos estrangeiros o direito a qualquer serviço oferecido pelo estado, o que inclui acesso aos sistemas públicos de educação e saúde. Estou ficando cada vez mais imune aos rompantes de xenofobia do DF, mas o absurdo e injustiça dessa proposta conseguiu me revoltar. Me surpreendeu ainda mais o fato da proposta ter sido originalmente apresentada por um outro partido, a Aliança Liberal, que até então eu considerava razoável, apesar de economicamente liberal demais para o meu gosto.

Se a proposta dos dois partidos for aprovada, os estrangeiros só terão acesso aos serviços oferecidos pelo estado depois de sete anos vivendo na Dinamarca. Na nova Dinamarca, quem quiser atendimento médico, que assine um seguro privado de saúde. Quer o filho alfabetizado? Pague por uma escola particular.

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