Pedrinhas de gelo no rosto

As luzes dos holofotes nunca se acenderiam para ela. Agora ela finalmente começava a se conformar com o fato de que seu grande dia nunca chegaria. Sua vida passaria tão desapercebida que não iria merecer nem um obituário escrito na língua que não gostava no jornal do bairro da cidade onde não havia escolhido viver.

Aliás, sempre havia se perguntado por que algumas pessoas haviam merecido o direito de ter um obituário nos jornais. Para ela, todo mundo ou ninguém deveria ter um obituário publicado. O fim de toda vida humana merecia ser registrado para que aquela vida fosse celebrada ou lamentada. Ela achava que isso de os obituários reverenciarem uns poucos ricos e famosos davam a impressão de que a vida desses ricos e famosos valia mais do que a dos esquecidos pelas redações dos jornais.

Um sinal vermelho interrompeu os pensamentos lúgubres. Depois de voltar a pedalar, lembrou-se quase dolorosamente de como aquele dia havia sido um novo pequeno fracasso a se somar à pilha de fracassos que estava colecionando em sua vida. Mais uma vez não conseguira se conter e falara o que pensava. Ou seja, havia pela milésima sexagésima primeira vez perdido uma boa oportunidade de ficar calada.

Parou num outro sinal vermelho e se distraiu um pouco admirando o casaco da ciclista à sua frente. Tinha vontade de perguntar-lhe onde o havia comprado porque havia semanas que tentava sem sucesso achar um casaco de inverno de seu agrado.

Sinal verde

Mas os obituários de jornal eram mesmo uma documentação diária e um pouco cafona de que, na verdade, havia vidas que valiam mais do que outras. Ainda assim não se conformava. Não bastava dizer que não era justo. Isso não era mesmo. “Mas essa droga de mundo nunca foi justo”, disse a si mesma. O problema é não conseguir viver sem aceitar que essa droga de mundo não é justo.

Talvez, no fundo, invejasse aqueles que por algum motivo tinham merecido a homenagem de palavras elogiosas das redações dos jornais. É, devia ser isso, inveja. Sempre tinha sido invejosa, embora tentasse por tudo dissimular esse sentimento que julgava indigno.

Mais um sinal vermelho. Que bom! Dava para descansar um pouco. Hoje suas pernas estavam cansadas, não sabia bem porque. A noite começava a tomar conta da cidade. Tinha vontade de chegar logo em casa e se refugiar debaixo de um edredom. Mas ainda faltavam pelo menos mais trinta minutos de pedaladas.

Tentava evitar pensar sobre o fracasso do dia. Pra quê? Não adiantava nada. Não havia como desmanchar o mal feito. Tinha de se conformar com sua incapacidade de expressar suas opiniões de forma elegante, diplomática e convincente. Elegância era mesmo algo que lhe faltava. Parecia mais um tanque de guerra carregado de opiniões e ideias que assustava e pouco convencia. As opiniões e ideias nem sempre eram más, mas o tanque só fazia inimigos.

Lembrou-se daquela sua amiga, a Laura, que de tão elegante chegava a irritar. Até o nome, Lau-ra, soava elegante, fino. Será que ela nunca tinha um dia de ferocidade e raiva? Era o tipo cuja morte seria um dia festejada com um grande obituário num jornal.

Sentiu pedrinhas minúsculas de gelo batendo em seu rosto. Era um granizo gelado que parecia queimar a pele e chegava a doer. Era melhor apressar o ritmo das pedaladas para não chegar ensopada ou, pior, congelada em casa.

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