Passatempo de paciente

Olhe para o teto. Note de que material é feito. Geralmente há umas placas, aparentemente de metal, cobrindo o teto. Muitas vezes as placas de metal têm uns buraquinhos e através deles dá para ver um pouco da fiação que está por trás. Outras vezes os buracos são muito pequenos e não dá para ver nada através deles. Em qualquer caso pode-se contar quantos buraquinhos cada placa tem. Não é preciso contar todos, você sabe multiplicar mais ou menos bem. Conte quantos têm numa fileira e multiplique pela quantidade da outra fileira, é lógico. Aí passe a contar quantas placas existem. Então perceberá que aquele teto não é teto, é um amontoado, agora mensurável, de buraquinhos. Centenas, às vezes, milhares deles. Quando estiver chegando a essa conclusão, pimba, já se passaram uns 10 minutos. Aí é hora de achar outro passatempo. O quadro na parede. Uma reprodução de uma pintura que você nunca viu antes. Não dá para saber o nome do pintor. Mas parece alguma coisa daquele movimento, o Cobra, que teve a participação de artistas dinamarqueses. Ou será que está dando um grande de um chute? Geralmente, não sabe bem porque, os trabalhos do Cobra lhe incomodam, inquietam, mas essa pintura, aqui nesta sala do hospital, lhe agrada. As cores não são tão fortes e os traços nem tão violentos. Saco! Essa divagação pretensamente artística não levou nem um minuto. Há ainda mais uns minutos de espera imobilizada. Agora pense no que fazer depois deste exame. Planeje  minuciosamente o que vai fazer ao sair dali. Primeiro passar pela cafeteria do hospital para tomar um café e comer um bolo, já que é preciso comemorar que mais uma pequena etapa daquela fase da sua vida acabou. No peso você pensa depois. O importante agora é se manter mentalmente sã, não sair batendo a cabeça nas paredes. Daí a importância de um bolo de chocolate sério, bem grande, bem gostoso, bem forte, feito de chocolate amargo. Depois da cafeteria passar pelo caixa eletrônico. Dinheiro é preciso. Ou será melhor ir primeiro ao banco e depois à cafeteria? Na cafeteria ligar para uma amiga com a qual você não fala há muito tempo. Ou será melhor mandar um SMS? Ela deve estar no trabalho e uma ligação poderia atrapalhá-la. É, melhor um SMS. O que escrever num SMS? “Oi querida, há quanto tempo! Como você está?”. Uuu! Horrível, vazio, sem propósito. Talvez assim: “Oi querida, que saudade, vamos marcar um cineminha ou uma cerveja?” Melhorou, vai direto ao assunto, sugere uma ação, o que demonstra interesse sincero em renovar a amizade meio empalidecida pelos dias que passam desapercebidos. É, mandar um SMS. Pode também ligar hoje à noite para reforçar o convite. Não, melhor ligar amanhã. Se ligar hoje pode parecer forçação de barra e uma coisa que você detesta, abomina, odeia, é forçar a barra. Mas pode talvez ligar amanhã, se ela não reagir ao SMS, para confirmar que recebeu a mensagem e aí não será mais tanta …

“Pronto, você já pode se mexer, o exame acabou”, avisa a enfermeira que conduz o exame, me atrapalhando o pensamento. Só depois dela falar percebo que o exame afinal acabou em boa hora. A posição estava começando a me causar dor na nuca. Me encontrei, mais uma vez, olhando para o teto, obrigada a não fazer nada por uns vinte minutos. Perdi a conta das vezes em que me achei assim, olhando para o teto, tentando fazer o tempo passar até que um procedimento cirúrgico, exame médico ou terapia da vez acabasse.

Agora é me levantar, vestir a roupa e sair para a cafeteria. Ou será melhor ir primeiro ao caixa eletrônico?

 

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