Ficando por aqui

Um inverno dinamarquês visto da janela.

Se eu ficasse aqui, só cuidando do que fazer para o jantar, da roupa para lavar, das orquídeas para molhar, dos filhos para criar, talvez conseguisse ser feliz. Neste inverno escuro, nem preciso sair de casa, posso ir ficando, ficando. Aos poucos, com certeza, irão se esquecer de mim.

A ginástica posso fazer no porão, o bate-papo pode ser pelo Skype e o contato social pelo Facebook. Direi aos ex-colegas que estou dando um tempo para reavaliar minha carreira e liberar minha mente criativa num novo projeto. Talvez precise trabalhar um pouco mais essa justificativa, mas também posso deixar pra lá. Não preciso explicar nada.

O marido vai com certeza estranhar, no começo. Mas depois ele se acostuma. Vai gostar de não ter que fazer mais comida, de não ter de colocar roupa para lavar nem ter de limpar a casa. Vai parar de reclamar quando eu assumir as tarefas domésticas que ele detesta. Aliás, vai adorar quando eu preparar um jantar bem gostoso, abrir uma garrafa de um bom vinho e me perfumar para recebê-lo na cama.

É, acho que vou ficando mesmo por aqui. As compras posso fazer pela internet. Hoje em dia entregam tudo em casa. É uma maravilha.

Vou aproveitar para experimentar novas receitas, passar e repassar as roupas, pintar, organizar meus arquivos, ler, reler …

Quando a primavera chegar, posso até me aventurar pelo quintal dos fundos da casa. Lá poderei cultivar umas verduras, cuidar das flores e podar as roseiras. O jardim da frente será mais complicado, mas poderei aproveitar o horário em que os vizinhos estão no trabalho para cuidar das plantas.

Vai ser bom ficar por aqui. Não terei mais de enfrentar o mau humor das pessoas no ônibus, nem competir com aquela colega de trabalho que insiste em me tratar como secretária particular dela. Não terei mais de me fingir simpática e culta. Nunca saberão a imensidão das minha rabugice e ignorância porque não haverá ninguém para quem terei de assumi-las. Poderei ser eu mesma, o dia todo, mal humorada, pessimista e burra. Somente à noite terei de me reprimir um pouco para garantir a boa vontade do marido, o futuro único provedor do lar.

Não sei quanto tempo isso vai durar. Nem quero pensar no que acontecerá depois. Só sei que hoje estou muito cansada e, pelo menos por enquanto, vou ficando por aqui.

 

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2 comentários Adicione o seu

  1. Ana A. disse:

    Margareth

    Não percebi se vai ficar por aí, porque perdeu o emprego ou se simplesmente pretende descansar. Seja como for, um abraço solidário e lembre-se que nós não somos o que fazemos.

    Ana

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    1. Margareth Marmori disse:

      Oi querida Ana,
      Não perdi o emprego. O texto foi apenas uma elucubração (ah, como adoro essa palavra!) e por isso foi categorizada sob ”Ficção”. Todos os textos nessa categoria são fictícios e não refletem necessariamente meu estado de espírito. Abraços, Margareth

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