Desviando o olhar

em
Carmen Miranda
Aqui ela passaria desapercebida. Image by twm1340 via Flickr

No segundo dia útil depois de minha volta das férias no Brasil tive de enfrentar uma fila quilométrica, para o padrão dinamarquês, diga-se de passagem, no maior hospital da Dinamarca. Cheguei ao hospital para fazer um electrocardiograma achando que, como de costume, teria de enfrentar uma fila com duas ou três pessoas, seria atendida no máximo meia hora depois e teria tempo de sobra para tomar um cafezinho antes de fazer um outro exame marcado para mais ou menos uma hora depois da minha chegada.

Para minha surpresa, a fila tinha naquele dia tinha umas vinte pessoas e, o que é pior, não andava. A fila era bem desorganizada, com os pacientes e acompanhantes sentados fora de ordem de chegada em cadeiras e poltronas da sala de espera. Apesar de ter pressa por causa do outro exame, não me estressei, obviamente ainda impregnada pelo bom humor e descontração das férias no Brasil.

Observando a “fila” dinamarquesa, pensei com os meus botões que os dinamarqueses tinham muito o que aprender no vasto campo da organização de filas e que quem sabe isso até não me daria um bom negócio. Eu poderia tentar oferecer meus serviços como consultora especializada em logística, otimização e eficiência de filas a grandes prestadores de serviços da Dinamarca. Como brasileira não me falta experiência na área. Depois de alguns minutos, meus pensamentos sobre meu grande futuro empreendedor foram interrompidos por um rapaz que estava acompanhando um senhor idoso numa cadeira de rodas.

Ele perguntou em voz alta a todos na sala de espera quantos ali iam mesmo fazer o exame ou quantos estavam apenas acompanhando um paciente. Ele precisava calcular quanto tempo levaria para serem atendidos porque o senhor que ele acompanhava também tinha outro exame marcado numa outra parte do hospital. Como as outras pessoas que iam fazer o electrocardiograma, levantei um braço para indicar que eu também iria fazer o exame, mas ao mesmo tempo falei em voz alta: “Eu vou fazer o electrocardiograma mas também tenho um outro exame marcado para daqui a alguns minutos e acho que não vou poder esperar até chegar a minha vez, o que vai acabar sendo bom para vocês porque serei menos uma na fila, não é mesmo?” Falei sem pensar e encerrei minha curta explicação com um sorriso que, em outras paragens, acho que poderia ter sido considerado simpático.

O rapaz que havia feito a pergunta não reagiu à minha resposta e, ao fechar a boca, comecei imediatamente a matutar sobre porque eu havia me explicado tanto a ele. “Aha!”, me lembrei, “É porque acabei de voltar do Brasil”. No Brasil a gente costuma bater papo com quem encontramos na fila do caixa do supermercado, posto de saúde, banco, ônibus ou de qualquer lugar. Mas agora eu estava de volta à Dinamarca, onde as pessoas não conversam assim sem mais nem menos com pessoas desconhecidas.

Meu espírito relaxado de recém-chegada de férias me impediu de me sentir constrangida e achei muita graça do pequeno fora que havia dado. Mergulhei meus olhos num jornal que tinha nas mãos e tentei ignorar os olhares de censura que porventura estariam vindo dos meus companheiros de fila. Mas depois me tranquilizei. Mesmo que os meus companheiros de fila não tivessem gostado da minha explicação desnecessária, eles provavelmente não teriam me olhado com ar de censura. Eles com certeza devem ter gasto um milésimo de segundo tentando entender o que aquela imigrante havia falado e depois fizeram o que costumam fazer em situações como aquela: me ignoraram.

Eles me ignoraram não porque eu sou uma imigrante ou por causa do meu sotaque, mas porque, de modo geral, aqui as pessoas costumam ignorar umas às outras em ambientes públicos. A Dinamarca é, portanto, um lugar perfeito para quem não quer ser visto. Na rua as pessoas vêem você, mas é como não lhe enxergassem. Para quem está a fim de experimentar uma tintura de cabelo das cores do arco íris ou se vestir a la Carmem Miranda e sair por aí, este é o lugar. As pessoas vão ver você, podem até achar que seu visual é estranho, mas muito provavelmente vão desviar os olhos e fingir que você não existe.

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