Padecimento social

em
Cognac-tasting
Image by andreasnilsson1976 via Flickr

[Mais um texto da minha série de inquietações fictícias]

Aquele incômodo havia voltado. A impressão de que estava onde não deveria estar, desperdiçando o pouco tempo que a vida lhe dava, estava de novo ali, a pesar nos ombros e amarelar seu sorriso. Sentia um mal estar quase físico, tão inquietante que a única coisa de que tinha vontade era de virar um zero, um nada, para colocar fim àquele desconforto.

Estava sentada a uma mesa onde o primeiro prato do jantar já havia sido servido e devorado e agora, como já havia acontecido várias outras vezes desde que chegara àquela ilha, ficava ali sozinha no meio da gente que a ignorava. Dois homens, um sentado ao seu lado direito, e o outro sentado ao seu lado esquerdo, conversavam animadamente numa língua que ela abominava e não se esforçava para entender. Eles a ignoravam e a única evidência de que haviam percebido sua existência era que tinham de se debruçar sobre a mesa para evitar que o corpo dela atrapalhasse a visão um do outro. Era como se ela fosse um móvel pesado e difícil de mudar de lugar que havia sido colocado entre os dois.

Olhou as pessoas a sua volta e sentiu raiva de cada uma delas. Ela como se tivessem-na obrigado a estar ali, perdendo tempo, descolocada. Tentou prestar atenção à conversa das duas mulheres que falavam alto do outro lado da mesa. Eram as esposas dos homens ao seu lado. Discutiam o valor do colar que uma delas havia ganhado de presente de aniversário. A presenteada tinha uma cara meio pateta, tentando não demonstrar o quanto sentia pena de todas as mulheres do mundo cujos maridos não gastavam tanto dinheiro quanto o dela com balangandãs brilhantes e caros.

A futilidade das conversas e a banalidade das preocupações dos comensais irritou-a. Mas também censurou sua própria arrogância de achar que suas preocupações e interesses fossem mais importantes e nobres. O pensamento não foi suficiente para fazê-la tentar conversar com algum dos outros convidados. Olhava em volta e o que via não a animava a sair do seu isolamento.

Não se sentia constrangida pelo seu isolamento. Estava apenas entediada e irritada e achava que os outros, ao ignorá-la, é que deveriam se sentir constrangidos.

Percebeu que o volume das vozes havia aumentado. Era o efeito do álcool que começava a se fazer sentir. Ela havia bebido pouco, o que não ajudava muito a diminuir seu incômodo. Os homens ao seu lado gargalhavam de uma piada que ela não havia entendido mas ela nem se deu ao trabalho de rir junto para fingir que acompanhava a conversa. Não faria a menor diferença. Eles continuavam sem prestar atenção a ela.

Seu marido conversava animadamente com uma mulher que mais parecia ter saído daquela antiga série de televisão, Terra dos Gigantes. Ela era grande, mas bonita não era. Nem precisava sentir ciúmes.

Se levantou e foi ao toalete, onde ficou muito mais tempo do que o necessário. O toalete era uma de seus recursos preferidos quando o incômodo aparecia. Lá ficava retocando minuciosamente a maquiagem e seguindo o caminho das rugas até que uma outra convidada entrasse no toilete e viesse atrapalhar sua escapulida. Aí era obrigada a voltar para a mesa, onde, já sabia, ninguém havia notado sua ausência. Quando o tempo permitia, as fugidas ao toalete se estendiam a uma voltinha no jardim ou pátio externo do salão de festas, onde podia respirar ar fresco e se deliciar com a solidão.

Mas agora precisava voltar à mesa. Já iam servir a sobremesa, finalmente. Depois dela faltaria pouco para a noite acabar.

Sua mesa estava situada numa posição estratégica, de onde conseguia ver bem a mesa principal da festa, onde os recém-casados e os pais deles estavam sentados. Acabara de ver a mãe da noiva enfiar o polegar direito na boca, aparentemente tentando tirar um fiapo de carne de entre os dentes. “Só falta o pai da noiva descalçar o sapato para coçar o dedão do pé”, pensou com maldade, se reprimindo logo em seguida por dar tanta importância a bobagens.

Esse era o maior problema desses eventos sociais. Eram sempre ocasiões nas quais ela era levada por um correnteza de pensamentos a questionar a razão para estar naquele lugar. Eram momentos em que ela se via exercitando involuntariamente seu amargor e isolamento. Era quando ela se sentia fora de lugar, estranha, estrangeira.

As vozes aumentavam de volume. O álcool subia nas cabeças louras. Logo depois da sobremesa, começaria a valsa. Pensou aliviada que agora faltava pouco para aquele padecimento social acabar.

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