Questionando o mito da democracia racial

Na última semana dei uma palestra na Universidade de Copenhague a convite do Centro de Estudos Latino-Americanos e da Embaixada do Brasil na Dinamarca, que estavam promovendo a conferência Brasil no século XXI: perspectivas numa sociedade multiétnica (minha tradução para Brazil in the 21st Century: New Perspectives on a Multi-ethnic Society).

Fiz uma pequena pesquisa para me atualizar sobre o tema sobre o qual escolhi falar, a mídia e o mito da democracia racial, e depois de consultar dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e vários artigos científicos e textos jornalísticos, cheguei a uma conclusão animadora e a outra desalentadora. Minha conclusão animadora é que o Brasil, finalmente, passados 123 anos da abolição da escravatura, parece estar avançando, mesmo que lentamente, no reconhecimento do papel dos afro-brasileiros na construção da nossa sociedade. Isso se deve a um processo que começou com a redemocratização do país, mais de 25 anos atrás. Com a redemocratização, os movimentos negros tiveram a liberdade necessária para pressionar o governo a tomar medidas para corrigir as injustiças raciais do país. Em 2001, o presidente Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro presidente do país a reconhecer a existência da discriminação racial no Brasil, o que foi um primeiro e essencial passo para dar visibilidade ao problema e ampliar a discussão sobre o assunto. Desde então o governo brasileiro tem tomado medidas para tentar corrigir séculos de injustiça, como as ações afirmativas e a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena para alunos do ensino médio e fundamental de escolas públicas e particulares.

Vejo também avanços na autoestima dos afrodescendentes, que mais e mais assumem sua identidade étnica e questionam o tão proclamado mito da democracia racial. Um exemplo disso é o resultado do Censo de 2010, quando pela primeira vez o Brasil deixou oficialmente de ser predominantemente branco. De acordo com dados do Censo, 47,73% da população brasileira se declarou branca, enquanto as pessoas que se declararam pardas correspondem a 43,1% da população e as que se declararam negras são 7,6% da população. No censo de 2000, a proporção era de 53,74% para os brancos, 38,4% para os pardos e 6,21% para os negros. Claro que parte da explicação para a diminuição da participação relativa dos brancos na composição étnica do país se deve ao maior crescimento demográfico entre os negros e pardos. Mas concordo com as análises que defendem que isso também se deve ao fato de mais negros e pardos se assumirem como tais.

A minha conclusão desalentadora foi relacionada ao papel da mídia nesse processo. Apesar de alguns avanços tímidos na representação dos negros pela televisão brasileira, especialmente nas telenovelas, percebi uma grande resistência da grande imprensa em discutir o assunto com sobriedade e um mínimo de imparcialidade. A oposição agressiva e exagerada de alguns veículos de imprensa às ações afirmativas me surpreendeu, ainda mais porque os veículos tradicionais de imprensa são um dos grandes bastiões da sub-representação da população negra e parda, o que é evidente quando se observa a reduzida presença desses grupos nas redações e a sua pequena visibilidade no noticiário. Além da pequena visibilidade, quando representados, os negros e pardos são rotineiramente associados a estereótipos ou posições subordinadas na sociedade.

Ao se perguntar sobre qual a razão para imagem tão negativa que a imprensa apresenta da população afrodescendente no Brasil, a pesquisadora norte-americana Tania Cantrell Rosas-Moreno (Media Representations of Race Cue the State of Media Opening in Brazil) sugere o seguinte: “… por quase dois séculos, homens brancos de origem elitista se formam e então se tornam os jornalistas brasileiros que escrevem para audiências elitistas ” (minha tradução). Em outras palavras, a produção de notícias no Brasil é feita e consumida por uma elite, argumenta Rosas-Moreno, com o que tendo a concordar.

Felizmente, há iniciativas que estão buscando melhorar a formação dos profissionais da imprensa para que eles se capacitem para produzir cobertura jornalística que leve mais em consideração a diversidade étnica do Brasil. Um exemplo é um curso de gênero, raça e etnia para jornalistas, promovido pela FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas e pela ONU Mulheres – Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres.

Minha esperança é que iniciativas como essa ajudem a imprensa brasileira a pegar o bonde já em movimento da discussão sobre as desigualdades raciais no Brasil.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Léo Thilé disse:

    Olá Margareth! Achei muito interessante esse artigo e acrescento que somente tendo a pele escura é que se sente a verdadeira “democracia racial” no nosso pais, que aos poucos está mudando, mas concordo com você que esta mudança é muito lenta. Quanto a tv brasileira o negro ainda não está ocupando verdadeiramente um espaço de destaque. Basta lembrar que a primeira protagonista negra numa novela foi a atriz Thaiz Araújo, que aos 17 anos interpretou a personagem Xica da Silva, na antiga tv Manchete, isso em 1996 e somente 08 anos depois ela voltou com outro personagem que foi a Preta em “A cor do Pecado”, (2004- Rede Globo), E nesse meio tempo, quantos atores e atrizes negros fizeram vários papéis e nem sequer saíam nas chamadas das novelas. Até hoje é assim. Quantos negros estão à frente de um programa de Domingo, por exemplo? Faustão, Gugu, Celso Portiole, Luciano Huck, nenhum deles são negros e todas as apresentadoras de programas de variedades das emissoras de tv, coincidentemente são loiras: Ana Hickmann, Ana Maria Braga, Xuxa, Eliana e Angélica. É claro que não tiro o mérito desses artistas e muito menos o valor que eles teêm, mas qual a referência de valor e beleza as crianças negras terão se nos meios de comunicação em geral a pele escura ainda tem uma participação muito pequena. Esqueçamos os famosos e passemos a falar de pessoas comuns… eu, por exemplo trabalho em uma escola que contando comigo tem 3 professores negros, ao todo somos 32 professores, sem contar a equipe da direção, administração e secretaria. Um dia desses fui ao hospital e fui atendida por um médico negro, o que infelizmente é muito raro. Enfim, poderia sitar outros exemplos, mas também não quero parecer pessimista, só que a realidade é outra. Quem sabe um dia a Margareth Menezes tão conhecida fora do Brasil, faça sussesso como Claudia Leite e Ivete Sangalo, quem sabe até nem precisaremos mais de “COTAS”, pois com uma política educacional, racial, e social de Igualdade, teremos no nosso pais uma verdadeira DEMOCRACIA RACIAL. Um grande abraço.

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    1. Obrigada pelo testemunho, Léo. Concordo com você e de fato não havia pensado sobre a longa lista de apresentadoras loiras de programas televisivos de variedades. É mesmo impressionante. Fiquei imaginando que apresentadoras brilhantes figuras como a Sandra de Sá ou a Zezé Motta não poderiam ter sido. Abração.

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  2. Vilma Gomes disse:

    O artigo está bom. Mas falta um pouquinho mais.
    Já a partir do tema a jornalista caracteriza a democracia racial brasileira do ponto de vista da mídia, como sendo mito- ou seja algo que näo existe. Por isso, a jornalista tenta desmascarar esse mito, p. ex, mencionando que, nas novelas, os negros só têm papel …. e de subordinados.
    Entretanto, vi novelas, onde o negro aparece num papel central, são bonitos, charmosos, ricos e com educação superior. Considero tal fato um enorme avanço da mídia brasileira- ou não é? Levado em consideração o curto tempo passado desde a queda da ditadura, que abriu as portas para a evolução democrática no Brasil.
    Na sua preocupação em apenas desmascarar, a jornalista “ esquece” de:
    1. Pelo menos mencionar, que num contexto cultural a democracia racial existe sim, näo é um mito..
    – Hoje em dia näo há comida de preto- mas sim comida de pobre. E os pobres säo pretos, brancos, pardos…e, com muito orgulho falamos da variedade da nossa comida, e da grande influencia que a mesma obteve das várias raças.
    – Vemos pretos, brancos e pardos lado a lado, na praia, nos restaurantes, nas escolas, nas ruas, fazendo compras etc etc. …Isso näo é democracial racial?
    Enfim, Como Gilberto Freyre disse, a Democracia racial brasileira é uma situação de realidade em forma- ção. Por isso näo fica bem tratá-la como um mito.
    2. Vir com alguns exemplos comparativos da situação, nos demais ramos da mídia (radio, jornais, etc.).

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    1. Obrigada pelo seu comentário, Vilma. Lamento se soei um pouco pessimista mas, embora eu reconheça que tenha havido avanços no tratamento dos afrodescendentes pela mídia brasileira, continuo achando que esses avanços ainda são extremamente tímidos.
      Quanto à demoracia racial, concordo que nossa cultura deve muito às contribuições da cultura negra (também da indígena), mas isso não significa que tenha havido uma incorporação mais justa desses grupos étnicos na sociedade. Só um exemplo: no Brasil, 13,4 por cento dos chamados pardos e 13,3 por cento dos negros são analfabetos, enquanto apenas 5,9% dos brancos são analfabetos, segundo dados do IBGE. Os dados do censo também mostram que os afrodescendentes também são discriminados no mercado de trabalho. Veja por exemplo esta matéria: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/noticia_visualiza.php?id_noticia=1717&id_pagina=1
      Há quem diga que essas discrepâncias têm razão social e não racial. Não concordo. Claro que ter dinheiro “embranquece”, mas um branco rico sempre terá vantagens sobre um negro rico no Brasil. Além disso, a população afrodescendente continua sub-representada, por exemplo, na classe política e entre jornalistas e outros profissionais responsáveis pelos produtos de mídia no Brasil.
      Como você sugeriu, eu poderia ter apresentado mais exemplos, mas minha intenção não era escrever um artigo exaustivo sobre o tema, mas apenas fazer um relato das conclusões principais que apresentei na palestra e, quem sabe, discutir o assunto com leitores do blog, o que acabou acontecendo através do seu comentário.
      Abraços, Margareth

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