Armadilha natalina

Ulla Paaske nisser
Foto de Peter Leth via Flickr

1o de dezembro é uma data importante no calendário das festividades natalinas na Dinamarca. Até o próximo dia 24, crianças de todo o país vão receber um pequeno presente por dia. É o chamado calendário de natal (julekalender), uma tradição cultivada por boa parte das famílias dinamarquesas que conheço. Minha sogra me livrou da decisão sobre se deveríamos manter mais essa tradição aqui em casa ao comprar ela mesma 24 brinquedinhos para o calendário da minha filha de quase seis anos de idade.

O  primeiro dia do mês de dezembro é também quando os dinamarqueses começam a acender em casa uma vela especial, a luz do calendário ou luz do advento (kalenderlys), onde estão marcados os 24 números correspondentes aos dias que faltam para a festividade mais celebrada na Dinamarca. Como sempre faço aqui na Dinamarca, comprei uma vela para a ocasião e, com os presentinhos comprados pela minha sogra, achei que minhas obrigações natalinas de mãe de criança dinamarquesa estavam mais do que cumpridas. Eu não podia estar mais enganada.

Três dias atrás minha filha reclamou que este ano ainda não havíamos comido pebernødder (biscoitinhos redondos temperados com gengibre e canela), uma outra tradição do natal dinamarquês. Temerosa das consequências que um natal sem pebernødder poderia ter no desenvolvimento psicológico e social da minha filha, fui na primeira chance que tive a um supermercado comprar os tais biscoitinhos marrons. Aproveitei, é claro, para comprar leite, iogurte, frutas, verduras, papel higiênico e outras coisinhas mais.

Minha missão natalina estava cumprida, pensei satisfeita. Ledo engano. Antes de ontem minha filha, num lamento choroso, levantou uma questão importantíssima, do ponto de vista dela. Ela não conseguia entender porque, ao contrário do que já acontecera na casa de um amiguinho que mora do outro lado da rua, nossa casa ainda não havia recebido a visita de um duende de natal (nisse, em dinamarquês). Perguntei curiosa como é que ela sabia que um duende já havia visitado a casa do vizinho. “Porque não recebemos nenhuma carta de um duende ainda”, ela explicou com ar de quem falava com uma pessoa que realmente não entende absolutamente nada de nisserier (sapecagens de duendes).

“Oh, Jesus”, pensei com meus botões. Confessei a ela que eu não entendia muito dessas coisas de duendes de natal, mas que talvez o “nosso” duende chegasse mais tarde porque a criança da nossa casa já tinha começado na escola, enquanto o amiguinho do outro lado da rua ainda estava no jardim de infância. Para meu espanto, ela aceitou e até concordou com minha explicação.

Para não correr o risco de que minha filha cresça se sentindo inferior às outras crianças porque nenhum duende vem nos visitar, depois que ela dormiu, escrevi, num papel vermelho, uma carta de duende endereçada a ela. Na carta o duende ameaçava fazer coisas desaparecerem da nossa casa se ele não começasse imediatamente a ganhar brunkager (em tradução literal, biscoitos marrons, que são em forma de bolacha, temperados com amêndoas, canela e gengibre e tradicionalmente consumidos no período natalino).

Ao ver a carta, minha filha se alegrou, mas ao ouvir o conteúdo da missiva, ficou visivelmente preocupada. Para desfazer a ruga de preocupação do semblante dela, combinamos que passaríamos a alimentar diariamente o duende com os biscoitos marrons. Colocamos então um biscoito marrom num saquinho dourado que deixamos perto do local onde o duende reclamão teria deixado a carta. Quando o biscoito some, normalmente uma vez por dia, reabastecemos o saquinho. Desde então nada sumiu de casa, o que, segundo minha filha, é sinal de que o duende está satisfeito com o tratamento recebido aqui em casa. Com tanto biscoito sendo comido pelo tal duende e minha incapacidade de jogar comida fora, o que me preocupa agora não são as coisas que podem sumir daqui de casa, mas sim as gramas a mais que podem surgir no visor da balança do banheiro.

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7 comentários Adicione o seu

  1. Você tem razão que ambas ganhamos muito. Obrigada e feliz Natal, querida Elisange!

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  2. O bom da história é que no final as duas ganham!!!!!!!
    A filha ganha no imaginário.
    A mãe ganha no físico e no imaginário.
    E as duas juntas, ganham no que se refere relação de amor!!!! Isso é que faz das datas comemorativas serem inesquecíveis! !!!!!
    Caiam na armadilha!!!!!!!
    Feliz natal aqui (Brasília, Rubiataba, na Dinamarca e em todos os mundos!!!!♡♡)

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  3. Patrícia Marmori disse:

    Há! Há! Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Vai, tá pensando o quê!? Não é fácil… Pensei que poderia comprar “brunkager”, na versão light, para mater a balança no lugar. Minha sobrinha é D+. Beijos.

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    1. Pois é, Patrícia. Acho que entrei numa fria no inverno dinamarquês. Mas no final das contas é muito divertido.

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      1. Márcia Marmori disse:

        Essa história de duendes no natal eu nunca ouvi falar! Mas adorei. Agora fala sério, 24 lembrancinhas para serem abertas, uma a cada dia até o natal é demais! Quanto o comércio não deve estar lucrando hein!!! Agora uma pergunta: se uma família tem três filhos, os pais compram 24 presentinhos pra cada filho???
        Bjcas

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      2. É verdade, Márcia, que o comércio faz a festa com a tradição dos 24 presentes. Conheço pais com três filhos que compram 24 presentinhos para cada filho. Há famílias onde a tradição é simplificada com um docinho substituindo o presentinho. Em outras famílias a tradição dos 24 presentes foi abandonada e substituída por 4 presentes, um em cada domingo do advento. Abraço.

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