Armadilha natalina II

Ulla Paaske nisser em foto de Peter Leth, via Flickr

Toda vez que acho que estou me safando das minhas missões natalinas, minha filha me apresenta um novo desafio. Antes de ontem ela me explicou algo muito interessante sobre a rota migratória dos duendes, algo que eu, apesar dos meus anos de jornalismo científico, desconhecia inteiramente. Todos os anos, para fugir do frio do inverno, os duendes ajudantes do Papai Noel deixam o Polo Norte e se mudam para a Dinamarca, onde se alojam em residências e prédios frequentados ou habitados por crianças até o início da primavera. Desse interessante fenômeno ela tomou conhecimento durante o tempo em que frequentou o jardim de infância.

Depois da explicação, ela me sugeriu com uma naturalidade que me deixou boquiaberta, que procurássemos por duendes nos armários da nossa casa. A razão era simples: os duendes de natal se abrigam preferencialmente em armários, embora também possam usar outras instalações que considerem aconchegantes e confortáveis. Ela queria ter certeza de que o nosso duende estava instalado confortavelmente e por isso me convocou para a importante vistoria pelos armários. Convocada, não pude me negar a cumprir minha missão de protetora dos duendes desvalidos e sem-teto. Mas, depois da ronda feita, ela teve de concordar com uma certa tristeza que nenhum duende havia se instalado na nossa casa, ainda.

Fiquei em dúvida sobre um detalhe e perguntei à minha especialista em seres natalinos como é que podemos ter certeza de que um duende está mesmo morando na nossa casa. Ela não chegou a virar os olhos, mas com um suspiro revelou sua impaciência com o meu desconhecimento tupiniquim. Mesmo assim ela respondeu em tom didático que, quando um duende se muda, ele carrega consigo apetrechos e móveis. Portanto, se achássemos, por exemplo, uma caminha num armário, ela certamente pertenceria a um duende. “Aaah, é claro!”, reagi com ar pateta.

“Mas se vamos atrás do esconderijo do duende, podemos acabar dando de cara com ele. Será que ele vai gostar de nos encontrar?” ousei perguntar do alto da minha ignorância materna. Desta vez ela não se conteve e virou os olhos, embora discretamente porque sabe que o hábito não é apreciado por quem lhe colocou no mundo. Deu mais um suspiro e explicou pacientemente que os duendes se escondem das pessoas e só aparecem à noite, quando todos estão dormindo, para comer o que os moradores da casa deixaram para eles. “Aaah, agora entendi!”, disse feliz com a nova adição ao meu conhecimento natalino.

No dia seguinte, preocupada com o risco que a ausência de um duende faria ao bem estar psicológico e social da minha filha, me vi fazendo uma rápida ronda por lojas da cidade à procura de mobília para o tal duende. Pensei em usar uma cama da Barbie mas depois de ver os modelos à venda, me convenci que o estilo perua rococó cor-de-rosa não agradaria o duende. Além do mais, o alto preço da mini mobília de plástico quase me ofendeu. A solução foi improvisar uma caminha de uma caixinha de papelão. A roupa de cama fiz com retalhos encontrados no porão. No meio da tarefa, pensei várias vezes sobre o ridículo da situação e sobre o tempo talvez exagerado que estava gastando com aquela brincadeira, mas acabei dando de ombros e terminando a missão de preparar as acomodações de inverno para o nosso duende.

Valeu o esforço. Quando minha filha chegou em casa, sugeri a ela que fizéssemos uma nova ronda pelos armários. Ao descobrir a caminha num armário na entrada da casa, ela ficou uns segundos calada, como se estivesse tentando compreender o que havia acontecido. Depois ficou alegre como um cientista que vê sua teoria comprovada. As duas horas seguintes passou horas enfeitando o compartimento do armário com decoração natalina. Cantarolava enquanto pendurava sinos, bolas de vidro e fitas prateadas na “casa de inverno” do duende. Irradiava felicidade.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Obrigada, Marilza. Tenho certeza de que seu netinho vai adorar ouvir histórias contadas pela avó Marilza. Abraços.

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  2. Marilza alves disse:

    Oi Margareth, que linda história essa que a sua filha contou sobre os duendes! A infância é uma fase maravilhosa qdo se tem família, saúde e liberdade de ação e pensamento. Na vida nada se compara a imaginação infantil. Eu tive uma infância muito feliz porque tive uma avó que me contava histórias, mil histórias, que repassei para os meus filhos (eles adoravam as tais histórias). Bem agora, estou esperando meu neto de um ano crescer um pouco mais para eu contar-lhe as tais histórias de minha avó Angela.
    Feliz natal pra você, sua família e seus amigos. Feliz natal para os dinamarqueses tambem.

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  3. Márcia Marmori disse:

    Após as explicações plausíveis de sua linda filha, estou convencida que você como estudiosa que é, deveria pesquisar e publicar um artigo sobre a vida e hábitos desses seres, os duendes. Afinal, nós que somos deste país tropical, temos muito interesse no assunto,será que também não estamos recebendo visitas dos duendes que fogem do inverno?? Isso é muito importante saber, somos leigos no assunto e depois disso fiquei bastante confusa já que a Xuxa, uma vez numa entrevista, disse que vê duendes e ela mora no Brasil!!! Kkkkk…….. Bjs…

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    1. A Xuxa vê duendes? Sem comentários.

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  4. leonice disse:

    Oi Margareth! Achei tão linda essa postagem.
    Na verdade é isso que precisamos, mais do ceias fartas e presentes tão caros, precisamos de histórias, de lendas e atividades que aproximem mais das fantasias, dos encantamentos… Enfim, esse é o verdadeiro espírito de natal e de outras festas, comemorações.. Parabéns pra você e para a pequena Gabriela que começou toda essa história. Bjs.

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    1. Obrigada, Leonice. Estou curtindo mesmo aprender mais sobre o Natal daqui através da minha filha.

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