“O Brasil é mesmo um mundo lento, onde as pessoas se preocupam mais com futebol e em curtir a vida”

English: University of Juiz de Fora, Brazil Po...
Universidade de "um país lento". Foto via Wikipedia.

O título desta postagem é minha tradução livre de um trecho de artigo publicado semanas atrás (página 6, caderno “Viden”, edição de domingo, 20.11.2011) na seção de educação de um dos principais jornais dinamarqueses, o Politiken, e que foi escrito por uma estudante universitária, Maj Thinggaard, que é aluna do curso “Estudos Brasileiros” na Universidade de Århus, na Dinamarca. O artigo, escrito na forma de diário, cobre uma semana da vida da estudante de 22 anos de idade que frequentou um semestre do curso de jornalismo na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) .

No artigo ela conta, por exemplo, que num dos “muitos feriados que se tem o privilégio de se desfrutar” no Brasil, por motivos que ela desconhece, tudo fecha, com exceção dos bares onde há sempre uma televisão mostrando jogos de futebol. Nesse dia de folga, percebendo os efeitos dos cinco meses vivendo em Juiz de Fora, a futura diplomada em assuntos brasileiros constata: “Devo ter me abrasileirado porque acordo tarde e durante umas duras horas curto um livro na rede”.

Lá pelas tantas, ela comenta: “O último dia de trabalho da semana é, como sempre, um dia de festa. (…) Depois de duas raras aulas bem sucedidas no curso de Jornalismo, vou me encontrar com um grupo de amigos.”

Mais adiante, uma conclusão brilhante de alguém que parece conhecer profundamente o país que a recebeu: “É verdade, o Brasil é mesmo um mundo lento, onde as pessoas se preocupam mais com futebol e em curtir a vida, mas se levarmos em conta o calor que faz aqui, não é realmente muito difícil entender por quê”.

Apesar do tom irônico e pretensamente crítico, ela deixa transparecer ter se adaptado sem problemas à lentidão, ao hedonismo e ao corpo mole dos brasileiros. Na aula de sua disciplina favorita (apresentação oral, minha tradução) “como de costume, não se trabalha muito duro, mas temos a chance de tentar fazer um discurso para a classe inteira e rir um bocado”. Ela também faz um elogio duvidoso a uma outra aula, cujo assunto ela não menciona: “Foi provavelmente uma aula extremamente interessante que eu no entanto não consegui ouvir da minha cadeira no fundo da sala de aula”.

Em nenhum trecho do texto a estudante demonstra estar sinceramente interessada pela qualidade do ensino que estava recebendo. Ela também não comenta nenhuma tentativa de tentar contribuir, mesmo que criticamente, para a melhoria do ensino. O texto deixa transparecer pouco caso e desinteresse pelo que deveria ser a principal razão da estada dela no Brasil: o curso acadêmico.

As conclusões apressadas da estudante me deixaram estupefata, mas o que mais me irritou foi irresponsabilidade do jornal Politiken de ter publicado um texto tão pobre. Não defendo que as opiniões negativas da estudante sobre o Brasil devessem ter sido censuradas, mas acho que um bom editor deveria ter exigido da estudante mais informações e análises sobre o que deveria ter sido o aspecto central da matéria: se o curso e a estada no Brasil teriam contribuído para a formação acadêmica dela.

Esta não foi a primeira e obviamente não será a última vez que me irrito com a forma como o Brasil é retratado pela mídia dinamarquesa. Na maior parte das vezes acabo engolindo em seco e tentando ignorar o que, para mim, são demonstrações do reduzidíssimo conhecimento que os profissionais de imprensa daqui têm sobre o Brasil.

Mas dois ou três atrás vi um texto no site do principal canal de televisão da Dinamarca, a DR, que reavivou minha irritação. Uma nota contava que o secretário geral da Associação Dinamarquesa de Handebol, Morten Stig Christensen, estava insatisfeito com a má organização do Campeonato Mundial de Handebol, realizado em São Paulo e encerrado no último final de semana. Segundo ele, especialistas europeus deveriam assessorar a organização da competição toda vez que o torneio acontecer em ”países tão exóticos quanto o Brasil”.

Achei quase engraçada a classificação do Brasil como exótico. Isso porque num planeta onde vivem 7 bilhões de pessoas, a grande maioria enfrentando megaproblemas e vivendo em megacidades, nada mais exótico do que um pequeno país com 5 milhões de habitantes que desfrutam de altíssimo padrão de vida, andam de bicicleta para ir ao trabalho e são regidos por uma rainha risonha mãe de dois príncipes simpáticos que se casaram com plebeias estrangeiras. Bem que eu gosto de algumas das excentricidades dinamarquesas, mas que tudo é mesmo uma questão de óptica, ah isso é.

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10 comentários Adicione o seu

  1. marilza disse:

    Perdoem essa menina – ela não sabe o que diz! Aposto que o mundo conhece muito mais o Brasil do que a Dinamarca, quem não conhece Pelé? Viva nosso futebol e nossa disposição à alegria! O que essa menina disse não tem pé nem cabeça. No Brasil existe muita corrupção, muitos problemas, mas nós brasileiros estamos aprendendo a sacudir a poeira e dar a volta por cima. Parece que as elites políticas e intelectuais dos países do resto do mundo (rs), ainda não entenderam que não queremos ideologias nem educação estrangeiras. Apesar dos pesares, estamos caminhando com nossas próprias pernas. A propósito, a Presidente Dilma Roussef passou um pito nos europeus e deu até uma “dica” de como gastar o dinheiro. Quem diria, hem Margareth?!
    Um abraço

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    1. Obrigada pelo comentário, Marilza. Apesar de serem de modo geral bem informados e cultos, os dinamarqueses conhecem muito pouco sobre o Brasil. Já me cansei de explicar, por exemplo, que no Brasil não falamos nem “brasilianês” nem espanhol e que não dançamos salsa no Carnaval. Aqui eles se interessam muito mais pela cultura norte-americana e sabem muito pouco sobre o que acontece no maior país da América do Sul. É uma pena que essa estudante não tenha aproveitado a oportunidade que teve para conhecer mais sobre nossa cultura e sociedade antes de sair emitido opiniões tão preconceituosas.

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  2. Leonice,
    Por favor não se desculpe por se indignar. Indignação é algo muito saudável e mostra que não somos indiferentes ao que se passa em torno de nós. Aliás, como às vezes eu gostaria de ver mais pessoas indignadas, bravas, furiosas e dispostas a fazer algo para mudar o que acham errado. Um abração, obrigada pelo estímulo e Feliz Ano Novo para você também.

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  3. leonice disse:

    Acabei de ver uma reportagem sobre a cidade mais italiana do Brasil chamada Nova Veneza e fico impressionada como no nosso pais cabe tantos países juntos, tão grandiosa é nossa capacidade de acolher, entender e principalmente respeitar culturas diferentes da nossa. E existem outras tantas, basta procurar ou viajar,,, Enfim! O que dizer a essa estudante que de conhecimento vai precisar “RALAR” muito! O nosso pais tem falhas sim, como qualquer outro no mundo, mas é tão maravilhoso que causa inveja. A cor, a raça, os sabores, as misturas, o clima, e também o futebol, afinal somos Penta não é à toa. Adorei a sua postagem Margareth e me desculpe a reação, mas também fico indignada com esse tipo de gente que cospe no prato que come. Um grande abraço e feliz ano novo com postagens novas! Valeu!

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  4. Carolina disse:

    Se uma jornalista, seja de qualquer parte do mundo, vai para o Brasil e quer escrever uma matéria sobre o dia-a-dia de um brasileiro, o mínimo que deveria ter feito era ter entrevistado diversas pessoas, de diversas classes sociais. Mesmo assim não teria como tirar conclusões sobre a vida “dos brasileiros” porque se vive de formas muito diferentes nos diferentes estados do Brasil.
    Ficar 1 semana presa seguindo uma universária (que no Brasil isso já expressa que ela é uma determinada classe social) e querer dizer que isso é o brasileiro, realmente é uma bobagem e um péssimo jornalismo.
    Também fico com muita raiva da forma como retratam o Brasil aqui na Europa.
    Acho que seria importante traduzir para o dinamarquês e enviar uma carta ao Politiken.
    Parabéns pela matéria! Adorei o último parágrafo.

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    1. Muita obrigada, Carolina. Concordo que precisamos reagir mais contra a visão estereotipada que vemos tão comumente estampada na imprensa europeia. Seu comentário me fez perceber que meu texto pode ter ficado confuso num ponto: segundo o jornal “Politiken”, a estudante é aluna de Estudos Brasileiros da Universidade de Århus, na Dinamarca, e não de jornalismo, embora no Brasil ela tenha frequentado um semestre do curso de Jornalismo da UFJF. Já corrigi a postagem. Um abraço, Margareth

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  5. Ana disse:

    Até parece que a vida de estudante por aqui é um stress total. No Brasil pode ser mesmo que os estudantes gostem de passar bastante tempo livre assistindo futebol e “curtindo a vida”. Assim como estudantes na Escandinávia parecem gostar de passar o tempo livre enchendo a cara de um maneira bem distante do aceitável (minha opinião).
    Quando há um problema de organizacão na Dinamarca eles dizem que “houve um engano”. Quando esse problema ocorre no Brasil a culpa é pelo fato de ser um “país exótico”.
    E assim seguimos na ignorância dos esteriótipos.

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    1. Obrigada pelo seu comentário, Ana Paula. O curioso é que o texto da estudante dinamarquesa me fez lembrar meus tempos de universitária, quando estudava de manhã, encarava um emprego em tempo parcial à tarde porque meus pais não tinha condições de me bancar, voltava para a universidade à noite, para jantar no “bandejão” da Universidade de Brasília e depois ia colocar a leitura em dia na biblioteca universitária. Quando sobrava energia, ainda arranjava tempo para participar do movimento estudantil que na época lutava pela redemocratização do país. Claro que a situação do país melhorou muito em vários aspectos, mas lembrar o quanto muito brasileiro dá duro para conseguir fazer um curso universitário, em contraste ao apoio que os estudantes dinamarqueses recebem do estado, torna o texto dela quase ofensivo.
      Um abraço, Margareth

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  6. Márcia Marmori disse:

    Decididamente essa estudante dinamarquesa não aprendeu absolutamente nada sobre o Brasil. Temos excelentes universidades e profissionais reconhecidos internacionalmente. Precisamos, é claro, de mais investimento por parte do governo brasileiro, falta muito mas, com certeza não vivemos no mundo da preguiça como ela insinua. É claro também, que nós brasileiros gostamos sim, de festas e de diversão. E, talvez isso seja muito bem merecido, coisa que ainda ela não percebeu. Ela não percebeu por exemplo que a maioria da população brasileira trabalha pelo menos 40 horas semanais e gastam muitas vezes 4 ou 5 horas diárias de seu merecido descanso dentro de um ônibus e de metrô pra ganhar 540 reais por mês. Ela também não aprendeu que se forem somados todos os feriados da Dinamarca e todos do Brasil, o resultado é praticamente o mesmo, apenas distribuídos de forma diferente. Ela também não aprendeu que ela é exceção vivendo dessa forma e provavelmente é uma “filhinha de papai” que não tem que trabalhar e pagar suas próprias contas. É lastimável que uma pessoa dessa será jornalista!

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    1. Pois é, Márcia, Se olharmos os fatos, achamos vários argumentos que mostram a superficialidade do texto da estudante. É mesmo uma pena que depois de seis meses, ela tenha aprendido tão pouco sobre o Brasil.
      Abração, Margareth

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