Estranha no ninho


Amalienborg med C.F. Harsdorffs kolonnade
Amalienborg, residência ofical da família real em Copenhague. Foto via Wikipedia

No último fim de semana, milhares de dinamarqueses foram para as ruas de Copenhague e da cidade vizinha Roskilde cumprimentar a rainha Margrethe II pelos seus 40 anos de reinado. Um jantar de gala encerrou uma semana de comemorações que atraíram dezenas de convidados de outras monarquias europeias e incluíram concertos, recepções e desfiles em carruagens.

Aqui no meu canto, republicana até os ossos, a semana foi mais uma daquelas ocasiões em que me senti verdadeiramente estrangeira, uma estranha num ninho de monarquistas. Uma das muitas coisas que não consigo entender é como um país tão avançado socialmente como a Dinamarca ainda mantém uma instituição tão iníqua e ultrapassada como a realeza.

Ultrapassada ou não, a monarquia continua popularíssima, o que provado pelas milhares de pessoas no frio de 5 graus do domingo agitando bandeirinhas vermelhas e brancas e gritando urras quando a rainha Margrethe e a família cada vez maior apareceram na varanda do palácio Amalienborg.

Do alto de sua popularidade, Margrethe já avisou que tão cedo não pretende abdicar, apesar de estar perto dos 72 anos de idade. “A tarefa do regente é para a vida toda” (esta e outras citações a seguir foram traduzidas por mim), ela disse numa entrevista ao jornal Politiken. A intenção da rainha parece ir contra a opinião da maioria dos dinamarqueses. Uma pesquisa mostrou que mais da metade deles prefere que a rainha abdique imediatamente ou no máximo dentro de dez anos para em favor do filho mais velho, o príncipe Frederik.

Como reação ao resultado da pesquisa, o jornalista e escritor Kjeld Koplev desabafou: “Serei eu o único a achar que seria uma catástrofe se a rainha deixasse o trono antes da hora para passá-lo para o príncipe herdeiro Frederik?” Segundo o jornalista, o futuro rei da Dinamarca ainda “é um jovem homem imaturo sem profundidade e também lamentavelmente desprovido de sensibilidade cultural e social”. Koplev menciona com ironia o apego que Frederik tem pela família ao lembrar que ele trabalha apenas 40 dias por ano. O artigo tampouco poupa a princesa Mary, casada com Frederik, que não estaria à altura do poder real. “Ela saracotea superficialmente pela vida no alto de saltos agulha com um sorriso afável nos lábios”

Mais de 500 pessoas reagiram contra ou a favor do texto de Koplev, que começou uma discussão bastante divertida. Em um dos comentários de apoio ao artigo, um leitor escreveu ainda se sentir indignado pela insensibilidade do príncipe Frederik em tempos de crise econômica. Ele cita o exemplo de uma pequena extravagância do herdeiro ao trono real, que mandou encrustar quatro diamantes numa motocicleta feita sob medida. Não resisti à curiosidade e, claro, fui conferir fotos da máquina, cujo proprietário completa 44 anos em maio.  Foi inevitável pensar na associação entre a crise masculina dos 40 e máquinas potentes.

Domingo, no mesmo jornal, um novo ataque contra a disposição para o trabalho de Frederik. Como membro do Comitê Olímpico Internacional (COI), o príncipe deveria, de acordo com as regras da organização, participar do conselho administrativo do Comitê Olímpico Dinamarquês (COD). No entanto, 27 meses depois de assumir o posto no COI, Frederik ainda não participou de nenhuma das reuniões ordinárias do órgão. Ele é figura frequente de eventos de gala e premiações esportivas, mas se mantém à distância das atividades administrativas e políticas , o que não sem sido visto com bons olhos por muitos dirigentes do setor.

É inútil imaginar que tanta crítica represente alguma ameaça ao futuro da monarquia. A maior parte da população continua achando que a realeza é uma instituição inofensiva que cumpre um papel importante ao, por exemplo, promover o país internacionalmente. É uma pena que essa promoção seja feita por uma família que simboliza a aceitação por uma nação inteira de que alguns seres humanos são melhores do que outros.

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1 comentário Adicione o seu

  1. leonice disse:

    E depois ainda dizem por aí que só em Brasília político ganha sem trabalhar, mas como diz o ditado: “Quem foi rei, nunca perde a Majestade!”

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