Falha na comunicação

English: Conversation
Conversation, by Nellie Mae Rowe. Imagem via Wikipedia.

Já há algum tempo ouvi no rádio do carro uma entrevista com uma dinamarquesa que, depois de viver anos em Nova Iorque, resolveu escrever um livro (infelizmente não me lembro o nome da obra nem o da autora) para contar sua experiência de viver longe do lugar onde nasceu, num país e cidades estranhos. Ela falou da dificuldade de se fazer entender, do quanto nos sentimos e parecemos burros quando nos expressamos em outra língua, do esforço que é ter de explicar frequentemente o que você quer dizer e da frustração causada por não conseguir ser compreendida.

Viver fora de seu país, embora enriquecedor, é um desafio para a paciência de qualquer um, seja uma dinamarquesa nos Estados Unidos, um brasileiro na Dinamarca ou um chinês na Africa do Sul. A entrevista me fez pensar sobre a minha própria experiência e como no dia a dia, como estratégia de sobrevivência, procuro ignorar pequenas irritações e insatisfações causadas pela minha dificuldade de comunicação com os nativos.

Me lembrei das vezes em que, tentando ser irônica, fui completamente mal compreendida. Daquele ar bobo de quem não entendeu nada que vejo no rosto das pessoas com quem, estupidamente, tento fazer piada de alguma situação. Ou, pior, de quando tento explicar uma ideia mais elaborada ou, a meu ver, mais criativa, e me olham como se eu fosse um ser extraterrestre com um raciocínio que funcionasse numa outra dimensão paralela e incomunicável. É o fenômeno dos raciocínios isolados pela barreira da cultura. Nesses momentos, me sinto invariavelmente só. Algumas vezes, furiosa.

Aqui, aquele ditado “para bom entendedor, meia palavra basta” não faz o menor sentido. Até duvido da capacidade dos nativos entenderem meias palavras. Mesmo com pessoas com quem convivo diariamente, é preciso explicar tudo di-rei-ti-nho para ser bem compreendida. E mesmo assim é bom explicar mais de uma vez para ter certeza de que tudo ficou b-e-m c-l-a-r-o. Dá uma canseira!

Meias palavras, significados subentendidos e ironia são alguns dos recursos que raramente uso na Dinamarca. Ao perceber isso, me dei conta de que perdi ferramentas de expressão que ajudavam a compor a minha identidade.

As coisas se complicam um pouco devido à minha pronúncia de estrangeira vivendo num país cuja língua aprendi já adulta. Embora em fale bem o dinamarquês, encontro frequentemente pessoas para quem meu sotaque ainda é um problema. Isso não acontece apenas comigo. Há muitos dinamarqueses que não tentam ou não conseguem entender um estrangeiro falando a língua deles. É de dar nos nervos quando alguém, talvez com preguiça de tentar entender dinamarquês de migrante, ignora o que você diz.

Faz tempo que vivi uma situação em que fui completamente ignorada depois de emitir uma opinião. Isso porque aprendi que aqui, se você tem uma opinião, deve expressá-la com firmeza e convicção, sem titubear, sem dúvidas na voz. Venda seu peixe sem vacilar. Pode até ser uma grande burrice, mas fale alto, como se fosse a coisa mais inteligente do mundo, para ser ouvido e, quem sabe, respeitado.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Felipe Fulanetto disse:

    Olá Margareth
    Eu sou Felipe Fulanetto de Campinas e tenho desejo de ir para Dinamarca. Gostaria de tirar algumas duvidas com você, se for possivel entrar em contato comigo.
    Muito obrigado.

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    1. Oi Felipe, você pode me mandar suas perguntas aqui mesmo no blog ou me enviar uma mensagem pelo Facebook: http://www.facebook.com/margareth.marmori. Se eu puder tirar suas dúvidas, será um prazer ajudá-lo. Abraços

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  2. Inés disse:

    É assim mesmo amiga. E você nunca tira a etiqueta de “exótica” e diferente da sua pessoalidade. A idéia de não poder fazer piadas nem ironias é frustrante mesmo. E seu nome nunca mais é pronunciado direitinho. Também para mim, espanhola no Brasil! Sorte que os sentimentos podem ser expressados também com linguagem não verbal.

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    1. É verdade, Inés. A etiqueta de “exótica” é não só cansativa como, em alguns casos, discriminatória. Quanto à linguagem não verbal, ela também pode ser mal compreendida, embora isso já esteja na minha lista de assuntos para um outro “post”.

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  3. marilza disse:

    Viver em nossa terra natal onde todos entendem nossas ironias, todos os “pingos dos iii”, é muito bom. Tem uma música do Fagner que diz + – assim: ” ….não nasci pra ser guerreiro, nem infeliz estrangeiro eu não invejo o dinheiro nem diploma de doutor; eu nasci pra ser vaqueiro, sou mais feliz brasileiro…” Entretanto, deve ser interessante conhecer outros países, outras culturas, isso alarga os horizontes além de somar conhecimento na bagagem de cada um. Eu adoro conversar com gente que convive ou conviveu com outros povos, para saber como é o bem e o mal em terras alheias.
    Um abraço

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    1. É mesmo muito interessante viver num outro país, Marilza, e não nego que aprendi muito vivendo aqui. Acho que hoje sou, por exemplo, muito mais tolerante com as diferenças culturais e de opinião Mas às vezes cansa e daí a razão para meu pequeno desabafo. Obrigada por continuar acompanhado o blog. Um abraço, Margareth

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