Preconceito até na hora da morte

Bolo para um casamento de pessoas do mesmo sexo. Foto Giovanni Dall'Orto via Wikimedia.
Bolo para um casamento de pessoas do mesmo sexo. Foto Giovanni Dall’Orto via Wikimedia.

O primeiro país do mundo a oficializar a união de pessoas do mesmo sexo não está imune a demonstrações inesperadas de preconceito. Semanas atrás veio a público a recusa de um sacerdote da igreja luterana da Dinamarca de celebrar o funeral de uma lésbica de 74 anos. A mulher havia vivido trinta anos com sua companheira, os últimos deles em união oficial.

Pressionado pela opinião pública e por seus superiores, o pastor da paróquia da cidade de Aalborg voltou atrás e se desculpou pela decisão, que ele tentou justificar com base em sua oposição ao casamento entre homossexuais. Mas o arrependimento oficial não foi suficiente para impedir uma série de reações à atitude do religioso. Em Copenhague, uma colega dele, a pastora Pernille Østrem, chamou o colega de burro. Pernille mostrou sua indignação de forma irônica ao mandou pendurar uma faixa onde se lia “Aqui celebramos o funeral até mesmo de sacerdotes burros de Aalborg” (minha tradução para “Her begraver vi selv dumme præster fra Aalborg”) em frente à igreja que dirige, no bairro de Nørrebro.

A polêmica surgiu no momento em que se discute se a igreja luterana oficial deve ou não realizar casamentos de pessoas do mesmo sexo. Embora tenha sido pioneira na legalização de uniões entre pessoas do mesmo sexo, a Dinamarca tropeça na hora de permitir que homossexuais também possam se casar na igreja. O atual governo liderado pelos sociais-democratas defende a ideia, que, no entanto, encontra grande resistência nos setores mais conservadores da igreja e sociedade.O assunto está em discussão no parlamento dinamarquês e uma mudança na legislação para permitir o casamento entre homossexuais deverá ser aprovada ainda neste mês de junho. Como na Dinamarca a Igreja Luterana é administrada e mantida pelo estado, o parlamento pode interferir em assuntos religiosos. Ainda assim, há bispos que já anunciaram que não pretendem acatar a decisão do parlamento. Uma pesquisa do Politiken mostrou que um terço dos sacerdotes da instituição se dizem contra a celebração de casamentos de casais homossexuais em suas congregações .

Há outros membros da Igreja Luterana que demonstram mais boa vontade em relação à mudança mas, mesmo entre eles, há dúvidas sobre se casamentos em entre homossexuais poderão ser celebrados imediatamente depois da mudança na lei. O motivo, explicam, é a falta de rituais para uniões entre pessoas do mesmo sexo já que os existentes só seriam adequados a pessoas de sexos diferentes.

Mas se não quiser continuar perdendo adeptos, é bom que a Igreja Luterana da Dinamarca crie logo rituais adequados. Pesquisas de opinião mostram que a maior parte dos dinamarqueses aprova a alteração da legislação e tentativas de mobilizar opositores à ideia têm fracassado. Em março, por exemplo, apenas 19 pessoas atenderam ao convite para participar de uma passeata contra o casamento religioso de homossexuais. A adesão minguada obrigou os organizadores a cancelar a manifestação.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Brasil, puxa, precisa resolver o básico do básico, acho o tema descabido para nós. Aliás, é bom que se diga, a educação pública de qualidade, coisa que nunca foi grandes coisas, caiu vertiginosa e vergonhosamente após as tais Diretas Já, quando os militares deixaram o poder. Isso, pouca gente questiona, e eu penso não haver tortura maior que negar ao seu povo ensino de qualidade.

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    1. Infelizmente o tema não é descabido para nós brasileiros, José Edward. Aqui o preconceito é ainda mais grave e tem uma face brutal, como mostram relatórios sobre o assassinato de 266 homossexuais somente no ano passado (http://www.institutoadediversidade.com.br/homofobia/assassinatos-de-homossexuais-batem-recorde-em-2011/).

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  2. Celia disse:

    Tão distantes e tão parecidos! Na Igreja Católica do Brasil a discussão sobre este tema permanece. Alguns sacerdotes a favor e muitos contra. A mesma divisão se apresenta entre os leigos. Há sacerdotes que acolhem casais gays, escrevem em sites GLBTS com pseudônimo pois já foram repreendidos / aconselhados a não se manifestarem em apoio público. Isso me faz recordar a época da ditadura militar quando Chico Buarque compunha suas canções com o estranho nome de Julinho da Adelaide. A união civil já foi aprovada mas também vem sofrendo resistências de algumas autoridades. No meu ponto de vista, este é um caminho sem volta. Felizmente a condição homossexual já foi retirada do rol das doenças e dos ilícitos. Ficou faltando o “dos pecados”. Questão de tempo. Quem crê em Deus só pode ser a favor do amor. Fiquei surpresa em saber que o Estado mantém relações financeiras com a Igreja na Dinamarca. Pela América Latina só conheço fato semelhante na Argentina. Muito bom que vc mantenha o debate na rede.
    Bjss
    Celia
    obs: mudei meu email, conforme abaixo.

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    1. Obrigada pelas suas observações e comentários, Celia, como sempre, muito relevantes. Também ainda me admiro das estreitas relações entre igreja e estado na Dinamarca. Apesar de toda a modernidade do país, há práticas e tradições a meu ver ultrapassadas que não devem mudar logo. Abraços, Margareth

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