Dia sem medo

[Depois de uma longa pausa, de volta aos meus textos “ões”: ficções, especulações, reflexões, elucubrações …]

Naquela manhã o medo não havia aparecido. Laura havia conseguido sair da cama e depois de casa sem tentar antecipar os problemas miúdos e graúdos que teria de enfrentar durante o dia.

A clara manhã de primavera tinha mesmo tudo para ser o início de um dia sem medo. O caminho para o trabalho fora tranquilo, como não experimentara havia muito tempo. Andara pelas ruas da cidade sem se preocupar com o que poderia acontecer ao virar a esquina.

Chegou ao trabalho despreocupada, esquecendo-se que teria de conviver com colega que parecia estar permanentemente concorrendo com ela e o resto do mundo. Sentou-se em frente ao computador e conseguiu se concentrar na longa lista de tarefas que havia organizado no dia anterior, sem parar para refletir se aquilo tudo não passava de uma grande perda de tempo. Nem cogitou questionar, como havia feito tantas outras vezes, se seu trabalho tinha algum valor. Apenas fez o que havia planejado sem novamente colocar em dúvida sua própria competência. Nem passou por sua cabeça pensar se havia algum sentido naquelas tarefas que pareciam as mesmas que ela havia completado no dia anterior, na véspera do dia anterior e em todos os outros dias dos meses anteriores.

Passou o dia assim, leve, talvez um pouco burra, mas leve. Quando deu por si, já era hora de voltar para casa. Deixou o trabalho apressadamente, mas sem dúvidas nem questionamentos. Saiu sem se lembrar de se perguntar se havia feito ou dito algo errado, se havia sido bem compreendida, se havia se comportado adequadamente ou se a importância do seu trabalho havia sido questionada.

Chegou em casa e encontrou o marido e os filhos sem sentir remorso por dedicar tão pouco tempo a eles. Naquele dia ela nem parou para pensar no quanto era privilegiada e no quanto devia se sentir grata, como sua mãe não se cansava de repetir. Tinha uma vida boa. Um homem que a tratava bem e dizia que a amava, dois filhos adoráveis e um trabalho que lhe permitia viver bem.

Mas, ao colocar as crianças para dormir lembrou-se que havia dias muito diferentes daquele. Lembrou-se dos dias tomados por um medo cuja origem ela não sabia explicar. Dias em que sua família, os amigos, os colegas de trabalho, as pessoas nas ruas, a cidade, tudo parecia querer questioná-la, provocá-la e ameaçá-la. Eram dias em que ela questionava a validade de tudo o que ela era, fazia ou tentava fazer. Era quando se sentia acuada, armada para lutar contra um agressor invisível que parecia vir de todos os lados.

Ela não sabia muito bem o que significava ser feliz. Mas devia ser algo diferente daqueles dias iguais que pareciam levá-la a um precipício. Algo que não incluísse aquele desconforto interminável e mal disfarçado. Felicidade devia ser parecida com aquele dia sem medo. “Viver sem pensar nos riscos que isso envolve”, resumiu para si mesma, se divertindo com a pretensão meio filosófica do pensamento.

Seus pensamentos foram interrompidos pelas queixas do filho mais velho que não queria ir à aula de tênis no dia seguinte. Reagiu com bom humor às reclamações e conseguiu colocar os filhos para dormir. Antes de ir para cama, sentou-se ao lado do marido para assistir ao noticiário de televisão que lhes trouxeram imagens de horror e guerra em terras não muito distantes dali.

Anúncios

Seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s