Noite de berros e roncos

A cidade do quarto de um hotel.
A cidade do quarto de um hotel.
(Relato inspirado em fatos quase reais. Os nomes das pessoas citadas são fictícios.)

***

“Você me traiu! Você me traiu!”, berra uma mulher no meio da noite. “Me dá o telefone, me dá o telefone”, uma voz masculina pede àquela que se dizia traída.

Ouço mais gritos da moça traída. Ela parece desesperada. Ou bêbada. Ou ambas as coisas. Devo olhar o que está acontecendo? Será que ela precisa de ajuda? Presto atenção aos ruídos vindos da rua embaixo da janela do meu quarto de hotel e logo em seguida ouço uma outra vez feminina num tom mais baixo tentar acalmar a vítima da traição. “Calma, Vera, calma. Dá o telefone para ele”. “Não dou, não dou, Cidinha! Ele destruiu minha vida, ele destruiu minha vida”, grita Vera aos prantos.

Tenho vontade de me debruçar no parapeito da janela e dizer: “Ô Vera! Agora que você me acordou, não me deixa curiosa! Que traição foi essa?”. Me contenho e tento voltar a cair no sono, mas é impossível. O palavrório lá embaixo continua. Para minha infelicidade, abafado pelo som de carros. Não consigo entender uma palavra que me ajude a saciar minha curiosidade mas o tititi é suficiente para me despertar.

Tenho ganas de seguir o exemplo da Vera e gritar como uma louca insone. Três horas da madrugada e, quando eu havia finalmente pegado no sono, veio essa dona gritar bem embaixo da janela do meu quarto. Lamento você ter sido vítima de mais uma infidelidade masculina, mas o que eu tenho a ver com isso, minha querida Vera?

Se ela continuar gritando, talvez eu deva encher um balde com água fria e despejar na cabeça dela. Ficaria traída e molhada. Não ajudaria muito a recompor o seu amor-próprio, mas pela menos a ajudaria a curar o porre. Meu plano, porém, encontra um obstáculo: não tenho um balde.

O traidor continua calado. Esse silêncio parece coisa de quem tem culpa no cartório. Sinto um pouco de pena da Vera, mas penso mais no meu cansaço. Quero tanto dormir e não estou nem aí para a traição, a traída ou o traidor. Só queria que eles saíssem de perto da janela do meu quarto de hotel, fossem resolver o imbróglio em outro lugar e me deixassem dormir em paz.

Ouço aliviada as vozes se afastando. Ufa! Agora posso dormir.

Não! Uma maldita motocicleta! Dá para acompanhá-la pelo ronco enlouquecedor do escapamento desregulado. Está vindo, vindo, passou em frente ao hotel, está indo, indo, se foi. Vá com Deus, como dizem os nativos. Ah, que alívio! Não consigo ouvi-la mais. Mas agora vem outra. Foi embora. Alívio.

É preciso dormir logo, antes do amanhecer que é quando começam os barulhos ensurdecedores dos motores, pneus, escapamentos e buzinas de carros, motos, caminhões, caminhonetes e ônibus.

Merda! Música ao vivo! Não acredito! Recomeçaram com a música ao vivo! Mas não tinham parado lá pelas duas da madrugada? Música ao vivo não, por favor! Se ao menos a seleção musical fosse boa! Mas não, só cantam porcaria.

Relaxa, relaxa. Respira fundo. Pensa numa bolinha percorrendo seu corpo, começando lá embaixo, no dedão do pé esquerdo. Não, do pé direito. Pé direito, pé esquerdo, tanto faz. Relaxa! Respira fundo. Isso, dorme, dorme.

Dormi.

Não, não dormi. Um ônibus parou no ponto em frente.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Compactuo com estado lastimável, já me acostumei, não faço nada. Mas, ficou muito legal o seu conto, gostei da história, o modo de contar, tudo. Enfim, você sofreu, mas nos ofereceu um conto de primeira. Ah!, e um conto com gosto de verdade. Super parabéns!

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  2. É verdade que quem faz barulho, na maioria dos casos, não percebe o quanto incomoda os outros. Tem a ver com o hábito e com o respeito ao próximo. Mas insisto que há de se valorizar o silêncio como o melhor ruido urbano.

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  3. Curioso mesmo que para tantas pessoas o silêncio seja considerado um vazio a ser preenchido a todo custo, Gustavo. Acho que em muitos casos é uma questão de mau hábito e, infelizmente, um problema que se repete em muitas cidades brasileiras. Se os incomodados como nós começassem a manifestar mais sua insatisfação com a poluição sonora, talvez pudéssemos mudar um pouco esse cenário.

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  4. Margareth, ignoro se o mesmo acontece nas outras cidades brasileiras, mas aqui em Campos o silêncio é considerado um vazio a ser preenchido, e não um som aprazível.

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  5. Obrigada, Celia. Vamos torcer pela Vera. Em relação ao barulho, algo que tem me impressionado é que aparentemente as pessoas se acostumaram a viver com o barulho constante das cidades, o que é uma lástima. Claro que sossego absoluto é impossível nas cidades, mas os níveis atuais de poluição sonora são absurdos e nos afetam muito mais do que imaginamos.
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    Bjs, Margareth

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  6. Celia disse:

    Bem-vinda ao RJ!!!! O barulho nas ruas é uma praga que, pelo visto, já chegou às cidades do interior. O único aceitável foi o som da dor da Vera. Encarar certas verdades não marca hora nem lugar. Vamos torcer para que ela supere rapidinho e faça melhores escolhas no futuro, e que você encontre um hotel melhor situado.
    Não se esqueça de deletar o celianovaes@oi.com.br pois embora vc tenha meu email correto cnovaes77@gmail.com , continuo recebendo no antigo que será desativado. Não quero perder o contato.
    Bjs
    Celia

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