Tapa na cara

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Reaprender a viver em seu próprio país envolve reaprender a conviver com suas dores e mazelas. Enquanto morava na Dinamarca, as férias no Brasil sempre foram motivo de alegria por estar de volta à terra da língua com que quase sempre consigo dizer o que penso e da cultura que me alegra e faz ser como sou. Mas eram também uma oportunidade para confirmar que apesar dos avanços em algumas áreas, ainda há muito para ser feito no Brasil. Desigualdade social, a precariedade dos sistemas de educação e de saúde, o caos urbano e o desequilíbrio ambiental foram alguns dos problemas que me afligiam nas minhas visitas.

No retorno à Dinamarca eu me sentia um pouco aliviada por não ter de viver essa realidade diariamente e, ao mesmo tempo, sentida por estar tão distante e impossibilitada de tentar contribuir, mesmo que minimamente, para a solução de tais problemas. Agora, de volta, a realidade está aqui, do lado de fora da porta, quase me dando um tapa na cara. A dúvida é o que fazer para reagir ao tapa.

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6 comentários Adicione o seu

  1. Apesar de nunca ter tido a experiência de ter morado fora do Brasil, acho que morar num país em que a qualidade pública do ensino é simplesmente melancólica, seja bom nele. Todos os países que chegaram ao topo tiveram que investir pesadamente na educação pública de qualidade. Eu me lembro foi depois que os militares deixaram o poder é que a educação começou a declinar vertiginosamente, embora o Brasil tenha sido sempre um país pobre, um país que vive até hoje da venda de matéria prima. Um dia eu li que a Alemanha fatura muito mais com o café do que o Brasil. Pode uma coisa assim, lá não nasce um pé de café e nós o temos em abundância? Sem educação pública de qualidade, sem que o povo esteja preparado, não vejo saída alguma. Se morar no Brasil é bom, só pode ser para quem tenha condições boas financeiras e pouco coração. Fala-se tanto, mas se mexe na causa. A grande causa é a educação pública de qualidade, o resto vem a reboque. Mas, estou gostando e aprendendo, você escreve muito bem, de modo claro, coeso… maravilha!

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    1. Concordo com você, José Edward, que educação de qualidade é requisito fundamental para o avanço do Brasil, mas não concordo que o ensino era melhor durante o regime militar. Talvez algumas escolhas fossem melhores, mas muito menos brasileiros tinha acesso à educação. Um abraço.

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  2. Margareth, com dizia Tom Jobim: “Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom.”

    Sou de Campos de Goytacazes e fiz intercâmbio na Dinamarca por um ano. Entendo bem o que você quer dizer.

    Também não sei como reagir aos tapas na cara, hora reajo com indignação, hora com resignação. Tenho 27 anos e o mundo de hoje me obriga a lutar pelo meu espaço antes de me preocupar com o meu meio. (não que eu concorde com esse modelo, mas isso é um fato)

    Por enquanto, com o tempo que me sobra tento fazer o básico, não jogar lixo na rua, respeitar as regras de trânsito e etc.

    Acredito que isso aqui só vai mudar significativamente quando a eduação no nosso país for levada a sério.

    abraços,
    Marcelo

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    1. Marcelo, muito obrigada pelo seu comentário.
      Fiquei anos na Dinamarca sonhando com uma oportunidade para voltar ao Brasil e estou curtindo muito o meu retorno porque o que Tom Jobim dizia vale também para mim.
      Fico feliz por saber que não estou sozinha nesse sentimento de estar sendo constantemente agredida pela dura realidade social brasileira.
      Se todos fizessem “o básico” estaríamos num outro patamar de desenvolvimento social no Brasil. Enquanto isso não acontece, acho que alguns setores mais “incomodados” poderiam se organizar mais e melhor em torno de iniciativas concretas que contribuam para corrigir as injustiças sociais e outros problemas do país. Você também deve ter visto na Dinamarca que, por mais que o estado seja eficiente e cumpra seu papel, um país bem sucedido precisa de cidadãos ativos em todos os setores da sociedade. Claro que precisamos exigir, cobrar e fiscalizar, mas não dá para esperar que o estado resolva tudo. Por outro lado, também sei que cada uma de nós precisa respeitar seus próprios limites e saber o tempo certo para agir.
      Abraços,
      Margareth

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  3. Celia disse:

    Você tem uma grande vantagem, aliás duas. O tapa dói em você com outra intensidade talvez porque a distância eventual te protegeu da anestesia com que temos que viver, em parte como defesa para continuar na luta. Sua outra vantagem, penso, é a capacidade de se expressar e transmitir tão bem as realidades sentidas. Você já está fazendo algo, e nem é tão pequeno assim. Aponte, analise, comente, reflita e nos ajude a perceber mais, melhor e diferente. Faça pontes.
    Bjs
    Celia

    obs: continuo preocupada porque vc está entrando pelo meu email q será desativado (celianovaes@oi.com.br) embora o registrado abaixo seja o correto (cnovaes77@gmail.com). Não quero perder o contato com vc.

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    1. Celia, muito obrigada pelo seu comentário. Compreendo a necessidade da anestesia como estratégia de sobrevivência, mas é preciso ficarmos alerta para evitar que essa saída nos torne insensíveis e passivos. Equilíbrio é uma tarefa difícil nessa situação.
      Quanto ao seu email, já tentei removê-lo, mas o sistema do blog não me dá meios para apagá-lo. Somente você, detentora do email, pode removê-lo da lista de seguidores do blog. O que você tem a fazer é remover o antigo email e assinar o blog com o novo endereço.
      Abração, Margareth

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