Ilhada no trânsito

Sinal de trânsito
Muitos motoristas de Campos aparentemente não foram informados sobre o significado da cor vermelha no sinal de trânsito (foto de  Rodrigo Soldon).

Adoro andar pelas cidades onde moro ou que visito, mas o caos do trânsito de Campos de Goytacazes está quase me fazendo abandonar esse hábito. Para uma cidade com menos de 500 mil habitantes, Campos tem um trânsito que é caótico demais, onde os pedestres que não querem arriscar a vida frequentemente se vêm ilhados por oceanos de carros cujos motoristas buzinam freneticamente sem motivo aparente.

Em algumas das avenidas mais movimentadas da cidade, como a Vinte e Oito de Março, onde fica o hotel onde estive hospedada, há trechos onde os pedestres são obrigados a andar na pista porque construções e muros tomaram todo o espaço das calçadas. Depois de alguns dias aqui, cheguei à conclusão de que é inútil procurar alguma lógica na localização das faixas para pedestres e dos sinais de trânsito. Procurei segui-las para tentar fazer trajetos mais seguros pelas minhas andanças pela cidade, mas foi inútil. Volta e meia, depois de cruzar uma faixa de pedestres, termino me encontrando do outro lado da rua sem alternativas para continuar meu caminho de forma minimamente segura. Por isso, muitas vezes, principalmente quando estou com minha filha, sou obrigada a dar voltas enormes para evitar correr risco de atropelamento.

Quase imediatamente depois de vir à cidade pela primeira vez, percebi também que muitos motoristas e motociclistas daqui têm aversão às regras de trânsito. Perdi as contas de quantas vezes presenciei o sinal vermelho sendo ignorado, algumas vezes durante o dia ou em pleno horário de pico. Em cidades maiores como Rio e São Paulo, a criminalidade poderia ser usada como justificativa para o desrespeito ao sinal, mas aqui essa desculpa não pega porque Campos é uma cidade relativamente segura.

Em outras cidades brasileiras, já vi muitas vezes motociclistas irresponsáveis fazendo ultrapassagens perigosas pela direita mas aqui quase diariamente prensem cio cenas inéditas para mim. Alguns dias atrás, por exemplo, um motociclista subiu no passeio à esquerda da pista onde minha filha e eu estávamos andando para ultrapassar uma fila enorme de carros parados no sinal vermelho.

Motoristas demais reforçam o péssimo exemplo. Também presenciei um motorista fazendo a mesma esperteza de subir metade do carro sobre a calcada para ultrapassar a fila de automóveis que esperava o sinal de trânsito abrir.

Ontem, ao parar num sinal vermelho em um cruzamento, onde havia a usual placa de proibido virar à esquerda, vivenciei algo inacreditável. Eu era a primeira na fila de carros da faixa esquerda da pista esperando o sinal abrir, enquanto na faixa da direita havia outra fila de carros. Quando o sinal abriu, o motorista do primeiro carro da fila à direita arrancou abruptamente e me bloqueou o caminho para poder virar à esquerda, provocando um buzinaço de protesto dos outros motoristas e quase causando um acidente. Isso tudo por volta das duas horas da tarde.

Pode até ser que muitos brasileiros já tenham se acostumando a cenas parecidas no trânsito de outras cidades do país, mas então é preciso dizer: isso não é normal, nem racional e pode matar.

Para piorar, o sistema viário e a sinalização de trânsito em Campos são confusos e podem induzir a erros de motoristas e motociclistas menos atentos ou recém-chegados. Além disso, Campos também está sendo engolfada pelo império do automóvel que toma de assalto o interior, como escreveu Reinaldo Canto em Carta Capital, mas o desrespeito às regras de trânsito só faz piorar o caos nas ruas da cidade.

Minha filha está infelizmente começando a se acostumar à ideia de que aqui é normal não parar no sinal vermelho e dirigir irresponsavelmente. Quando digo a ela que não devemos seguir o mau exemplo dos outros, ela sempre concorda comigo. Só espero que ela continue pensando assim.

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3 comentários Adicione o seu

  1. Brasil é isso aí. Agora, é o fanatismo do trânsito. Muito boa a matéria, escrita fina!

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  2. marilza disse:

    O que vc vê no trânsito é algo “terrivelmente” corriqueiro em nossas cidades. Eu que sou nativa, fico horrorizada com essa triste realidade brasileira, fico pensando como pode tanta estupidez!! Já trabalhei na emergência de um grande hospital público aqui no Rio, fazendo o boletim de atendimento, digo-lhe: é preciso ter nervos de aço, emoção e respiração controladas para ver os mortos acidentados no trânsito, na grande maioria jovens de 20 a 30 anos, ficam desfigurados, é uma cena dantesca! Não sei se em alguma época seremos um povo educado e responsável, talvez no ano de 3020. Só lamento.
    Um abraço

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    1. É possível nos tornarmos educados no trânsito, Marilza. Isso depende, claro, de educação, mudança de atitude e, também de legislação rígida e seu cumprimento e fiscalização rigorosa. Pelo que vi na Dinamarca, as coisas andam juntas e nem precisam demorar tanto para acontecer. Há uma geração atrás, lá era absolutamente normal depois de beber umas e outras. Hoje isso é inadmissível, um ato só praticado por pessoas desajustadas.
      Por mais que se invista em educação de trânsito, sempre haverá motoristas para os quais o volante é um brinquedo. Para eles, deve haver punição. Mas as mudanças de atitude também precisam do amparo da legislacão. As multas, por exemplo, são uma punicão, mas, em princípio, também devem ser vistas como um sinal da sociedade: existem para evitar que façamos algo que coloque vidas em risco. Talvez, através da educação, os mais jovens possam entender esse sinal. Um abraço

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