Missão radiofônica frustrada

Waves
Waves (Foto de Lynne Hand via Creative Commons.)

Me alegro ao ligar o rádio do carro, esperando encontrar uma estação tocando boa música brasileira. Presto atenção à letra que uma cantora com voz enjoada está berrando e logo noto que o melhor é mudar a frequência imediatamente. Ela fala de um ser que a faz estremecer e voar, que derrete seu coração e que a ama como ninguém nunca a havia amado. Inicialmente imagino que seja uma cancão romântica de mau gosto, mas logo percebo que ela se refere a um ser divino cujo nome não compreendi. Seria Deus, Jeová ou Jesus?

Como não estou muito interessada na crença da cantora, aperto o botãozinho para mudar a sintonia do rádio. Agora um cantor vem me dizer sobre a alegria de ter um amigo, “o príncipe da paz”, que o ama muito e que é forte como uma pedra. Percebo que novamente caí numa rádio com programação religiosa e mais uma vez mudo a sintonia.

Na terceira estação ouço uma voz animadíssima anunciando a hora: “Para glória de Deus, chegamos à uma hora da tarde”. Reconheço que é uma forma até original de anunciar a hora, mas fico pensando que a locutora faz uma injustiça com os povos antigos que, muito antes dos cristianismo, começaram a dividir o dia em unidades de tempo.

O entusiasmo admirável da locutora, que aconselha seus ouvintes a glorificar todo e cada evento do dia, não é suficiente para me manter sua ouvinte e mudo de estação para mais uma tentativa de ouvir música brasileira de qualidade pelo rádio. Chego então à minha quarta tentativa. O ritmo lembra um forró e me alegro. Será que finalmente vou ouvir algo interessante? Para minha quase agonia, a letra faz referência a “mulheres ungidas” que buscaram, choraram e viveram para agradar a Deus. Viver só para agradar alguém, mesmo que o alguém seja um Deus, é uma motivação bem fraquinha para viver, penso com meus botões. Depois das “mulheres ungidas” não tenho mais tempo para continuar meu passeio pelas ondas do rádio. Acabei de estacionar o carro em casa.

A invasão do espaço público das ondas de rádio por grupos religiosos ameaça estragar meu plano de retomar o prazer de ouvir música brasileira no rádio. Algo que eu antecipava com alegria quando, ainda na Dinamarca, pensava no retorno ao Brasil, era imaginar que poderia voltar a ouvir boa música brasileira no rádio. Cresci ouvindo música pelo rádio e em todos esses anos vivendo no exterior, eu sentia falta do meu antigo hábito de ouvir as estações de Brasília que priorizam os artistas nacionais.

Mas ainda não desisti. Dever haver boas estações de rádio FM em Campos dos Goytacazes. Só que na minha próxima tentativa sei que há várias frequências a serem evitadas.

Mais sobre o assunto:

Paulo Lopes: TV e rádio não podem estar a serviço de crenças religiosas

Observatório de Imprensa: Estado laico vs. proselitismo religioso

Blog do Roberto Moraes: Lista dos proprietários das rádios e TVs em Campos

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13 comentários Adicione o seu

  1. EDUARDO SILVA disse:

    Olá Margareth, tudo bem? Espero que sim.

    Eu tenho o mesmo sentimento que você (não ter a opção de ouvir boa música pelo rádio), mas não me incomodo com as inúmeras rádios religiosas e sim, pela baixíssima qualidade da programação das rádios de Campos dos Goytacazes (RJ).

    Moro na cidade há pouco mais de 5 anos e até hoje me sinto órfão de uma programação de qualidade com boas músicas, informações úteis, apresentadores menos tendenciosos e imparciais quando o assunto é política e em alguns casos, mais inteligentes (já ouvi cada coisa que parece piada)… tem uma rádio (96,1 FM) onde uma pseudo apresentadora (Dª Fofoca) não tem o menor respeito pelos ouvintes que prezam e gostam de ouvir coisa boa… além de fazer fofocas das vida alheia, o que já não é uma boa coisa (mas tem gente que gosta, né???… lamentável), de uns tempos para cá, está usando palavras de baixo calão (mer… para ela é como se bebesse água) como se fosse algo bom. Pelo amor de DEUS, eu não suporto mais isso… onde trabalho os colegas deixam o rádio sintonizado nesta estação e, por imposição, não por escolha, tenho de ouvir tamanha grosseiria (INDELICADEZA , FALTA DE ELEGÂNCIA ,GROSSO) todos os dias.
    Como eu poderia pensar em ouvir uma rádio como esta com uma programação tão pobre e chula, uma vez que tenho filhos menores de 10 anos e os ensino que não devemos falar palavrões, ser cordiais e, principalmente, respeitosos.

    Talvez alguém pense ou diga que eu não respeito o jeito dela, a diferença de geração e cultura, mas por favor, entendam que para uma pessoa que escolheu uma profissão pública, onde suas palavras chegam a centenas, milhares de lares, ambientes de trabalho, locais públicos e outros mais, suas palavras devem ser mais comedidas e mais refinadas, com conteúdo. Então, fica a questão para que quiser… eu não ouço !!!

    Para não dizer que tudo está perdido, tem uma rádio que está me agradando muito. É a EDUCATIVA FM 107,5. Boa música, um pouco menos imparcial em alguns assuntos, e claro, muito mais agradável. Se você ainda não conhece, fica a dica. Creio que vai gostar.

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    1. Olá Eduardo,
      obrigada por compartilhar suas impressões. Eu não sou contra grupos religiosos terem estações de rádio, mas as pessas como você e eu que gostam de outro tipo de programação deveriam ter alternativas melhores em Campos. Também lamento muito que o espaço público das ondas de rádio seja usado para tanta porcaria.
      A propósito, não moro mais em Campos mas aí a minha estação de rádio preferida sempre foi a Educativa.
      Abraços e felicidades,
      Margareth

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  2. Anonimous disse:

    Coitadinha de você querida, ah, se você pudesse entender as letras que você ouviu nas rádios cristãs, aliás, o Brasil é um país cristão, sabia? Embora tolere todas as religiões convivendo em paz com todas as ideologias, consagrando, em sua Constituição uma democracia onde podem conviver multiculturas, raças, tribos, nações em paz. É o único lugar no mundo onde um mulçumano e um judeu convivem harmoniosamente. Isso é Brasil, diversidade cultural.
    Todavia devemos tomar cuidado para que nossas convicções não se tornem radicais e intolerantes, afinal, um dos direitos fundamentais garantidos é o da livre expressão, assim sendo, seria muito mais conveniente que vossa senhoria procurasse entender um pouco mais sobre a cultura “góspel” e seus enormes benefícios para a sociedade brasileira, começando pela leitura da Bíblia, seu principal livro, provavelmente, assim, você compreenderá melhor, e quem sabe, mudará de opinião? Tenho certeza que talvez você preferirá essa cultura à cultura “Funk” com sua apologia à prostituição infanto-juvenil.
    Ser “laico” não significa ser anti-religioso, sem religião ou contra todas as religiões (como no comunismo e outras formas político-extremistas), mas sim dar total liberdade aos cidadãos a que escolham e propaguem livremente o que bem entenderem como cultura religiosa. Assim é o Brasil, nosso lindo, paradisíaco e maravilhoso país.
    Abraço, seja feliz.

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  3. Osmar Santos disse:

    MPB de qualidade?! Pois então experimenta: http://www.melodiaweb.com Na cidade de Rio Preto a rádio foi eleita pela população como a primeira maravilha da cidade.

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  4. Pelo menos pelos próximos anos, escolhi o Brasil, Maria Lúcia, que é o país que amo e onde me sinto em casa. Mas não amo cegamente e por isso expresso minhas opiniões sobre o que considero errado nesta terra. A “postura laica” é o caminho mais seguro para continuarmos fortalecendo uma democracia onde todos possam cultivar suas crenças ou descrenças livremente sem perturbar os outros crentes e descrentes.

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  5. maria lucia disse:

    O ar brasileiro respira culto religioso, portarias de edifícios ecoam rádios e pregações. empregadas domésticas fazem seus trabalhos diários sintonizadas nas palavras de pregadores de igrejas. Na televisão, no mínimo uns 10 canais ou programas diários com pregações e estilos próprios. Cantos, clamores, choros, catarse baseados nos textos dos evangelhos. Nas avenidas, ao estar dentro de seu carro, poderá se surpreender e perceber uma mudança automática de sintonia, para uma onda de outra rádio com mensagens de cunho doutrinal religioso, Não é magia, apenas a tecnologia monitorando e levando-a a “degustar” outra onda radiofônica. Ou você seleciona suas músicas e só ouve seu Cd ou, melhor ainda, em silêncio passa a observar o meio ambiente, acontecimentos nas ruas da cidade – comportamento no trânsito, respeito aos sinais, gentileza com pedestres, insultos, tolerância aos mais lentos e bicicletas. Perdas e Ganhos: Dinamarca ou Brasil…Kopenhagem ou sua cidade, em termos religiosos, a postura laica será bem difícil de encontrar por aqui. Decida-se e seja feliz !

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  6. Gostei da sua história, embora comecei agora a tentar entendê-la, a de alguém que morou tantos anos fora do Brasil e num país cuja qualidade de vida, imagino, caminha a passos largos em relação à nossa. Pra começar, que experiência traumática deve ter sido a sua ao se deparar com tanto fanatismo radiofônico, se, para mim, que vivo vendo isso há tanto tempo, não acostumei-me e não acostumarei nunca. Tá valendo! Abraços.

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    1. Obrigada, José Edward. Também acho difícil me acostumar a tanto proselitismo religioso nas estações de rádio.

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  7. Márcia Marmori disse:

    Te entendo perfeitamente. Estamos carentes de boas rádios. Em Brasília tem algumas que se salvam, como a Rádio Cultura, Radio Nacional, Nova Brasil FM e por incrível que pareça as rádios militares e rádios do governo tem uma programação excelente. São as rádios Verde Oliva, do Exército e a rádio da Aeronáutica que não lembro o nome e tem ainda Rádio Câmara e Rádio Senado, quando não estão transmitindo sessões.
    Boa sorte.

    Bjs

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  8. Vitor Menezes disse:

    Uma sugestão de rádio que só toca música brasileira: http://www.radionf.org.br . É uma emissora online destinada aos petroleiros, mas agradável para todos os que gostam de MPB. Abs

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    1. Muito obrigada pela dica, Vitor. O sítio já está entre os meus favoritos. Abs

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  9. Celia disse:

    Não sei se o alcance das rádios é o mesmo, mas na cidade do Rio de Janeiro temos a FM 90,3 MPB. Vc está numa cidade especialíssima pela história política vinculada às Igrejas Evangélicas. Também os canais de TV, em todo o país, têm vários programas religiosos ou são canais totalmente religiosos. Mais perigoso ainda são os partidos políticos ligados a tal ou qual igreja. Os meios de comunicação sempre estiveram vinculados a algum interesse ou ideologia. Prefiro, por enquanto, apostar no exaustivo exercício de convívio com as diferenças. Proibições à imprensa, escrita ou falada, são muito perigosas. Eu prefiro trocar de canal.
    Bjsss

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    1. É verdade que os meios de comunicação sempre estiveram vinculados a algum interesse ou ideologia e não tenho ilusão de que possamos ter veículos completamente apolíticos. Mas há limites para tudo. A radiodifusão é um serviço público cuja exploração é concedida pelo Estado e quando esse serviço é usado para proselitismo religioso, ele está servindo apenas a um setor da sociedade. É problemático que grupos religiosos dominem as ondas de rádio e privem o público de uma programação diversificada e culturalmente rica. Não estou me referindo à imprensa. O que essas emissoras estão fazendo é puro proselitismo religioso e não tem nada a ver com liberdade de expressão ou acesso livre à informação. Bjos

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