Imagens de Gaza

Rally against the siege of Gaza
Manifestação em Ontário, Canadá, em 2009, contra o bombardeio da Faixa de Gaza (foto de  Toban Black).

Entre o final de 2008 e início de 2009, durante a guerra em Gaza, quando trabalhava numa organização humanitária internacional, recebi durante vários dias e-mails com fotografias da destruição e morte provocadas pelos mísseis lançados por Israel contra a população palestina. As mensagens eram enviadas por palestinos ligados a organizações humanitárias atuando no território ocupado. Eram um grito desesperado de socorro.

Aquele conflito causou a morte de 762 civis palestinos, incluindo mais de 300 crianças, segundo o Huffington Post. Como responsável pelos websites daquela organização, achei que devia abrir os e-mails e verificar as fotografias. E o fiz.

No primeiro dia em que recebi as mensagens, abri todos os arquivos, a maior parte deles com fotos de crianças mortas com os corpos parcialmente cobertos por escombros. Foi muito doloroso ver aqueles rostos sem vida, ainda cobertos pela poeira causada pelas explosões. No dia seguinte, minha determinação esmoreceu e passei a apenas ler os textos das mensagens e olhar rapidamente as fotos. Perdi a coragem. Sabia que se insistisse em ver as fotografias atentamente, não teria condições de trabalhar.

Esta semana, um comentário no Facebook escrito por um ex-colega de trabalho na mesma organização me fez lembrar daquelas imagens. Esse colega, desde aquele época envolvido com organizações humanitárias atuando no Oriente Médio, através de um “post” no Facebook se questionou sobre a validade ou não de publicar fotos das dezenas de crianças palestinas mortas durante os recentes ataques israelenses à Faixa de Gaza. Atendendo ao pedido de um amigo dele, ele havia decidido deixar de publicar essas fotos aterradoras por vários motivos. Um deles se refere ao fato de muitas dessas fotos circularem pela web sem autorização das famílias das vítimas. Outro seria o choque e mal estar que tais imagens poderiam causar ao público. Finalmente, um outro motivo seria a inutilidade de usar fotos de crianças inocentes para tentar conscientizar usuários das redes sociais que, em sua maioria, provavelmente, não se importam com a tragédia vivida pelos palestinos ou se preocupam apenas momentaneamente com o assunto.

Esse é um tipo de discussão que volta e meia aflora e sobre a qual eu tenho mais dúvidas do que certezas. Concordo com a preocupação ética sobre o consentimento da família da vítima. As famílias das vítimas devem ser consultadas para autorizar ou não a veiculação de imagens de familiares perdidos para uma guerra, acidente ou crime.

Me preocupo menos com o receio de que o horror de uma guerra possar causar mal estar àqueles confortavelmente sentados em frente a um computador ou circulando num centro comercial portando um smartphone. O mal estar desses usuários é insignificante diante das perdas sofridas pelas vítimas das guerras. Para os que não estão nem aí com o que acontece às crianças palestinas, ver tais fotos não faz a menor diferença, mas se tais imagens contribuíssem para aumentar o coro dos que reagem contra a brutalidade e crueldade desse e de outros conflitos, talvez valesse a pena trazer ao público algumas dessas imagens. Se a publicação de tais imagens pudessem ajudar a salvar vidas, o desconforto dos usuários da rede seria um mal infinitamente menor.

Ainda assim não sei se valeria a pena publicar fotos, mesmo que aterradoras, para mostrar o horror da guerra. O que sei é que, no meu caso, ver as fotos das vítimas massacradas pelos ataques israelenses em 2008, ver imagens das consequências reais de um conflito armado reforçou em mim a aversão às guerras e o repúdio à opressão imposta aos palestinos pelo estado de Israel.

Mas me restam muitas dúvidas. Será que traz algum resultado que mais gente saiba como uma guerra acaba com a vida de pessoas que ainda nem sabem o que fronteiras, exércitos, Palestina, Israel e Hamas significam?

Há também o risco de vulgarização do tema, de que as pessoas passem a achar que tanta morte e destruição são normais, fazem parte da vida. O pior é que, no nosso mundo, fazem mesmo. Mas ainda insisto em acreditar que a vida tem mais a oferecer do que isso.

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