Do verbo quarar

Cristalina!!
Foto de Beto Simões

Há palavras que são como pessoas: somem da sua vida e, sem mais nem menos, voltam a fazer parte do seu dia a dia e lhe guiam pelos caminhos bifurcados da memória. Foi assim com o verbo quarar, que voltei a ouvir depois de anos de ausência do meu vocabulário e de cuja existência tinha quase me esquecido.

A moça que trabalha como faxineira aqui em casa me avisou que iria lavar as vasilhas e deixá-las “lá fora, quarando”. Me diverti com o a sugestão: quarar as vasilhas, como se fazia antigamente com as roupas, e me lembrei de um tempo em que, na falta de água encanada, os pratos e roupas eram lavados ao ar livre. Para economizar água, se colocava toda a vasilha suja numa bacia de zinco para amolecer a sujeira. Depois era pegar o quadro de sabão em pedra, ensaboar, ensaboar, ensaboar, passar tudo para uma outra bacia com água limpa para o enxague, que podia ser repetido até tudo ficar limpinho. Para secar, o mais prático era colocar tudo no quarador.

Me lembro de um quarador feito de tábuas no quintal da casa de uma tia que eu visitava sempre quando era criança. Quem se encarregava de lavar as vasilhas tinha de arear bem as panelas de ferro batido, alumínio ou zinco ou, do contrário, o serviço estava mal feito. Se as vasilhas eram lavadas ao ar livre, às vezes dava para achar por perto um pouquinho de areia para tirar na marra o pretume do fundo das panelas.

Num tempo em que máquina de lavar era uma raridade inalcançável e até sabão em pó era um luxo, se uma roupa clara aparecia com uma mancha, parte da receita para removê-la era o “põe pra quarar”. Mas sempre quase todas as roupas, depois de bem esfregadas, iam ainda ensaboadas para um quarador, que podia ser um gramado ou mato que estivesse perto da fonte de água.

A chácara da minha avó materna, numa área que já foi considerada remota em Taguatinga, cidade satélite do Distrito Federal, tinha uma bica fantástica, com esfregador de tábuas e água fria abundante vindo direto de uma mina, e cercada por muito mato para servir de quarador.

Visitar aquela bica no início da manhã, antes de todos os moradores e visitantes da chácara, era explorar o mundo da quietude embalada pelo ritmo da água corrente da bica. Ser a primeira pessoa a enfiar os pés naquela água no início das manhã era um privilégio delicioso. Eu enfiava os pés na água cristalina e gelada e os pousava no fundo argiloso do curso d’água como se esse fosse um dos maiores prazeres permitidos a um ser humano. Retiro o “como se fosse”: porque era um dos maiores prazeres permitidos a um ser humano.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Hanna disse:

    …voltei no tempo… Seu texto me proporcionou maravilhosas lembrancas…obrigada.

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    1. Fico feliz que o texto tenha lhe trazido boas lembranças, Hanna. Eu é que agradeço a sua leitura.

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