Terra de meninos

chão de brasília
Chão de Brasília (Foto de Amiantus / Creative Commons)

Era julho, tempo de férias. Estava quente e seco, muito seco. Os lábios ressecados daqueles meninos e meninas tinham rachaduras que a banha de cacau aplicada diariamente não havia fechado. O suor dos pés se misturava à terra fina e criava uma pasta entre os dedos que quase os impedia de andar com os chinelos de borracha já gastos. Mas eles não se importavam. Adoravam andar descalços e era o que faziam no caminho de volta para casa – os chinelos foram para as mãos e os pés tinham contato direto com a terra vermelha das ruas e passeios sem calçamento da Taguatinga da primeira metade dos anos 70.

A terra do cerrado havia deixado aqueles pés com uma cor esquisita, avermelhada, como se a pele estivesse enferrujando. Ana e a irmã mais velha se despediram dos primos, que moravam na outra extremidade da rua e, enquanto caminhava, passou a admirar suas unhas – quase pareciam ter sido pintadas com um esmalte de cor ocre, daqueles que a manicure da sua mãe guardava numa caixa de sapatos. Ah, a mãe. “Ela não vai gostar nadinha de nada de ver como estamos sujas”, pensou.

Vultos infantis cobertos de uma cor vermelho-amarronzada havia sido o resultado de uma tarde de molecagem com primos e amigos da rua. A brincadeira daquela dia havia sido nas valas e montes de terra que os operários haviam criado ao lado da estrada que passava perto de onde moravam.

Ana sabia o que ia acontecer ao chegar em casa. Ela e a irmã seriam mandadas “diretamente, imediatamente” para o banheiro, onde teriam de esfregar os pés com uma bucha vegetal. Se, depois do banho, a mãe ainda conseguisse ver algum resquício de terra vermelha nos pés das meninas, ela mesmo assumiria a árdua tarefa de esfregá-los. Colocaria as duas no tanque dos fundos da casa e, equipada com uma pedra-pomes ou uma escova normalmente usada para lavar roupas, faria o serviço insatisfatoriamente entregue pelas garotas. E aí, elas sabiam, ia doer.

Mamonas - Munição de guerra de meninos
Munição de guerra de meninos (Foto de  Lais Castro (ex-Nuage Bleu)/Creative Commons)

Apesar do risco de acabar no tanque como um par sujo de tênis, Ana achava que terminar o dia parecendo uma estátua de barro tinha valido a pena. O tempo passou e foi esquecido no esconde-esconde em valas e montes de terra e batalhas com caroço de mamona.

Nos finais de semana, operários davam lugar à meninada das redondezas que invadia o campo de obras criado para construção da rede de águas pluviais da cidade. Para a garotada, aquele pequeno mundo de poeira vermelha se transformava no parque de diversões que a cidade, pobre em espaços para atividades esportivas e culturais, não oferecia.

Os montes de terra e buracos eram ótimo refúgio para os ataques dos companheiros de brincadeiras, que se transformavam em adversários munidos de bagas de mamona colhidas ali por perto. Nas batalhas de mamona, eram todos cruéis uns com os outros, mas quando alguém não suportava mais o queimar dos estalos das bagas espinhentas nos braços, pernas e costas, pedia trégua que era solenemente respeitada.

Ana tentava se fazer de durona, lutava para não chorar de dor e continuar na batalha mas, de vez em quando, arranjava uma desculpa para pedir trégua. Dor nunca havia sido o seu forte. No caminho para casa, pensava com admiração na força física do primo mais velho, que desafiava todos ao brincar com as costas nuas. Bagas de mamonas em costas nuas doem como queimaduras e deixam marcas vermelhas na pele.

Antes de chegar em casa, Ana e a irmã viram de longe um redemoinho se aproximando. Lá em Taguatinga, cidade do subúrbio da capital do Brasil, o vento levantava a poeira vermelha e fazia redemoinhos onde, segundo a meninada da rua, o diabo se escondia. Primas mais velhas contaram a Ana a assombrosa história de um garoto que morava no bairro e que havia tocado o rabo do diabo quando foi propositadamente envolvido por um desses redemoinhos. Ana não sabia se acreditava na história mas, por via das dúvidas, passou a evitar aquele garoto que tinha mesmo – ela já havia percebido – um jeito meio endemoniado.

Os redemoinhos eram motivo para desespero das donas de casa e lavadeiras da vizinhança. No bairro de casas separadas por cercas e muros baixos, eles tinham campo livre para sair empoeirando e manchando de vermelho os lençóis brancos pendurados no varal ou as peças de roupa estendidas no quaradouro. As moradoras então se uniam para defender suas roupas limpinhas dos redemoinhos endiabrados. “Redimuim, redimuim!”, gritava uma voz feminina de um dos lados da rua sempre que o vento seco do cerrado provocava o fenômeno. Era o sinal para que outras vozes se juntassem em coro ao alerta e mulheres saíssem correndo das casas para tentar salvar as roupas do pó vermelho deixado pelo torvelinho.

Ana se divertia com os redemoinhos e torcia para que eles se formassem. Achava-os bonitos e, ao mesmo tempo, assustadores. Agora, no meio da rua, diante da chegada daquele redemoinho, talvez animada pela tarde de aventuras, decidiu que não fugiria do pé-de-vento. Ia esperar para ser envolvida por ele para averiguar se aquela história de rabo do diabo era mesmo verdadeira. Ao seu lado, sua irmã, ao contrário, correu apressada na direção de casa para se proteger da ventania. Ana ficou, se manteve firme, quase tremendo, mas não desistiu de sua missão. Porém, antes de chegar a ela, o redemoinho mudou subitamente de direção e fugiu da ousadia da menina.

Entre decepcionada e aliviada, Ana se virou e seguiu os passos da irmã na direção de casa. Talvez ainda houvesse tempo de impedi-la de contar à mãe sobre o enfrentamento frustrado do redemoinho. Se a mãe soubesse de sua tentativa, encontrá-la exigiria mais coragem do que ir atrás de diabos em remoinhos.

 

Para ler mais:

Texto gostoso sobre os redemoinhos de Brasília: Redemoinha, redemoinho, da jornalista Conceição Freitas

 

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