Obesidade é caso de irresponsabilidade social

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Bolacha do DVD do filme Muito Além do Peso.
Bolacha do DVD do filme Muito Além do Peso (original da bolacha está disponível para download no site do documentário).

É desoladora uma das primeiras cenas do documentário Muito além do peso, produzido pela Maria Farinha Filmes e que aborda a maior epidemia infantil da história – a obesidade. Uma mãe tenta negar um pacote de batatas fritas a seu filho de apenas quatro anos de idade, que tem problemas cardíacos e pulmonares devido à obesidade, mas acaba se rendendo à pressão do menino que, como num ato encenado, se joga no chão e grita pelo que quer.

Enquanto assistia à cena, torci pela mãe, dizendo a mim mesma “Resista, resista!”, mas eu sabia o que ia acontecer e, pelo jeito, o menino também. Ele sabia que se insistisse, brigasse, gritasse, esperneasse e se jogasse no chão, a mãe lhe daria exatamente o que ele queria: um saco de batatas fritas.

O constrangimento e impotência da mãe me impressionaram. Era evidente que ela amava e queria proteger o filho ao tentar negar-lhe a batata frita – mas não conseguiu resistir muito à birra do filho e acabou oferecendo-lhe as batatas fritas.

Ao ver a cena, pensei no quanto aquela luta era desigual. Não se tratava apenas de um menino fazendo cena por causa de um saco de batatas fritas. Por trás dele vi corporações gigantescas do setor de alimentos com seus orçamentos bilionários de marketing e publicidade, equipes e mais equipes de profissionais trabalhando em campanhas, mensagens subliminares, merchandising, brinquedos, outdoors, pontos em supermercados, embalagens, redes sociais e muito mais para convencer pais a comprar e filhos a devorar as porcarias que ousam chamar de alimentos.

Situações como aquela devem se repetir diariamente e inúmeras vezes não só no Brasil, como o documentário atesta, mas também em várias partes do mundo. Não há mais como negar que a obesidade infantil se tornou um problema grave de saúde pública e é urgente fazer algo sobre isso. E não há dúvida de que os pais precisam se esforçar para alimentar bem seus filhos, mas duvido que eles consigam assumir essa responsabilidade sozinhos, o que fica claro num outro trecho do documentário, quando um especialista resumiu bem uma das grandes dificuldades na luta contra a obesidade infantil: os pais só podem fazer boas escolhas alimentares para seus filhos se essas boas escolhas estiverem disponíveis.

No meu retorno ao Brasil, percebi que o leque de boas opções parece ter ficado menor. Nas prateleiras dos supermercados, néctares adocicados substituíram sucos de frutas naturais. Nas lanchonetes, onde antes era comum encontrar uma grande variedade de sucos naturais, agora quase só se encontram bebidas enlatadas. Vendedores ambulantes oferecendo frutas já descascadas ou em fatias, como laranja e melancia, parecem ter desaparecido das ruas.

Quando um supermercado abandona a venda de sucos naturais e comercializa apenas refrigerantes e néctares açucarados, fica mais difícil para uma mãe ou pai escolher bebidas mais saudáveis para o filho. Se as escolas permitem em seus pátios o funcionamento de cantinas que vendem batatas fritas, achocolatados carregados de açúcar, doces, balinhas e produtos similares, fica complicado para uma mãe ou pai tentar garantir ao filho uma merenda de melhor qualidade nutricional. Se as prefeituras deixam que praticamente na porta das escolas se instalem lanchonetes comercializando porcarias disfarçadas de alimento, fica quase impossível impedir que crianças e adolescentes, no caminho de casa, se encham de guloseimas gordurentas e adocicadas e percam o apetite na hora de almoçar ou jantar “comida de verdade”.

É desalentador ver o quanto as crianças brasileiras se tornaram obesas, mas esse é um quadro que pode ser mudado se os diversos setores da sociedade assumirem sua parcela de responsabilidade para solucionar o problema. Há sinais de que isso está começando a acontecer vindos de  países como Austrália, Reino Unido e Estados Unidos, onde estão sendo adotadas medidas para limitar o acesso das crianças a produtos excessivamente calóricos.

Uma prova de que algo pode ser feito nesse sentido vem da Dinamarca, onde grande parte das escolas do país proibiu a venda de refrigerantes e doces em suas cantinas. Da iniciativa privada dinamarquesa vem o exemplo dado pela rede de supermercados Irma, que já há anos privilegia a venda de produtos orgânicos e que, em 2007, inovou ao deixar de vender doces e salgadinhos na área dos caixas para evitar a chamada “compra impulsiva” de produtos pouco saudáveis. Esses produtos foram substituídos por frutas, algumas vendidas em embalagens descartáveis e prontas para o consumo imediato. É a “junk food” dando lugar à “fast fruit”.

Dá para ver o filme abaixo ou no site do documentário.

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