Entre dois tempos

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Relógio da estação (foto de Fabulas fafla).

Conviver com a atitude relaxada que muitos brasileiros têm em relação ao relógio depois de viver num país onde algo marcado para, por exemplo, começar as nove horas começa, de fato, às 9 horas nem sempre é fácil.

Na Dinamarca, se convidar amigos nativos para um jantar às 18:00 (eles costumam comer mais cedo do que nós brasileiros), prepare-se porque eles vão mesmo chegar às 18:00 e há um grande risco de que eles cheguem  às 17:55, pegando anfitriões brasileiros a caminho do banho, como algumas vezes aconteceu comigo.

No Brasil, encaro com bom humor quando o descompasso entre o horário marcado e o horário realizado acontece num evento social, entre amigos ou conhecidos. Também não sou a santa do ponteiro oco. Nas horas de lazer, procuro ter uma relação um pouco mais relaxada com o relógio, embora sempre procure respeitar o tempo dos outros.

Mas quando a impontualidade contada não em minutos, mas em horas acontece em compromissos profissionais ou na prestação de serviços, minha paciência diminui. Dias atrás, entrar no consultório de uma médica às 11:05 da manhã, quando a consulta com ela havia sido marcada para acontecer duas horas antes, foi algo que conseguiu mexer com meus nervos. O mais incrível é ter sido recebida como se nada de mais tivesse acontecido, sem um pedido de desculpas ou explicação para o atraso, o que me fez desconfiar que aquela é mais uma profissional da área médica que considera o tempo dela mais valioso do que o de seus pacientes.

O descaso com o tempo dos clientes se estende a diversas outros prestadores de serviços. Quando eles ignoram o relógio e atendem clientes na hora que lhes dá na telha, só se pode concluir que o minuto que passa no relógio deles tem mais valor do que o que passa no meu relógio.

O curioso é perceber que há clientes que consideram tal comportamento natural. Numa outra ocasião, ao reclamar com a secretária de uma outra médica sobre o atraso de mais de uma hora da minha consulta, outra paciente que também aguardava se meteu na conversa para defender a doutora. “Ah, mas com médico é assim mesmo!” Reagi: “Não, minha querida, não é sempre ‘assim mesmo’. Pode ser ‘assim mesmo’ aqui, com os médicos desta cidade”, mas não é sempre assim e não tem de ser sempre assim”.

Claro que minha reação foi mais a expressão de uma esperança do que uma certeza já que minha ausência de tantos anos no Brasil me dá pouco conhecimento de causa. De qualquer maneira, tanto em Campos quanto em qualquer outra cidade do Brasil, está mais do que na hora de clientes exigirem mais respeito e qualidade de seus prestadores de serviços, o que inclui os senhores médicos doutores.

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6 comentários Adicione o seu

  1. marilza disse:

    Concordo com vc Margareth, é uma falta de respeito, de civilidade. A ginecologista que consulto, chega atrasada de 2 a 3 horas, fico impressionada com a cara de pau dela!! Nenhuma desculpa, nenhuma satisfação, o pior é que são todos iguais, dentistas, terapeutas. Qdo reclamo, me olham com antipatia, como se eu estive errada! Essa é uma das infelicidades de ser brasileiro!
    Um abraço

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    1. Pois é, Marilza, se reclamamos dos atrasos, somos vistos como estressados ou chatos, mas acho que talvez devamos começar a boicotar alguns profissionais. Claro que é difícil romper vínculos com profissionais que conhecem nossa história médica, mas talvez devêssemos começar a usar pontualidade como critério para escolhas futuras. Abração

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  2. Leide Dinamarca disse:

    E Margareth, eu sei o quanto e irritante, ter um compromisso marcado para uma determinada hora, e o mesmo nao ser respeitado. Essa questão do relógio, e um caso muito complicado, tanto e, que qd eu vou ao Brasil costumo falar que( por exemplo,) um encontro, ou uma festa, vai começar 2 horas antes, pra tentar com isso, reunir o pessoal no horario certo, e existem pessoas que ainda chegam atrasadas. E realmente uma falta de respeito e consideração para com o outro. Beijos e boa sorte

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  3. robson disse:

    Acho que leva um bom tempo para se readaptar no Brasil depois de uns anos na Dinamarca. Vc acaba dando grandes mancadas, chegando na “hora certa” para um jantar no Brasil, que na verdade, é a hora inconveniente.Fica com raiva da falta de disciplina das pessoas. Outro dia li algo interessante sobre linguistica e tempo. Sociedades que têm o futuro verbal na lingua, como o nosso português, tem grande dificuldades de manejar o tempo e até mesmo em guardar dinheiro.

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    1. Ando mesmo dando umas mancadas por aqui, Robson. Leva um tempo e acho que, quando estiver quase readaptada, será hora de voltar. Onde você leu o artigo sobre linguística e tempo? Parece bem interessante.

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  4. railda disse:

    Gostei muito. Quando comento com meus amigos que o meu médico, do sistema de saude público da Dinamarca, me pedi desculpas depois de 10 minutos de atrazo, vejo no olhar deles um pouco de desconfianca…É como se não acreditassem na informacão. Talvez, até, seja mais facil viver pensando que não há outras formas e vai deixando…

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