Panfletagem fora de hora

CEPOP, a passarela do samba de Campos dos Goytacazes.
CEPOP, a passarela do samba de Campos dos Goytacazes.

Campos Folia é o nome do carnaval fora de hora de Campos dos Goytacazes, que consiste em desfiles de blocos e escolas de samba no sambódromo local, o Centro de Eventos Populares Osório Peixoto. No último sábado fui ao sambódromo ver o desfile do grupo especial das escolas de samba e saí de lá boquiaberta.

Infelizmente, meu espanto não se deveu à beleza das alegorias, ao ritmo dos passistas nem à poesia sincopada dos sambas enredo. Não havia nada de errado com o espetáculo apresentado pela única escola de samba que eu assisti que participava da disputa pelo título de campeã do desfile – Ururau da Lapa. Gostei muito dos carros alegóricos e fantasias e me alegrou ver grande parte do público cantando o samba-enredo junto com a escola.

Mas o que me impressionou no espetáculo foi o uso descarado do evento para uma gigantesca panfletagem da prefeita de Campos, Rosinha Garotinho (PR). O locutor oficial do desfile martelava a mais ou menos cada cinco minutos que o evento era uma “realização da Prefeitura de Campos dos Goytacazes, governo Rosinha Garotinho”. Telões espalhados pelo local mostraram incontáveis vezes uma prefeita vestida de azul e fortemente maquiada, no meio da pista, abraçando passistas, porta-bandeiras e outros participantes dos desfile.

Lá pelas tantas, meu marido, um dinamarquês desacostumado aos hábitos dos políticos brasileiros, disse que a propaganda nada subliminar da prefeita dava a impressão de que em Campos “não é o governante que está a serviço do cidadão, mas são os cidadãos que servem à governante com uma reverência semelhante à adotada por súditos em antigas monarquias”. Tive de concordar com ele.

Em casa fui atrás do meu exemplar da Constituição da República Federativa do Brasil, aquela ainda em vigor, de 1988, só para confirmar que seu artigo 37 proíbe a “promoção pessoal de autoridades ou servidores públicos” na publicidade dos atos, programas, obras, serviços e campanhas dos órgãos públicos.

Na internet abundam notícias sobre denúncias de emprego indevido de recursos públicos para promoção pessoal de agentes públicos e governantes em várias partes do Brasil, , mas muitos dos casos citados referem-se a em publicações, vídeos e outros materiais promocionais. Não vi nada relacionado ao uso de um evento financiado com recursos públicos para promover um político. Mas não dá para negar a esperteza da manobra: milhares de pessoas reunidas durante várias horas num ambiente festivo são bombardeadas com a imagem e menções simpáticas à prefeita.

Também é verdade que, no Campos Folia, os telões e a locução exerciam uma função dupla: para os fãs da prefeita, serviam para reafirmar, reforçar e consolidar a influência exercida por ela sobre os eleitores campistas, que deram à política quase 70 por cento dos votos válidos nas últimas eleições municipais. Para quem não simpatiza com ela, o bombardeio de promocional assemelhava-se a tortura psicológica. Como faço parte do segundo grupo, azar o meu.

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1 comentário Adicione o seu

  1. marilza disse:

    Rosinha Garotinho e seu marido Garotinho, deviam estar presos! A política brasileira está surrealista!! Também, com urnas eletrônicas “engatilhadas” não podemos fazer nenhuma mudança na política. Contudo, moro num país democrático onde o voto deveria ser facultativo, portanto voto NULO. Em eleição onde se sabe quem vai ganhar, que diferença faz o voto nulo?

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