Copenhague: a cidade que deu a volta por cima

Fonte da Halmtorvet, praça no bairro de Vesterbro. Foto de La Citta Vita.
Halmtorvet, no bairro de Vesterbro, foi um dos primeiros alvos do programa de revitalização de Copenhague. Foto de La Citta Vita.

A chegada da primavera e com ela da alta estação de turismo na Europa vai voltar a trazer uma pequena invasão brasileira em Copenhague. Como uma matéria do Correio Braziliense confirma, mais e mais brasileiros estão visitando a Dinamarca e a capital Copenhague é a principal destinação dos meus compatriotas na terra da rainha Margrethe.

Hoje, Copenhague não é apenas uma cidade que os turistas querem conhecer. Ela também tem muito a oferecer a seus moradores e é uma cidade para onde os dinamarqueses querem se mudar. Estatísticas oficiais mostram que ela recebe mil novos moradores a cada mês, o que não é nada mal para uma população de aproximadamente 560 mil habitantes e um ótimo negócio para os cofres públicos municipais já que os novos moradores pagam mais do que gastam dos impostos recolhidos pela prefeitura (kommune, em dinamarquês).

Mas nem sempre foi assim. A Copenhague que encontrei quando me mudei para a Dinamarca, quase 16 anos atrás, não atraía tantos turistas e afugentava os dinamarqueses, assustados com a má reputação da cidade. Para o resto do país, a capital era um ninho de problemas que só conseguia segurar grupos sociais sem recursos suficientes para fugir: estudantes universitários, aposentados e migrantes.

A classe média mais favorecida economicamente preferia viver num dos municípios do entorno da capital, onde encontravam melhores serviços públicos, como escolas e creches. Copenhague era uma cidade decadente, cada vez mais suja, violenta para os padrões escandinavos, desinteressante do ponto de vista cultural e, acreditem, paupérrima em opções gastronômicas.

Playground do avião que caiu, no Parque Nørrebro, em Copenhague. Foto de xmacex via Wikimedia.
Playground do avião que caiu no Parque Nørrebro, outro bairro que teve várias áreas modernizadas. Foto de xmacex via Wikimedia.

Mas aí algo aconteceu no meio da década dos noventa. Muitos apontam 1996 como o do início da virada. Naquele ano, a cidade foi a capital europeia da cultura, o que levou à realização de vários eventos que agitaram a vida cultural e injetaram ânimo na cidade. Outros dizem – e eu concordo – que o grande mentor de toda essa transformação foi o prefeito da cidade de 1989 a 2004, o social-democrata Jens Kramer Mikkelsen, arquiteto da parceria do setor público com o setor privado que provocou uma reviravolta na cidade.

Essa parceria foi se revelando em várias frentes. Ao longo dos anos, assisti à revitalização de bairros como Vesterbro, Nørrebro e Islands Brygge, e a criação de novas áreas residenciais na zona portuária e na ilha de Amager. Acompanhei o aparecimento de várias belezas – e algumas feiuras – arquitetônicas no cenário urbano e a renovação e construção de dezenas de parques infantis, praças e parques. Comemorei a despoluição de canais onde foram construídas piscinas ao ar livre de água do mar e a urbanização e embelezamento da orla da praia de Amager.

Presenciei também a melhoria do sistema viário para bicicletas e a inauguração do metrô e de novos espaços para cultura como a nova a nova Biblioteca Real (Diamanten), Casa de Opera, a Casa do Teatro (Skuespilhuset) e as salas de concerto da DR, o canal de TV estatal.
Vi ainda a mudança fantástica que ocorreu no cenário gastronômico de Copenhague. Antes a cidade tinha pouquíssimo a oferecer e os poucos bons restaurantes eram dominados pela cozinha francesa ou italiana. Hoje a culinária dinamarquesa é referência mundial e encontra alguns de seus melhores expoentes nas cozinhas de vários restaurantes de Copenhague.

Copenhague vista da torre de uma de suas igrejas.
Copenhague vista da torre de uma de suas igrejas.

Fundamental nesse processo tem sido o apego dos moradores pela cidade. Muitos estudantes que antigamente abandonavam a cidade depois de concluir os estudos decidiram permanecer em Copenhague e são eles, com seus impostos e engajamento, um dos grandes motores dessa transformação. São eles os grandes criadores e usuários de bens culturais, fiscais do trabalho do governo local e pagadores de impostos.

Administradores e moradores das cidades brasileiras talvez devessem olhar bem para o que aconteceu na capital dinamarquesa. Pode-se sempre argumentar que as cidades brasileiras têm problemas muito mais graves e complexos do que os enfrentados por Copenhague, mas firme vontade política e engajamento da sociedade poderiam trazer transformações consideráveis e promover um salto na qualidade de vida que as cidades brasileiras oferecem a seus moradores.

Enhanced by Zemanta
Anúncios

Seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s