Morenice em extinção ou a identidade descolorida

Caracóis
Os caracóis em vias de extinção são de outro tipo. Foto de csantos.napraia via Flickr.

Quando sonhei em retornar ao seio da pátria amada mãe gentil achei que voltaria a sentir o conforto de ser apenas mais uma na maioria castanha, cabocla, mulata, negra, morena e de cabeleira encaracolada ou crespa. Mas, no meu retorno à terra adorada, essa minha expectativa está sendo frustrada pela ação implacável de tingimentos, descolorações, oxigenações e reflexos. Para minha tristeza, pelo menos no que se refere à população feminina, meu país deixou de ser, no sentido literal da expressão, uma pátria morena. Cá entre nós, ser a única ou uma das poucas presenças estrangeiras e morenas num ambiente ou evento pode até ser divertido mas, depois de um tempo, cansa. Ser brasileira na Dinamarca significa frequentemente sentir-se uma estranha.  Essa sensação manifesta-se como resultado de diferenças culturais e dificuldades de comunicação, mas também de coisas mais banais, como a cor da pele. Principalmente em festas de família realizadas na parte continental  do país, onde o número de imigrantes é menor, fui frequentemente um solitário ponto moreno numa multidão de cabeças louras. Em ocasiões como essas, é difícil, por exemplo, deixar de se irritar com os nativos quando eles repetidamente se referem à minha língua materna como ”brasiliansk” em  vez de ”portugisisk”; ou continuar sendo gentil ao se recusar pela décima vez a ensinar os convidados de uma festa a sambar; ou, pior, manter o bom humor quando é necessário explicar pela centésima vez que você não sabe dançar salsa. Quando voltei ao Brasil, me alegrei com a perspectiva de voltar a me sentir parte da maioria que fala português, dança samba sem chamar a atenção e tem raízes multiétnicas. Entretanto, nos últimos meses, especialmente em ambientes frequentados pela classe média, tenho me pego procurando marcas da nossa sociedade multirracial para concluir que uma grande parcela das mulheres brasileiras está recorrendo aos salões de beleza para esconder traços capilares de sua origem multiétnica. A morenice da maioria foi embranquecida por reflexos, tingimentos e descolorimentos. Os cachos então, nem se fala. Foram esticados com alisamentos, alongamentos e chapinhas. O que vejo me dá sono pelo aspecto visual repetitivo conquistado algumas vezes a duras penas e graças ao uso de produtos químicos danosos à saúde. É um desfile infindável de mulheres com cabelos longos, lisos e, em sua maioria, artificialmente louros ou quase louros. O triste é notar o quanto esses arremedos de beldades arianas terminam se parecendo uns com os outros. A moda dos alisamentos e enlourecimentos não é apenas um fenômeno de moda disseminado e encorajado pela mídia. É também a negação em massa de uma identidade étnica e cultural única porque múltipla e a valorização de padrões de beleza que nos afastam das nossas raízes. Com a debandada das morenas, aqui na pátria amada idolatrada continuo me sentindo uma espécie exótica.

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12 comentários Adicione o seu

  1. Márcia Marmori disse:

    Que texto ótimo! Eu tb me sinto uma estranha no ninho pois assumo meus cabelos castanhos e cacheados. Em praticamente todo evento que participo eu sou a estranha, a diferente, a exótica, a doidona, a que não “cuida” dos cabelos. Enquanto 99% das mulheres estão com os cabelos loiros, escovados ou esticados e todas com a mesma cara!!!

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    1. É verdade, Márcia. As que mantêm os cabelos encaracolados ou crespos são vistas como as que não “cuidam” do cabelo. Cabelo cuidado, tratado com carinho é cabelo liso, de preferência louro ou com reflexo. Muito sintomática essa associação entre o cacheado e crespo com algo negativo, com aquilo que é tratado com desleixo.

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  2. cassuça disse:

    Quando eu voltei, senti uma certa pressão para fazer um das tais escovas, acabei escrava delas e o brilho e movimento da primeira (novidade é sempre bom, né?), transformou-se em falta de volume e fracasso certo de qualquer corte diferente. E o pior é que dificilmente o resultado é natural depois da segunda ou terceira aplicação. Aí demorou um ano sem nenhuma química para o meu cabelo voltar a ser enrolado (e o medo de não voltar ao normal?) e pelo menos eu acho que está mais bonito. Tive que resistir aos cabeleireiros, que são os primeiros a empurrar as escovas, mas super valeu a pena. Livre da química e da escravidão de London, marroquina, progressiva, maçã e escambal, recupero os cachos que nunca devia ter abandonado,.. E me sinto única também Margareth. Até minha mãe hoje tem cabelo liso!

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    1. Cassuça, não é mole resistir à pressão dos cabeleireiros. Já perdi a conta das vezes em que recusei as tais escovas, alongamentos, esticamentos, estiramentos etc. Aliás, não sou muito popular com os cabeleireiros porque só apareço de vez em quando para cortar cabelo, mas o pior é que até já tentaram alisar o cabelo encaracolado da minha filha. Na primeira vez que fomos nós duas cortar o cabelo numa cabeleireira aqui em Campos, a moça não desperdiçou muito tempo comigo. Aparou minhas pontas num minuto mas com milha folha foi diferente. Depois de cortar o cabelo louro dela, sem que nós pedíssemos e sem cobrar nada, se dedicou a alisá-lo com uma escova. Naquele dia, minha filha fez sucesso na escola, mas ela não gostou do resultado e me fez prometer que só voltaria àquela cabeleireira se eu pedisse a ela que nos dispensasse da cortesia. Dito e feito.

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  3. Vera Gomes disse:

    Pode ser também questão de gosto…

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    1. Pode mesmo, Vera. Mas não lhe passa pela cabeça que é meio estranho andar em centros comerciais ou comer em restaurantes onde a grande maioria das mulheres se parece uma com a outra? Será que não vale a pena questionar obre o porquê de tantas mulheres brasileiras quererem se aproximar o mais que podem de um modelo de beleza que é raro até na Escandinávia? Fui hoje a uma aula de ginástica frequentada por um grupo que incluía nove mulheres. Eu era a única que não tinha cabelo liso tingido de louro ou com reflexos claros. As oito pareciam todas irmãs. É moda? É. É gosto? É. Mas insisto que é preciso questionar as modas e gostos que nos tentam nos fazem parecer um monte de bonecas sem história nem genes próprios.

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  4. Robson disse:

    Todo mundo no Brasil tem um avo loiro de olhos azuis, ehehehe

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  5. Robson disse:

    ótimo texto

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  6. Robson disse:

    Margareth, a verdade nao é nem morena nem loira, a verdade é cinzenta, nao somos mais brasileiros e nunca seremos dinamarqueses…apesar do passaportes.

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    1. Obrigada, Robson. Prefiro acreditar que a verdade é multicor e nela deveria haver espaço para todos os tons e matizes. Do jeito que a coisa anda, sei que é querer demais. Nunca serei dinamarquesa, embora aqui no Brasil tenha ficado muito evidente que compartilho muitos valores com a sociedade dinamarquesa. Quanto a não ser mais brasileira, ainda estou resistindo. Mas me aproximo mais e mais do limbo.

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  7. marilza disse:

    Olá Margareth, seu texto procede, é verdade: nós brasileiras estamos “embranquecendo-nos e alourando-nos”, rs. Será que mais uma vez, não estamos imitando as negras norte-americanas? Quero ser breve na narração de minha história. Venho de uma família de avó paterna loura/olhos azuis e avô caboclo. Família materna avô alto belo e branquíssimo e avó cabocla, com bisa negra. Eu tenho 10 irmãs/irmãos de várias cores de pele e variantes de cabelos. quem tem cabelo liso, liso, vai ao salão enrolar, quem tem cabelo crespo vai ao salão alisar, rsrsrs. Eu tenho cabelos crespos e resolvi não mais alisar. Tô legal com meus cabelos crespos que se parecem muito com os seus, em sua foto de perfil. A pergunta é: será que isso não é coisa de mulher, com a nossa eterna insatisfação? Tá certo que o Brasil é um país preconceituoso, de forma velada/dissimulada, não vejo nisso um grave problema. “Eu não tô nem aí”. O grande problema, acho, é a forma como os estrangeiros enxergam o Brasil, como “o bordel do mundo”, justamente pela forma brasileira de despojamento e irreverência. Tenho outra pergunta: quantos brasileiros desconfiam que existe a Dinamarca? Pouquíssimos, né? Então estamos empatados, rs. “No Brasil, somos todos pardos”. Um forte abraço

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    1. Oi Marilza, talvez o tingimento e alisamento generalizados não constituam mesmo um grande problema, mas o que levanto aqui é que eles são sintomas da dificuldade que muitos brasileiros têm de aceitar suas próprias origens. Pode ser “coisa de mulher”, como você escreve, mas por que as mulheres brasileiras insistem tanto em aparentar algo que elas não são? Por que isso é mais generalizado entre as mulheres? São elas se impondo padrões de beleza inalcançáveis para agradar a quem? A elas mesmas, às outras mulheres ou aos homens? E quem alimenta essa eterna insatisfação? Talvez o mercado, os fabricantes de cosméticos e todos os negócios que circulam em torno deles. Mas não é só isso. Os fabricantes também se guiam pelo que os consumidores decidem fazer e temos visto exemplos disso, principalmente na área ambiental. Eu gostaria de ver as mulheres menos eternamente insatisfeitas com a aparência que sua carga genética lhes deu e ditando que o mercado valorize mais nossas raízes multirraciais.

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