Coque desalinhado

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Noite de verão. Foto de Astridsd, via Flickr.
Noite de verão. Foto de Astridsd, via Flickr.

Aquela criatura com o queixo levantado esperando o sinal de trânsito abrir era tudo o que Marilene almejara mas nunca conseguiria ser. Como outras que circulavam pelas ruas daquele país, aquela figura ao lado dela era firme e decidida. Sobre ela não pairava nem uma sombra de dúvida ou insegurança. Olhava para a frente, sem tempo para notar os que estavam ao seu redor. Em sua vida organizada e plena, não havia espaço para os outros que não fizessem parte de seus planos. Por isso ela os ignorava, afastando assim o risco de que se tornassem uma distração indesejável.

Marilene olhou aquela figura loura com os cabelos presos num coque intencionalmente desalinhado e super estiloso, como teria dito uma amiga que entendia dessas coisas de moda. Percebeu a beleza fria e alheia daquela mulher e repentinamente sentiu raiva e inveja. Rapidamente tentou substituir esses sentimentos por desdém. Desdenhar toda aquela elegância, firmeza e perfeição de traços era a maneira a que havia recorrido para se proteger. Admirar seria arriscado demais. Significaria entregar-se àquela cultura, na qual não conseguia e nem queria se encaixar.

A luz verde do semáforo movimentou o pé da ciclista loura, que seguiu seu caminho sem desconfiar das reações que provocara em Marilene. Lá ela se foi, imperturbável, pedalando, absorta em seus projetos, a caminho de metas que sabia exatamente como alcançar.

Marilene sentiu-se fraca, quase como se fosse desfalecer. Olhou-se e só viu confusão e dúvidas. Sentiu-se desinteressante e desnecessária. Ainda assim obedeceu ao sinal de trânsito e voltou a pedalar a caminho de casa. Superou uma pequena elevação da pista sem grande dificuldade e tentou apreciar a beleza do caminho que a levava até sua casa. Havia uma linda paisagem de verão a admirar e era urgente fazê-lo para evitar olhar para a confusão dentro de si.

Precisava se recompor, se apressar. À noite iria jantar na casa de amigos do trabalho. Estremeceu ao lembrar do compromisso. Iria voltar àquela casa perfeitamente decorada, onde tudo havia sido milimetricamente pensado com extremo bom gosto e sofisticação. Lá havia tanto bom gosto e sofisticação que nela ela se sentia um inesperado erro de impressão numa página de uma daquelas esplendidamente irreais revistas de decoração.

Mas não havia alternativa. Tinha de ir ao encontro de figuras admiráveis e abominavelmente irritantes, algumas parecidas com aquela ciclista loura.

Tinha de ir e ser simpática e agradável e fazer o possível para parecer inteligente. Mas tinha de ser uma inteligência sem fúria, sem grande entusiasmo, porque isso não seria bem visto. Fúria demais poderia reforçar a imagem que queria ocultar, a de um ser exótico, com resquícios de uma cultura selvagem. E ela não queria ser exótica nem selvagem. Não pretendia ser tratada como um deles. Sabia, isso era impossível. Queria apenas circular sem angústia e ser ouvida sem sobressaltos, desconfiança e desinteresse.

Mais tarde, já na casa perfeitamente decorada com extremo bom gosto e sofisticação, procurou refúgio num sofá. Tentou parecer alheia e ser esquecida folheando uma revista de decoração que deveria se chamar “For the wealthy only”. O jantar havia sido, como sempre, perfeito. Os talheres, o forro de mesa, as velas, os pratos servidos, a bebida, os copos … tudo, como sempre, impecável. As conversas, sobre os mesmos assuntos de sempre, as piadas, parecidas com as que havia já ouvido ali.

Marilene sentiu sono apesar do céu ainda claro da noite invadida pelo dia. Os raios oblíquos do sol vieram em seu socorro e revelaram algo insignificante mas inesperado naquele ambiente: uma fina camada de poeira sobre o candelabro ma-ra-vi-lho-so pendurado sobre a mesa de jantar. Um candelabro espetacular de um designer famosíssimo que devia ter custado os olhos da cara, empoeirado. Mesmo se sentindo imensamente ridícula, festejou a diminuta imperfeição na imagem sem rugas dos anfitriões.

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