Atordoamento

Entrega do Bolsa Família em Teresina
Justiça social incomoda tanta gente. Entrega do Bolsa Família em Teresina (foto de glaubercavalcante/flickr).

Há vários dias tenho pensado em escrever sobre as manifestações das duas últimas semanas no Brasil mas devo confessar que fiquei sem saber o quê. Há muitos escrevendo tudo e mais um pouco sobre as manifestações, o que dificulta a tarefa de ser criativa ou dizer algo que contribua para a discussão. Mas a razão do meu silêncio é, na verdade,outra. É que ando meio atordoada. Nem tanto pelo calor das manifestações de rua, ou pela presença de vândalos nas passeatas ou pelas tentativas de grupos de extrema direita de se apoderar da indignação da população para lançar sua agenda retrógrada. Como ex-militante do movimento estudantil e sindical, sei bem que há sempre os que ficam à espreita para sabotar movimentos populares. Além disso, ancorada em Campos dos Goytacazes, no interior do Rio de Janeiro, ainda nem tive oportunidade de participar de nenhuma manifestação.

O que me deixa perplexa não é o que vejo acontecendo nas ruas pela tela do meu computador. O que me confunde e me deixa sem ação é o fel que vejo escorrer das centenas de comentários, textos, ilustrações, fotomontagens e vídeos de publicados por usuários das redes sociais. O que está embananando minha visão é o ódio e rancor de pessoas que não conseguem tolerar opiniões que não se encaixem em suas visões frequentemente preconceituosas e mesquinhas de mundo.

Vejo rancor e desrespeito vindo de todas as direções mas que tem medidas e figuras do atual governo e do PT como principais alvos. São expressões de um sentimento destrutivo que parece se traduzir com “É PT, sou contra. Vem do governo, não presta. Quanto pior, melhor”.

Compreendo e apoio diversas das críticas ao atual governo e aos partidos que o compõem, mas me pergunto o que se ganha com tanta raiva e ofensas gratuitas, que me fazem lembrar comentários ensandecidos da extrema direita europeia contra imigrantes. Aqui, são brasileiros escarnecendo brasileiros. Infelizmente, o sentimento destruidor parece o mesmo.

Um tipo de reação que me choca é a repugnância que a classe média insiste em demonstrar em relação aos programas de inserção social do governo. Pessoas que há até pouco tempo eu respeitava chamam o Bolsa Escola de Bolsa Esmola, numa afronta à dignidade dos milhões de brasileiros que dependem desse repasse para ter uma vida mais decente.

Uma foto tirada numa manifestação mostra um cartaz empunhado por uma bem vestida jovem demonstrante que chega ao absurdo de questionar a orientação sexual da presidenta Dilma. Fico matutando se daquela cabeça não podia ter saído nenhum algo menos ofensivo e mais relevante para colocar num cartaz de protesto.

Perdi a conta das vezes em que li comentários em que o ex-presidente Lula foi xingado e chamado de alcoólatra, cachaceiro, bebum etc. Comentários de pessoas que o chamam de analfabeto são rotina. Penso na inutilidade das agressões gratuitas e ferozes contra uma pessoa que, duas vezes, foi eleita democraticamente presidente do Brasil.

Uma das minhas amigas o Facebook critica a proposta de plebiscito da presidenta Dilma argumentando que isso não vai dar certo porque o povão mal sabe ler e quando lê não entende o que está lendo. Será que ela realmente pensou no que escreveu ou está sugerindo o fim do sufrágio universal e o fim do direito de voto dos analfabetos? Será que ela não sabe que o voto para todos é uma das maiores conquistas da democracia?

De uma desconhecido li um outro absurdo: de que os beneficiados com programas de distribuição de renda do governo percam o direito de voto. Helloooo! O que é isso minha gente? Se é para retrocedermos dois séculos, por que não acabamos logo com o voto dos negros e das mulheres?

Há também incontáveis exemplos de irresponsabilidade de pessoas que repassam informações falsas ou manipuladas adiante. O objetivo, como sempre, atacar furiosamente um ou outro político. Vejo até mesmo jornalistas, que mais do que nenhuma outra categoria têm o dever de checar as informações que distribuem, compartilhando um textos exigindo que a presidenta prenda imediatamente, sem mais delongas, todos os envolvidos no mensalão, como se isso não fosse atribuição do Judiciário.

A ferocidade dos ataques atinge pessoas que não são no meio político mas que ousam serem simpatizantes do atual governo. Num comentário a uma crônica do Luis Fernando Veríssimo, um leitor tem o desplante de chamar o escritor de “mau caráter”.  Assim, sem mais nem menos, só porque ele não concordou com as opiniões que o autor revelou na crônica do dia.

Falta de leitura crítica das informações recebidas, que leva à propagação de informações equivocadas ou manipuladas pode, em alguns casos, até ser produto de ingenuidade, pressa ou despreparo. Mas a selvageria não tem desculpa: é resultado do preconceito e arrogância dos que se consideram os cultos, iluminados e esclarecidos de uma nação dominada que, para eles, foi controlada pela maioria ignara, “comprada” pela “bolsa esmola”.

Mas nada disso deveria me surpreender. O que acontece agora é que, através das redes sociais, blogs e comentários, estamos vendo, escancarada, a face atrasada e retrógrada de boa parte da sociedade brasileira. É a mesma parte podre que consegue se manter indiferente à miséria humana e se desespera com a possibilidade de perder privilégios. Daí os ataques insanos e ferozes a um governo que, por mais criticável que seja, está fazendo algo para pagar a dívida secular que o Brasil tem com os brasileiros das classes menos favorecidas.

Atualização: Sobre o mesmo assunto, copio comentário do jornalista Luis Carlos Azenha publicado no Facebook:

“Eu gostaria de saber qual é o hormônio que faz com que as pessoas escrevam no Facebook o que não teriam coragem de dizer numa discussão pública. Palavrões, racismo, homofobia, ódio de classe… Acho que o Mark Zuckerberg merecia um prêmio por desatar este transe sem cobrar 100 reais por hora. Acabou com a profissão dos psicanalistas.”

E artigo da jornalista Cynara Menezes sobre assunto relacionado: O ódio insano a Lula, uma neurose a ser catalogada pela psicanálise  

Enhanced by Zemanta
Anúncios

3 comentários Adicione o seu

  1. marilza disse:

    Olá Margareth, concordo com o bolsa família, porem discordo da forma aplicada, para se receber o bolsa família, é necessário o título de eleitor…
    Tem um vídeo circulando nas redes sociais, em que o Lula diz mais ou menos: “Cabral conquistou os índios dando espelhinhos e bugigangas, nós damos o bolsa família, pq pobre raciocina com o estômago” Não creio que seja montagem, é um vídeo bem antigo, Fiquei estarrecida!! Existe maior falta de respeito pelo povo do que essa declaração?! O que o governo do PT está fazendo pelo povo de tão relevante? Cadê a saúde, a educação, a moradia? Os pombais do PAC estão todos rachando e sendo interditados. E o Rio São Francisco, gostou do resultado das obras que iria sanar os infortúnios dos pobres sertanejos? O Lula e o PT não são os únicos responsáveis pela esculhambação nacional, essa patifaria é tradição da política brasileira, não importam os partidos, sucede que o PT tinha obrigação de ser honesto e fazer uma política eficiente, pois pregava a moralidade e a eficiência. Enganou o povo! Como diz Joel Rufino, professor e historiador: “O Lula é uma lenda de Paulo Coelho”. Tbm sou contra a direita, sou contra todas as formas de ditadura, acho que a democracia é a melhor forma de governo, qdo não é mascarada! Meu voto é nulo!
    Um abraço

    Curtir

    1. Oi Marilza, compreendo e compartilho parte do seu desencanto, mas ainda acho que tem sido através do voto que o Brasil está conseguindo avançar socialmente, com uma parcela maior da população tendo uma vida mais digna. Concordo que há muito o que fazer e acho que está acontecendo muito pouco nas áreas de moradia, educação e saúde. Acrescento à lista o sustentabilidade, meio ambiente e os direitos dos indígenas. Mas minha queixa é quanto à falta de seriedade e lucidez no debate nas mídias eletrônicas. Quando ao vídeo do Lula, você poderia me enviar o link? O único que encontrei em que ele fala algo parecido é na verdade uma crítica dele aos que tentam conduzir os eleitores pela barriga, algo que era corriqueiro na política dos antigos coronéis brasileiros. Textualmente, ele disse: “lamentavelmente, as pessoas são conduzidas a pensar pela barriga”. Se contextualizamos a frase dentro de uma análise mais longa que ele faz, o sentido não é aquele a que você se refere. Abraços, Margareth

      Curtir

  2. Muito bons seus argumentos, adorei.

    Curtir

Seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s