Não dá para ser mais concreto?

Talk talk talk talk talk talk...
Talk talk talk talk talk talk (Fale, fale, fale, fale, fale, fale) (Foto de THEfunkyman)

Conviver com estrangeiros tem contribuído para me entender melhor como brasileira e compreender algumas das minhas dificuldades de adaptação ao modo de ser dinamarquês. Uma queixa que tenho ouvido com alguma frequência de conhecidos estrangeiros que estão vivendo no Brasil é sobre a dificuldade que eles têm de arrancar de um nativo uma resposta objetiva e clara a uma pergunta aparentemente simples.

Um caso que ouvi, e que reproduzo com algumas modificações para proteger a identidade dos envolvidos, ilustra bem o que quero dizer. Foi contado como piada e trata da entrega de um equipamento montado sob medida a um desses estrangeiros com quem tenho conversado. O estrangeiro, no caso o dinamarquês Jesper, encomendou o produto e, naturalmente, quis saber quando o equipamento seria entregue. A resposta foi algo como “por volta das nove horas da manhã de quarta-feira”.

Chega a manhã da tal quarta-feira, passam das dez e meia e nada do tal equipamento aparecer. O estrangeiro liga para o fornecedor e quer saber se o tal equipamento já está pronto e quando será entregue. Resposta: “Daqui a pouquinho estaremos aí”. A resposta pode parecer satisfatória mas, na verdade, não responde à pergunta. Jesper, cujo nome lê-se “iespêr” mas que já se acostumou e até acha engraçado ser chamado de gringo, fica sem saber se o equipamento já está pronto e quando será entregue.

É quase meio-dia, nem sinal do equipamento e a paciência do estrangeiro está se esgotando. Ele liga para o fornecedor novamente e mais uma vez ouve algo que começa a lhe parecer uma secretária eletrônica:

– Estamos a caminho!

Duas horas mais tarde, o estrangeiro, impaciente, analisa as alternativas que tem: ligar para cancelar o pedido, ir à loja do fornecedor, gritar, arrancar os cabelos ou pular pela janela do quinto andar. Mas ele é de paz, paciente, controlado, detesta confrontos e não tem tendências suicidas. Resolve, portanto, ligar novamente. Já se sentindo um papagaio, repete as perguntas feitas anteriormente:

– O equipamento está pronto? Quando será entregue?

E ouve:

– Está tudo certinho. Já estamos chegando!

O gringo Jesper não acredita no que ouve mas, sem alternativa, desliga o telefone e volta a fazer o que fez desde as nove horas da manhã: esperar.

Persistente, pouco depois das três da tarde, Jesper volta a telefonar mas, desta vez o dinamarquês perde a paciência e, à sua maneira nórdica, explode:

– Não perguntei se estão chegando. Quero saber se o equipamento está pronto e a que horas será entregue.

O fornecedor, constrangido, se rende:

– Sabe o que é que é? É que tivemos um probleminha com a fonte de energia e nos atrasamos um pouquinho, mas agora está tudo resolvido.

Jesper, quase vitorioso por receber, finalmente, uma informação mais precisa, quer saber mais:

– Já que resolveram o problema, a que horas vocês entregam a mercadoria?

A resposta, imprecisa, chega num tom de voz mais animado:

– Ah, já, já tamo aí.

– Chá, chá (nota da autora: os dinamarqueses têm dificuldade em pronunciar o “j” português) quer dizer cinco ou dez minutos?

– É, é isso aí, rapidinho, rapidinho.

Às quatro e meia da tarde, o interfone toca no apartamento de Jesper, que finalmente recebe a mercadoria encomendada. Ele ainda está furioso com a demora na entrega, tem vontade de xingar, mas desiste por dois motivos: não sabe fazê-lo em português e, mesmo que soubesse, os brasileiros não entenderiam ou ririam do seu sotaque carregado de recém-chegado ao Brasil. Além do mais, dá pena xingar porque os entregadores até que são gente boa.

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8 comentários Adicione o seu

  1. Deolinda disse:

    Eu, como brasileira que sou, já me acostumei a esse tipo de atraso. O que faço? Quando compro algo, só conto com ele uma semana depois da promessa de entrega. Daí, fico numa boa, e muiiiito tempo depois, quando recebo a bendita encomenda, estando numa boa, vou curtir a minha
    compra com um pouco de alegria, até.

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    1. Entendo sua atitude, Deolinda. É uma forma de proteger seu bom humor, mas também é urgente que aprendamos a ser mais eficientes no Brasil. Há uma enorme, gigantesca perda de recursos valiosos por casa da ineficiência de vários setores da economia, principalmente da área de serviços. Para os estrangeiros desacostumados, isso é quase uma tortura.

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  2. vera rita disse:

    Espero que o equipamento esteja funcionando para que ele não tenha que ouvir que “já já” vão consertá-lo… (PS- Gosto de ler seus posts porque, sem ter tido ainda a oportunidade de conhecer a cultura dinamarquesa, começo a me entender melhor ou pelo menos a educação que recebi de meu pai e avós dinamarqueses…)

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    1. Vera, se o equipamento não estiver funcionando, temo pela saúde desse dinamarquês. Fico mesmo muito feliz que meus posts ajudem você a conhecer melhor a cultura do seu pai e avós. Fique atenta ao próximo post, que tratará de tema semelhante a esse. Abraços.

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  3. Alessandro Gagnor Galvão disse:

    E o cliente perde horas de seu dia em função de uma informação errada e irresponsável.

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    1. É essa perda de tempo que me assusta. Há muita perda de recursos na ineficiência, na demora e no atraso em todos os setores da economia. São pacientes esperando médicos atrasados, passageiros chegando tarde a compromissos porque o ônibus atrasou e assim vai.

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  4. Márcia Marmori disse:

    Mas esse problema de comunicação não acontece apenas com estrangeiros. Muitas e muitas vezes tive vontade de enfiar a mãe dentro do telefone (como se fosse possível) e dar um soco em quem está do outro lado da linha dizendo: já estamos indo! Affe isso é de matar! Chegam horas depois ou as vezes dias depois!

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    1. O problema com os estrangeiros é que eles levam o “daqui a pouquinho” a sério e pouquinho, para os dinamarqueses, se mede em minutos, não em horas.

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