Não dá para ser menos concreto?

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Literalmente, em dinamarquês, os talheres e os pratos repousam e as taças se erguem sobre a mesa. (Foto: Inspirational Food)

O caso que contei na postagem anterior me fez lembrar um artigo que li há algum tempo sobre a diferença entre as línguas latinas e as germânicas. Escrito por dois professores universitários dinamarqueses, o artigo, intitulado “Dinamarqueses pensam muito concretamente (minha tradução para “Danskere tænker meget konkret”), compara a ênfase que as línguas latinas dão aos substantivos com a ênfase que as línguas germânicas, incluindo o dinamarquês, dão aos verbos.

Por exemplo, se, em português, dizemos que um objeto está sobre a mesa, dizemos apenas isso: o objeto tal está sobre a mesa. Mas, em dinamarquês, o verbo usado diz exatamente como o objeto está sobre a mesa. Ele pode estar erguido (står), estar deitado (ligger) e, se for, por exemplo, um inseto, estar sentado (sidder).

Em português, quando queremos dizer que alguém está indo para casa, dizemos apenas isso: “Ela está indo para casa”. Em dinamarquês, é preciso ser mais específico e costuma-se dizer que a pessoa vai andando (går), dirigindo (kører) ou pedalando (cycler) para casa. Em dinamarquês não basta dizer que alguém está indo para casa, é necessário dizer “como” a pessoa está indo.

Por essa e outras razões, os autores do artigo concluem que o dinamarquês é uma língua mais interessante que as outras. Não sei se isso é suficiente para fazer uma língua mais interessante do que outra, mas as observações dos professores me deram algumas pistas para explicar meus problemas para me comunicar com os dinamarqueses.

Minha impressão é de que, entre brasileiros, meia palavra basta. Especialmente quando a meia palavra é acompanhada por um sorriso, um gesto, uma piscadela ou outra expressão corporal. Como brasileira, quando falo, falo também com meu corpo, mas isso raramente é compreendido pelos dinamarqueses. Eles querem precisão, clareza, frases completas, verbos específicos. Como os autores do artigo escrevem, cada frase dita por um dinamarquês forma uma imagem clara do que ele quer dizer. Já uma frase dita por um falante de português dá uma imagem difusa, com margem para interpretações diversas, mas que o contexto, o tom de voz e a expressão facial e corporal ajudam a definir.

Percebo então que algumas das minhas dificuldades para me comunicar com os dinamarqueses não se referiam apenas ao meu sotaque ou a um vocabulário pobre, que hoje em dia nem é tão pobre assim, mas, talvez e principalmente, devido à minha incompetência para me expressar de forma tão concreta, específica e precisa.

Suponho até que as dificuldades de comunicação do caso da postagem anterior não estejam relacionadas apenas à falta de profissionalismo do fornecedor, mas também à dificuldade que ele tem de perceber a importância da precisão para o dinamarquês. Para o fornecedor brasileiro, dizer “estamos a caminho” talvez até seja uma resposta honesta mas, para um dinamarquês, não é suficiente.

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