Sobre nossa dificuldade em dizer não

A birthday cake
Quem disse que vem nem sempre aparece. (Foto: Wikipedia)

Imagine que você tem uma filha adolescente adorável que vai fazer aniversário em breve. Você organiza uma festinha e convida os colegas da classe dela para a comemoração. Todos confirmam presença. Você, animada (o), encomenda bolo, doces e salgadinhos, compra refrigerantes, faz uma decoraçãozinha e providencia tudo o mais que é necessário para uma tradicional festa de aniversário. Mas, no grande dia, apenas um dentre os 25 que disseram que iriam aparecer na festinha realmente dá as caras. Sua filha tenta disfarçar a decepção, mas fica arrasada e você, claro, furiosa com o pouco caso e desconsideração dos colegas dela.

Situação parecida com a descrita acima aconteceu com uma família de estrangeiros que se mudou há pouco tempo para o Brasil. Eles acharam que os brasileiros, ao dizerem sim ao convite, tinham firmado o compromisso de comparecer à festa e realmente queriam dizer sim.

Ao ouvir sobre a festinha de aniversário frustrada, me lembrei do que uma amiga brasileira disse sobre porque os brasileiros nunca dizem não a convites, embora frequentemente deixem de comparecer a compromissos sociais firmados. “É que brasileiro tem medo de magoar, não gosta de desagradar a ninguém e prefere dizer sim a tudo para não entristecer o outro”.

Pode ser que minha amiga tenha razão. Talvez o brasileiro tenha mesmo uma dificuldade nata em dizer não, em desagradar. Eu, divagando, imagino que esse hábito possa ser resquício dos mais de três séculos em que grande parte dos brasileiros era escravizada e dizer sim ao senhor do engenho ou à sinhazinha era a opção mais segura. Talvez, como resultado, tenha ficado entre nós o hábito de querer agradar a todos, mesmo que isso nos custe quebrar a palavra.

Isso ajudaria a explicar o caso da festinha mal sucedida. Todos os convidados que confirmaram e não deram as caras provavelmente já sabiam que não poderiam ir à festinha quando disseram que iam. Mesmo assim não conseguiram dizer claramente algo como “não vai dar porque tenho outro compromisso” ou “sinto muito, mas não poderei ir porque não tenho vontade”. Preferiram dizer que iriam, sem nem pensar em ter remorso porque estavam mentindo. Deram a resposta mais fácil e com mais chances de agradar, no momento em que foi dada, à pessoa que a recebia.

Numa tentativa de contribuir para promover o entendimento entre os povos e evitar futuras decepções, frustrações e aborrecimentos entre os estrangeiros ainda não habituados à nossa inabilidade para dizer um não claro e redondo, apresento aqui o verdadeiro significado de algumas expressões usadas por brasileiros ao lidar com compromissos e horários.

O que falamos O que realmente queremos dizer
Já estamos quase prontos. Ainda estamos no chuveiro.
Estamos de saída. Ainda estamos trocando de roupa.
Estamos chegando. Nem entramos no carro.
Estamos quase aí. Acabamos de sair de casa.
Estarei ocupada, mas darei uma passadinha lá. Não vou lá.
Chegarei por volta das duas. Chegarei por volta das duas.
Vou atrasar um pouquinho. Vou chegar com umas duas horas de atraso.
É rapidinho. Deve levar no mínimo uma hora.
Um minuto só. Deve levar mais de 15 minutos.
Daqui a pouquinho. Daqui a pelo menos uma hora.
Estou acabando. Nem comecei.
Falta pouco para terminar (o que quer que seja). Nem comecei (o que quer que seja)

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3 comentários Adicione o seu

  1. marilza disse:

    Sinceramente não consigo entender esse comportamento! Eu mesma tenho boa parte dos parentes e alguns amigos que têm esse péssimo costume. Não creio que isso deva-se ao fato do “brasileiro não saber dizer não”, acho que é deselegância, pouca consideração. Resolvi não mais convidar essas pessoas para almoços e/ou festas.

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  2. Muito bem colocado, o pequeno artigo de Margareth Marmori, a respeito do comportamento indeciso do brasileiro,cuja dificuldade em dizer diretamente a sua intenção, acaba por anular a sua palavra, diante de um convite ou compromisso. Seu argumento na questão da “mentira branca”, baseado em reminiscências herdadas na época da escravidão, embora louvável, não justifica a marcante debilidade característica do brasileiro, em valer-se de um “não”, como resposta direta. Mas nos leva a muitas outras especulações, no que diz respeito a sua personalidade. Seria interessante convidar um antropólogo, um psiquiatra, um jornalista e um sociólogo para debater a esse respeito. Bem, fica aqui, pautada, a minha sugestão. Obrigado, Margareth Marmori, jornalista.

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    1. Muit obrigada por seu comentário, Regina. Pelo que sei, a mentira branca existem em todas as culturas. Mentimos muito para as crianças, para poupá-las de coisas tenebrosas demais, por exemplo. Mas nossa dificuldade em dizer não pode criar situações muito desagradáveis. Claro que devemos ser cordiais, mas também é possível dizer não cordialmente e quem o recebe precisa aprender a recebê-lo sem se ofender. Quanto à escravidão como origem da nossa mania quase irritante de não desagradar foi puro chute, mas talvez, como você sugere, mereça a atenção de especialistas.

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