Vizinha de muitos amigos

Dansk: Westend, 1661 Vesterbro, København. Fot...
Detalhe do bairro de Vesterbro, em Copenhague (foto de Lars Bregendahl Bro, via Wikipedia).

“Elisa estava mais feliz do que pinto no lixo. Ela e o marido haviam acabado de se mudar para um apartamento em Copenhague, bem maior e melhor localizado do que a lata de sardinhas onde tinham sido obrigados a viver durante meses depois da chegada dela do Brasil.

Sua nova casa tinha dois quartos, uma cozinha diminuta, um banheiro que precisava de reforma mas que dava para quebrar o galho por alguns meses e janelas grandes que iluminavam as paredes clamando por pintura nova para esconder as manchas deixadas pelos mais de 36.000 cigarros fumados ali durante dez anos (com sua mania de cálculos, ela concluiu que esse número seria uma estimativa razoável para o total de cigarros fumados no apartamento pelo casal de quem eles compraram o imóvel). Na área verde pertencente ao edifício, ela já se via pegando um solzinho e recebendo amigos para um churrasco no verão que, se Deus quisesse, não tardaria.

Elisa também sonhava em criar boas relações com seus novos vizinhos. Ela alimentava uma mania meio esquisita de achar que as pessoas deveriam reconhecer e saudar a existência dos outras com quem elas compartilhavam espaços, o que implicava em não ter de viver evitando olhares, fingindo ignorar quem lhes cruzava o caminho da lixeira ou da saída do prédio. Ela tinha até mesmo a esperança de fazer amigos entre os novos vizinhos.

Por isso fez o que lhe pareceu muito natural. Pediu ajuda do marido com o texto de uns convitinhos e os imprimiu na impressora que tinha em casa. Depois, com seu dinamarquês ainda meio capenga, saiu batendo de porta em porta no prédio para onde se mudara e convidando os moradores para uma pequena confraternização. Alguns a receberam muito bem e entre eles uns gatos pingados até prometeram aparecer. Outros a receberam com frieza e desconfiança e foram logo dizendo que não poderiam ir. Ela não se deixou abater até que, numa dos últimos apartamentos a visitar, encontrou uma vizinha que não poupou clareza: “Agradeço, mas vou logo dizer que tenho amigos demais que tomam todo o meu tempo e não tenho tempo para uma amizade nova. Por isso não irei à sua festinha”. Elisa sentiu como se a vizinha com muitos amigos e pouco tempo lhe tivesse batido a porta na cara, ficou sem palavras por um segundo, mas conseguiu balbuciar um “claro, entendo” antes de se despedir. A brasileira terminou sua rota de distribuição de convites, mas nos apartamentos restantes se contentou em colocar os cartõezinhos por debaixo da porta.”

O encontro da fictícia Elisa com a vizinha com muitos amigos e pouco tempo foi baseado em relatos que ouvi de duas brasileiras que conheci na Dinamarca. Ambas ouviram de dinamarqueses algo parecido com o que Elisa ouviu: eles não tinham tempo para novos amigos porque estavam ocupados demais com o círculo social que já tinham. Ao me lembrar desses relatos e relacioná-los ao meu texto anterior, sobre o que considero nossa dificuldade para dizer não, consigo entender mais o meu choque com a forma direta, sem meias palavras, às vezes dura dos dinamarqueses se expressarem.

Nos meus primeiros anos na Dinamarca, eu recebia “nãos” como se fossem bofetadas. A forma com que os que os dinamarqueses expressavam discordância com algo ou recusavam uma oferta, sugestão ou convite me deixou boquiaberta e algumas vezes ofendida. Depois fui me acostumando ao modo objetivo e indisputável do povo de lá se manifestar e consegui chegar a ver nele algumas vantagens. As discordâncias são claras e os nãos não dão margem a dúvidas, não criam falsas esperanças nem causam perda de tempo. Ainda assim, podem assustar brasileiros com pouco treino no jeito dinamarquês de ser.

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