Manda um empregado!

Efficiency Medal
Por essas bandas, poucos merecem uma medalha assim (Foto via Wikipedia)

Dia desses tive de cumprir o ritual de ir ao escritório de uma firma prestadora de serviços de saúde para solicitar autorização para realizar alguns exames médicos de rotina. Na recepção, uma funcionária me avisou que eu poderia encaminhar o meu pedido naquele momento mas que, provavelmente, só poderia buscar a tal autorização no dia seguinte. Me surpreendi com a demora, já que, a meu ver, o pedido poderia ser processado rapidamente pela internet. A funcionária, com ar de boa samaritana fazendo a caridade do dia, respondeu que tentaria me fornecer a autorização imediatamente, como de fato forneceu. Mas, advertiu, numa outra ocasião, eu não deveria esperar tanta rapidez.Perguntei por que uma simples autorização levava tanto tempo para ser emitida e ela mudou o tom de voz, dizendo:

– Mas eu estou tentando ajudar e a senhora ainda reclama?

O que se faz numa hora dessas? Deu vontade de berrar, de gritar pelo meu direito de consumidora de espernear e reclamar, mas fiz o que tenho feito com frequência ultimamente: ri, aliás, quase gargalhei. Não sei bem o que ela achou da minha reação mas, em seguida, veio com uma sugestão fantástica para que eu não perdesse tempo fazendo duas viagens àquele escritório na próxima vez que eu precisasse de autorização para um exame médico:

– A senhora não precisa vir pessoalmente. A senhora pode mandar um empregado.

Não entendi bem o que ela quis dizer e pedi que explicasse melhor.

– A senhora pode mandar alguém buscar a autorização: um funcionário, um empregado. É o que as pessoas aqui costumam fazer.

Voltei a ri, aliás, a quase gargalhar e reagi dizendo:

– Minha querida, eu não tenho funcionários nem empregados.

Quis continuar explicando a ela que, mesmo que eu fosse dona de uma empresa enorme, com centenas de funcionários, seria um absurdo desviar um deles de suas funções profissionais para resolver um problema pessoal meu, mas achei que não valia a pena encompridar a conversa. Ainda assim, ela não desistiu.

– Ah, então a senhora pode mandar um parente.

Não tinha jeito mesmo. Nem passava pela cabeça dela que, para evitar clientes insatisfeitos, a empresa que ela representava deveria era tentar ser mais rápida e eficiente.

O Santo da Paciência Oca havia me abençoado naquela tarde e tive forças para explicar que eu não tinha parentes na cidade. Quis continuar explicando a ela que, mesmo que eu tivesse parentes na cidade, eles provavelmente teriam mais o que fazer e que eu me sentiria constrangida em importuná-los para resolver um problema banal como aquele, mas achei que não valia a pena encompridar a conversa.

Saí de lá com a tal autorização e encasquetada com o diálogo. Ela não deve ter exagerado ao dizer que era normal que patrões e chefes ”usassem” empregados para buscar as autorizações. Concluí que os mesmos patrões e chefes deviam rotineiramente usar seus empregados para outros ”serviços” do mesmo tipo.

Estranha a cidade onde trabalhadores têm de resolver problemas pessoais de seus chefes e patrões, cumprindo tarefas para as quais não foram pagos. Mas, pensando bem, talvez eu não devesse ter me surpreendido com a sugestão. No dia a dia da cidade de Campos dos Goytacazes, mesmo em miudezas como essa, se percebe com clareza o quanto nossa sociedade ainda está viciada em hábitos atrasados, alguns deles herdados de um passado escravocrata.

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