Química ruim

Em férias em Brasília, fui visitar o planetário da cidade, reinaugurado poucos meses antes, na companhia da minha filha, irmã e sobrinhas. Toda contente por poder fazer um programinha legal com minha filha na minha cidade natal, me acomodei com ela em dois dos últimos lugares ainda disponíveis, um pequeno sofá onde já estava sentado um senhor com seus 55-60 anos de idade.

Antes de começar a sessão, um funcionário do planetário deu boas vindas à audiência e pediu que todos os celulares e outros equipamentos que tivessem câmeras fossem desligados para que a luz das maquininhas não perturbasse a exibição.

Luzes se apagam e o filme começa iluminando a sala quase totalmente escura. Mas o senhor sentado ao nosso lado decide fazer exatamente o contrário do que lhe foi pedido: liga uma maquininha e começa a filmar o filme que estávamos vendo no telão. Me viro para o senhor e pergunto no tom mais gentil que posso encontrar:

– O senhor vai desligar a câmera, não vai?

Ele responde sem titubear:

– Não, não vou não.

Não desisto:

– Mas o funcionário nos instruiu a desligar todos os aparelhos.

E aí vem a resposta que eu não esperava:

– Eu sou engenheiro químico e sou capaz de entender bem instruções.

Aquele é um desses momentos irritantes em que eu ouço algo tão sem sentido que não consigo achar uma resposta à altura. Fico procurando algo que dê alguma lógica ao que acabei de ouvir, enquanto murmuro para mim mesma um ”Aaah,é… hã!”

Minha filha, conhecedora do gênio reclamão da mãe e receosa de um pequeno quiprocó, me cutuca e pergunta num tom meio aflito:

– Mãe, o que é que foi?

Enquanto penso numa resposta para ela, imagino várias réplicas para o senhor da camerazinha:

– Mas meu caro senhor, eu não lhe pedi seu currículo, só lhe pedi que seguisse as instruções do funcionário.

Ou:

– Mas meu querido, creio que sua formação acadêmica e profissional não vem ao caso. Por favor, para que todos nós tenhamos a melhor experiência possível, lhe peço que siga as instruções da equipe do planetário e desligue sua câmera.

Ou, deixando a classe de lado, num volume um pouco alto:

– O que é que o cú tem a ver com as calças? Desligue logo isso ou eu chamo um funcionário!

Mas, ao sentir a angústia da minha filha, me lembrei do conselho de um psicólogo e fiz como ele havia recomendado: deixei pra lá. Me fiz magnânima e serena:

– Nada, minha filha, nada.

Assisti ao resto do filme fingindo que aquela luzinha incômoda do lado direito do meu campo de visão não estava lá para não encher de ansiedade e tensão o passeio da minha filha. Aproveitei para aceitar o desafio do psicólogo. Já provei a mim mesma inúmeras vezes que não temo me expressar, que posso sem problemas dizer o que me vai na telha. Mas falar o que pensa, reclamar e chiar têm custos que às vezes podem ser altos. Aquela foi uma boa oportunidade para praticar, com sucesso, minha nova habilidade de mulher pretensamente madura: a de me calar, a de deixar de dizer o que penso. O Senhor Doutor Engenheiro Químico não imagina a sorte que teve.

Enhanced by Zemanta
Anúncios

2 comentários Adicione o seu

  1. Deolinda disse:

    Muito legal… mas é tão difícil, às vezas, calar o óbvio, que a vontade é de partir prá cima, e a gente mesmo desligar a merda da máquina. Que falta de educação de um senhor tão instruído…

    Curtir

Seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s