Atrocidade recorrente

Passadas duas semanas da morte de Fabiane Maria de Jesus, continuo vendo fotos de seu assassinato sendo reproduzidas na internet. Parecem cenas de um pesadelo recorrente que me relembram a atrocidade que foi seu assassinato. Frequentemente me pego pensando sobre seus últimos momentos de consciência, na solidão absoluta e no desemparo imenso que ela deve ter sentido enquanto era xingada e espancada por seus assassinos.

O trabalho da pesquisadora Ariadne Natal, autora de tese sobre casos de linchamentos ocorridos na cidade de São Paulo e região metropolitana entre 1980 e 2009, mostra que, infelizmente, a morte de Fabiane não é um fato isolado. Segundo a pesquisadora,  “o uso da violência como solução para os conflitos é prática recorrente na sociedade brasileira”.  Ela estudou 385 casos de linchamento que foram noticiados pela imprensa entre 1º de janeiro de 1980 e 31 de dezembro de 2009.

Descobrir que se comete mais de um linchamento por mês só em São Paulo e região metropolitana talvez devesse me servir de cínico consolo. Os números poderiam me ajudar a analisar os linchamentos com frieza e a deixar de pensar na trágica morte de Fabiane que, afinal, foi apenas mais um dos ”justiçamentos” que acontecem principalmente na periferia das cidades brasileiras. Já que esse tipo de coisa acontece o tempo todo, o melhor mesmo é esquecer e levar a vida adiante.

Mas como se, ao esquecê-la, eu a estivesse traindo e participando da multidão silenciosa que assistiu calada ao seu assassinato, minha frieza dura pouco e novamente me pego pensando na dor de Fabiane. Me pergunto, mais uma vez, se ela conseguiu manter a esperança de que sobreviveria ao escárnio e à selvageria dos que a atacavam. Penso na dor física que ela sofreu, mas penso também na dor do adeus. Talvez ela tenha percebido que aquele era um adeus brutal às filhas, ao marido, a todos os que conhecia e à vida.

Será que ela teve uma chance de olhar nos olhos de seus assassinos? Será que ela viu naqueles olhos algum resquício de humanidade? E seus executores? Será que eles olharam nos olhos de quem eles humilhavam, chutavam e arrastavam? Se eles olharam nos olhos dela, o que viram? Conseguiram ver nela uma pessoa? Será que eles – assassinos e vítima – se viram como seres humanos?

A crueldade dos que a espancaram até a morte me apavorou. Ao ver fotografias de seu rosto deformado, o cabelo em desalinho, a blusa tomara-que-caia descobrindo parte do seio, percebi que, além de estarem matando Fabiane, estavam também despojando-a de humanidade, reduzindo-a a um ser indigno de respeito e compaixão.

Penso nas duas filhas de Fabiane. Para não preocupá-los, uma mãe não quer ser vista triste ou doente pelos filhos. Talvez, em seus últimos momentos, Fabiane tenha desejado que suas filhas não a vissem naquele estado.  Mas nem mesmo a esse hipotético desejo final Fabiane teria direito. As imagens de seu suplício continuarão por muito tempo circulando nas redes sociais  e sites de notícias.  Provavelmente, suas meninas serão confrontadas inúmeras vezes com suas imagens com o rosto desfigurado e o corpo coberto de feridas e hematomas.

Penso no mal que o linchamento poderá fazer ao futuro das meninas. A exposição da violência que a mãe sofreu na praça pública que são as redes sociais poderá causar a elas um mal tão quase devastador. Com a exposição de seu tormento no mundo digital, os assassinos de Fabiane conseguiram o ”feito” de reavivar indefinidamente o seu sofrimento na memória dos que mais a amavam.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Carminha Kiil disse:

    Olha Margarethe fique chocada!Coitada das crianças.Perde a mae da quede geito!

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  2. marilza disse:

    Olá Margareth, não sabia dessa pesquisa de violência no Brasil, Fiquei paralisada quando vi as cenas. Deu um nó na minha cabeça! Não consigo entender a barbárie! Será que o Brasil está doente? O linchamento é uma das coisas mais medonhas que entendo, porém as violências cotidianas das ruas, o povo estressado, a falta de segurança, de saúde, de educação, os preços dos alimentos triplicando, o Governo mentindo, plantando dados pinoquianos. Notícias plantadas incitando o ódio racial e de classes, acho que tudo isso desumaniza. “O povo tá ouvindo o galo cantar, só não sabe de onde vem o canto”. Isso é perigoso!
    Enfim, o Brasil é um país profundamente desigual!
    Um abraço

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  3. Eu me sinto do mesmo jeito. É como se eu, ao esquecê-la, a estivesse traindo… Exatamente como você disse, Margareth. É terrível. Tive pesadelos durante semanas. E ainda tenho, algumas vezes. Cada vez que estou só, com os meus pensamentos, penso nessa menina, nessa mãe, nessa senhora… Rezo por ela. (É tudo o que posso).E principalmente, agora, penso nas suas crianças. E os assassinos? Aquele povo? No que será que pensam? Será que lembram-se, sequer, desse dia?

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  4. Deolinda Sousa disse:

    É… volta-se à era medieval, em nome de uma civilização dita moderna, informatizada, mas cruel e sem resquicios de humanidade, onde a vida não possui valores, e o que conta é a condenação brutal e a vingança de tanto desamor.

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