Arrogância de letrado

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Exemplos do pouco caso que os pais dos alunos de uma das escolas mais renomadas e caras de Campos dos Goytacazes dispensam às faixas para pedestres.

O pequeno incidente com o Senhor Doutor Engenheiro Químico que relatei meses atrás frequentemente volta à minha cabeça por conta de notícias e observações que tenho reunido. Daí resolvi catalogar a história do ”sou engenheiro e consigo ler as instruções” numa série que também inclui o famoso ”sabe com que é que você está falando?” e o caso patético do juiz que queria porque queria ser chamado de doutor pelos funcionários do condomínio onde morava.

Nesses casos, vemos exemplos típicos da arrogância de letrado, que também chamo de boçalidade do diplomado. Já identifiquei o fenômeno em várias outras situações, como no conselho de uma pessoa conhecida e detentora de diploma de curso superior se referindo a uma nossa amiga comum: “Não adianta explicar, ela não vai entender”. Não me lembro bem qual era o assunto ”incompreensível”, mas nunca me esqueci da convicção da letrada sobre a baixa capacidade intelectual da nossa amiga comum, que não tem formação universitária.

Notei também tal comportamento nas mensagens de email que anos atrás recebia de amigos ironizando erros gramaticais e ortográficos encontrados em textos, placas e e sinalizações. O advento das redes sociais facilitou a reprodução do mesmo tipo de piada. Algumas até que podem ser engraçadas, assim como os erros de uma criança aprendendo a ler e a escrever o são, mas a mania de passar adiante e se divertir de uma das consequências da falta de acesso à educação de um grande número de brasileiros me parece uma mania doentia.

Não consegui deixar de associar tal comportamento à conversa que tive com uma professora da rede pública de ensino do Distrito Federal. Para ela, a solução para os problemas do Brasil está na educação pública com qualidade para todos. Concordo parcialmente com ela. Acredito que educação pública com qualidade para todos faz mesmo parte da solução dos problemas do país, mas não acho que seja suficiente. O Senhor Doutor Engenheiro Químico, o Senhor Doutor Magistrado e, mais recentemente, a turma VIP que xingou a presidenta Dilma Rousseff na abertura da Copa do Mundo, são provas de que educação, aqui traduzida como acesso ao conhecimento, não basta.

O Senhor Doutor Engenheiro Químico, do alto do seu diploma universitário, se arvora o direito de ignorar as instruções do funcionário do planetário e, dessa forma, prejudicar o momento de lazer de todos os presentes àquela sessão. Fico imaginando o que mais aquele senhor diplomado se acha no direito de desrespeitar. O sinal vermelho? O limite de velocidade? A fila do banco? A proibição de despejar lixo em terreno baldio? Assim como ele, muitos outros letrados e diplomados preferem interpretar as instruções e regras da maneira que melhor lhes convêm.

No Brasil, os membros das classes sociais mais favorecidas sempre tiveram acesso a educação de qualidade mas, de modo geral, nunca foram bons exemplos de retidão e cidadania e vejo exemplos disso várias vezes todos os dias. São diplomados os juízes que ignoram a injustiça de desfrutar mais de dois meses de férias anuais; os donos das empresas que pagam salários vis a seus empregados; e os funcionários públicos de que gozam do triplo privilégio de receberem salários altíssimos, terem estabilidade de emprego e, em alguns casos, se aposentarem aos 55 anos de idade. São geralmente diplomados os patrões que não se constrangem em desrespeitar os direitos trabalhistas de seus empregados domésticos; os legisladores que atribuem a si mesmos salários astronômicos e pouco condizentes com o pouco que trabalham; os passageiros que reclamam dos aeroportos ”invadidos” pelos beneficiados com o aumento do poder aquisitivo da população; e os que estacionam em faixa dupla e sobre a passagem de pedestres em frente à escola particular onde seus filhos estudam.

Por isso, fica difícil imaginar o Brasil como uma sociedade mais avançada enquanto boa parte dos que deveriam dar exemplos de retidão, cidadania e cortesia mostrarem o posto: como desrespeitar regras e direitos, acumular privilégios e agir com arrogância e soberba diante de grupos menos privilegiados da sociedade.

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1 comentário Adicione o seu

  1. Danielly disse:

    Muito bom texto!!!! É uma verdade! Meu pai sempre falou muitas vezes o faxineiro que limpa o prédio tem muito mais educação que o senhor juíz que mora no segundo andar….

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