Rotina das pequenas coisas

Copenhagen
Copenhague (Foto: Wikipedia)

Diante da luz vermelha na faixa para pedestres, olho para um lado, olho para o outro e, como não vejo carro à vista, meu primeiro impulso é atravessar a rua. Mas, quando me lembro que aqui não preciso me sentir uma idiota por esperar pelo sinal verde na faixa de pedestres, me detenho e só atravesso a rua depois que o homenzinho verde aparece.

Ao anoitecer, penso em fechar as janelas e portas para evitar a invasão de pernilongos que tantas vezes me roubaram horas de sono. No momento seguinte me lembro que a precaução não faz sentido porque eles são raros por essas bandas. Da mesma maneira, a preocupação com vasilhames com água acumulada – algo a ser evitado no Brasil para conter a proliferação dos mosquitos da dengue – vai finalmente me abandonando.

Estou de volta à Dinamarca, depois de uma maravilhosa pausa de dois anos no Brasil. Aqui, há pouco mais de um mês, ainda estou me divertindo e algumas vezes me inquietando com o exercício que é me reacostumar à rotina das pequenas coisas da vida no país que é considerado o mais feliz do mundo.

O exercício que é me reacostumar à rotina das pequenas coisas da vida na Dinamarca envolve todos os meus sentidos. Outro dia, passando em frente a uma padaria, me deliciei ao sentir o o cheiro gostoso de pães de centeio saindo do forno. Num supermercado, me surpreendi com o mal estar que me causou o cheiro das centenas de velas que enchiam uma prateleira inteira, o que me fez lembrar do hábito dos dinamarqueses de encher suas casas com luzes de velas, principalmente no outono e inverno.

Enquanto a falta de insetos, os cheiros e o respeito pelos sinais de trânsito são coisas fáceis de reintroduzir à rotina, tarefa mais complicada é a readaptação ao convívio social na Dinamarca. Lembrar de tirar os sapatos ao entrar na casa de alguém é moleza mas sempre me sinto uma desajustada quando, num evento social,  tenho de me apresentar aos que não conheço ou cumprimentar apertando a mão* um por um de todos os demais presentes. Aqui, nem adianta esperar porque não vai acontecer de ser apresentada aos demais convidados pelo anfitrião.

Entre dinamarqueses, nada de exageros na hora de expressar sentimentos: o entusiasmo deve ser contido, a raiva, controlada. Também ainda preciso me reacostumar à estranheza que causa puxar conversa com desconhecidos, algo que adorei fazer nos meus dois anos em Campos dos Goytacazes.

Mais uma para a lista: tenho de reaprender a deixar de lado meu lado irônico e sarcástico. Sei que nem adianta tentar usá-lo porque, provavelmente, aqui ninguém vai me entender.

* Adicionei o detalhe do “apertando a mão” depois de um comentário do meu amigo Robson Rocha. 

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1 comentário Adicione o seu

  1. inesgpintos disse:

    Adoro sua capacidade de observaçao e, ainda, supresa. Nao a perca nunca, amiga. Nem sua capacidade de critica e sarcasmo: se o pessoal nao comprende, o problema é deles!
    Seus comentários reafirmen minha idéia de que a Espanha está no meio das duas culturas…. embora eu me sinta mais a vontade com a brasileira!
    Saudades de você!

    Curtir

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