Inquietações de uma cidadã de segunda classe

Abro a página da associação de moradores do bairro onde moro e vejo um posting que me incomoda e que contém uma frase mais ou menos assim: ”Tem um estrangeiro mexendo na garagem de uma casa na rua”. O morador concluiu que o tal estrangeiro era um ladrão prestes a invadir uma casa. A associação na cabeça do meu vizinho foi imediata: estrangeiro + desconhecido + garagem de uma casa = ladrão. Talvez ele estivesse certo, mas fiquei me perguntando sobre como é que ele podia ter concluído com tanta certeza e rapidez que o estranho era um estrangeiro e, em segundo lugar, que tivesse intenções criminosas.

Vários comentários na página da associação denotam, justificadamente, preocupação com uma onda de assaltos no bairro. Os criminosos se aproveitaram que muitas famílias estavam de férias para roubar computadores, jóias e outros bens de valor. Ainda assim, o post que acabei de ler e outros que havia lido dias atrás me inquietam. Num deles, uma moradora dizia estar incomodada com uma van com três estrangeiros dentro que estava estacionada na minha rua. Naquele dia, três homens, dois estrangeiros e um dinamarquês, de uma firma especializada em polimento de pisos, havia passado o dia na minha casa. Provavelmente, o que a vizinha viu foi três trabalhadores numa pausa para o almoço ou café.

Por essas e outras, nem sempre me sinto bem-vinda na Dinamarca. A desconfiança com que muitos dinamarqueses encaram os estrangeiros me incomoda. Nos últimos dias, o debate causado por uma proposta para mudança da lei de imigração do país, apresentada pelo maior partido do país, o Venstre, trouxe de volta um desconforto que vez por outra sinto por viver numa terra que não é a minha. De uma hora para outra, por ser brasileira, passei a fazer parte de um grupo de estrangeiros que a imprensa está apelidando de cidadãos de segunda classe.

O Venstre, que faz oposição ao atual governo social-democrata, quer facilitar a entrada no país de estrangeiros que venham para cá trabalhar para receber salários anuais acima de 400 mil coroas dinamarquesas (cerca de 160 mil reais por ano em valores de hoje). Mas, para pessoas vindas de países com cultura e estilo de vida que o Venstre considera parecidos com os da Dinamarca, esse salário anual poderá ser de apenas 215 mil coroas (aproximadamente 86 mil reais). Para estrangeiros vindos desses países ”VIPs” também ficaria mais fácil vir morar aqui para se casar com um cidadão dinamarquês.

De acordo com o Venstre, os cidadão dos países a serem beneficiados pelas mudanças são geralmente mais dispostos a se integrarem à sociedade dinamarquesa, enquanto as pessoas originárias dos demais países são as que mais criam problemas para o país. O Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (matéria da EBC sobre o assunto) foi usado como referência para traçar uma linha separando os dois tipos de países e, por conta dele, a lista dos países de primeira classe inclui os Estados Unidos, Austrália, Chile, Argentina e Israel. Do outro lado da linha divisória ficariam países como o Brasil, China, Índia e Paquistão, cujos cidadãos terão mais dificuldades para conseguir viver na Dinamarca se a proposta do partido for aprovada pelo Parlamento.

Tradicionalmente defensor de posições liberais, o Venstre sempre optou por uma política moderada de restrição da entrada de imigrantes na Dinamarca, embora tenha cedido às pressões do partido nacionalista de direita, o Dansk Folkeparti (Partido do Povo da Dinamarca), que defende leis que limitando a imigração para o país.

Portanto, a nova proposta do Ventre, que esteve no poder até 2011, foi considerada uma guinada à direita e recebeu reação contundente da Embaixada do Brasil na Dinamarca. Em uma carta endereçada a Søren Pind, líder da bancada do partido para assuntos de relações exteriores, o conselheiro da Embaixada, Rafael Vidal, critica o ”tratamento de segunda classe” que os brasileiros poderão passar a receber. Seegundo ele, tal tratamento seria ainda mais injustificável porque os brasileiros são conhecidos por serem trabalhadores treinados, educados e disciplinados. Diversas empresas dinamarquesas também protestaram contra a proposta dizendo que ela interfere na sua tentativa de recrutar profissionais qualificados independentemente de onde eles tenham nascido.

Mas, apesar dos protestos, é bastante provável que o Venstre siga adiante com seu plano de tentar tornar a legislação sobre imigração mais severa. A razão, seguindo comentaristas políticos, seria simples: o partido quer conquistar os 44 por cento dos dinamarqueses que, numa pesquisa feita em março deste ano, disseram que a política de imigração do país não é suficientemente rígida. Quatro anos atrás, quando a economia do país passava por uma crise séria, somente 21 por cento dos dinamarqueses faziam essa crítica. Agora que a situação econômica do país apresenta sinais de recuperação e preocupa menos, os dinamarqueses voltam a atenção para um dos seus esportes favoritos: ver nos imigrantes a maior causa dos problemas do seu país.

Editado 03/09/2014 para acréscimo de informações e link sobre o IDH.

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8 comentários Adicione o seu

  1. O texto fala, entre muitos outros temas, de política de inserção ou não inserção de imigrantes/estrangeiros trabalhadores; da quase impossibilidade ou da impossibilidade disso. Pergunto: e quanto a estrangeiro/a especificamente visando entrada na Dinamarca para estudo aprimorador de graduação ou pós-graduação: a dificuldade de entrada e qualidade de tratamento – no texto citadas – também recorre?

    Outro assunto: casamento. No fim do quarto parágrafo está escrito que pessoas daqueles selecionados países “VIP’s”, para fim de casamento, teriam facilidade ou menos dificuldade de entrar e estar na Dinamarca ou – acrescentando o que subentendi (certo ou errado) – nela terem sua vida e residência permanentes.

    ? Casamento premeditado/negociado/”arranjado”/”só-no-papel” como via de entrada e aceitação naquele país ou casamento como condição de estar lá especificamente para trabalhar – como parece que acontece (ou, pelo menos, acontecia) no Japão para brasileiras casando-se com nipo-descendentes ou nipo-nativos?

    Fiquei meio preocupado e incomodado se for ambas ou qualquer uma dessas interpretações imaginativas que desenvolvi. Acho que entendi errado. Entendi?

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  2. Claudia disse:

    Parece que os brasileiros são tratados muito melhor nos EUA que na Dinamarca, e nos sempre pensamos que os gringos é que são os preconceituosos com os imigrantes.

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    1. Você deve estar certa, Claudia. Acho que é porque os EUA são um país feito de imigrantes, Claudia, diferente do norte da Europa, que historicamente receberam contigentes menores de estrangeiros.

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  3. Patrícia Colela Doyle disse:

    Um país tão evoluindo em alguns aspectos e tão humanamente atrasado!

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    1. Essa contradição me encasqueta muit, Patrícia. Os dinamarqueses também são muito generosos na ajuda internacional, mas quando se trata dos imigrantes no território deles, a situação muda.

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  4. Ninguém é bem-vindo na Dinamarca. Só as noras da rainha. E elas são estrangeiras, também.

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    1. Brasil, casa de tolerância desde o degredo português até hoje ,recebe todos os países como, o Cristo redentor de meu estado de braços abertos e nós brasileiros somos tratados como escória nos países da Europa . Quando chegam aqui se apaixonam por tudo que temos e que eles nunca terão. Um céu cheio de sol e muito calor humano . VIVA O BRASIL !

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