A cidade sobre duas rodas

Ciclistas dominam paisagem no trânsito do centro de Copenhague.  Foto: Ursula Bach/ Københavns Kommune
Ciclistas dominam paisagem no trânsito do centro de Copenhague. Foto: Ursula Bach/ Københavns Kommune

Dias atrás, passeando por Copenhague, ao ver obras para alargamento de ciclovias e faixas para os ônibus, me lembrei de uma conversa que tive com um amigo dinamarquês. Ele havia se surpreendido com o sucesso que um vídeo havia feito entre brasileiros. O vídeo, produzido pela jornalista brasileira Claudia Wallin, mostra um juiz sueco que usa bicicleta e trem para chegar ao trabalho. Meu amigo dinamarquês estranhou que algo tão banal pudesse ter chamado tanta atenção entre os usuários brasileiros das redes sociais.

Ainda não comentei o assunto com ele, mas fico imaginando que sua surpresa seria ainda maior se soubesse da reação negativa que a construção das ciclovias está causando em São Paulo. Para um morador de uma cidade onde metade da população pedala todo dia, o descontentamento de alguns paulistanos com o estímulo ao ciclismo pode parecer coisa de outro mundo.

Em Copenhague, há mais gente que prefere a bicicleta ao automóvel para chegar ao trabalho ou à escola. Em 2013, 41 por cento das pessoas que transitaram em Copenhague para ir ao trabalho ou à escola o fizeram montadas numa bicicleta, enquanto apenas 24 por cento o fizeram de automóvel, segundo dados da prefeitura de Copenhague. Os números relativos apenas aos residentes na cidade são ainda mais impressionantes: de acordo com estátisticas de 2012, 52 por cento das pessoas que viviam em Copenhague pedalaram diariamente.

A expectativa é que o número dos que preferem a bicicleta aumente ainda mais este ano, seguindo uma tendência encorajada pelo governo de Copenhague e municípios vizinhos, que não têm economizado esforços para incentivar o ciclismo.

Na ofensiva para que as pessoas adotem a bicicleta como meio de transporte, o poder público, por exemplo, constrói pontes exclusivas para ciclistas e pedestres que cortam canais e vias de tráfico intenso. Outra iniciativa é a ampliação do sistema de aluguel de bicicletas a moradores e turistas. Este ano, as prefeituras de Copenhague e Frederiksberg (um município independente na área geográfica da capital dinamarquesa) e a principal empresa ferroviária da Dinamarca, DSB, colocaram 250 bicicletas elétricas à disposição da população.

Ponte do Cais, em Copenhague, exclusiva para ciclistas e pedestres. Foto: Stig Nygaard via Wikimedia Commons.
Ponte do Cais, em Copenhague, exclusiva para ciclistas e pedestres. Foto: Stig Nygaard via Wikimedia Commons.

Até o final de 2015, mais 1860 dessas bicicletas estarão disponíveis em 65 estações posicionadas em pontos de maior movimento e nas principais estações de metrô e de trem da cidade. O serviço não é gratuito: por hora, custa 25 coroas dinamarquesas (pouco mais de 10 reais), mas pode ficar por apenas 6 coroas por hora para quem preferir fazer uma assinatura de 70 coroas por mês.

Em 1995, Copenhague foi pioneira ao começar a oferecer gratuitamente bicicletas durante a primavera e o verão. Naquele ano, o alvo principal da medida eram os turistas, embora qualquer pessoa pudesse usar as bicicletas. Agora, o objetivo principal é criar mais uma alternativa de mobilidade para os residentes da cidade e redondezas.

As 20 prefeituras da Grande Copenhague também têm investido na melhoria das condições das vias usadas pelos ciclistas através da construção de ciclovias expressas, que são mais largas e permitem tráfego mais rápido dos que as ciclovias comuns. No total, a cidade dispõe de 346 quilômetros de ciclovias, 23 quilômetros de faixas para ciclistas e 43 quilômetros de vias para bicicletas em áreas verdes. Em 2013, todas essas vias foram usadas para que se pedalassem 2.006.313 quilômetros na cidade.

Um medida que talvez causasse revolta em alguns moradores se fosse tentada na cidade de São Paulo, é o alargamento das faixas para quem pedala nas ruas e avenidas da cidade. Em diversos bairros da cidade, o governo está ampliando o espaço para os ciclistas e facilitando o trânsito para os ônibus e consequentemente, como dois objetos não podem estar no mesmo lugar ao mesmo tempo, reduzindo o espaço para os carros.

Anúncios

2 comentários Adicione o seu

  1. Márcia disse:

    Adorei o texto. Aqui em Brasília, agora é que estão começando a investir nas ciclovias. Pois sempre priorizaram o alargamento das pistas, os viadutos. Infelizmente para nós residentes no Brasil, essa realidade ainda é distante. Mas ainda acredito que chegaremos lá!

    Curtir

    1. Obrigada, Márcia. Também estou confiante que a bicicleta ganhará um papel mais importante na mobilidade urbana no Brasil, mas é preciso pressionar os governantes para isso.

      Curtir

Seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s