O tal clima natalino

Você anda na rua e vê um bando de gente vestindo a mesma cor. Volta e meia, dá de cara com adolescentes, crianças e, de vez em quando, até mesmo adultos, usando um gorro vermelho com um pompom na ponta. Nas lojas e no rádio, o tema das conversas e das músicas é o mesmo e, todo ano, novas melodias são lançadas para embalar a torcida de vermelho. Você pode até achar que se trata de um evento esportivo e que tanta gente vestindo a mesma cor torce pelo mesmo time, mas não é nada disso. O tema da decoração de casas, ruas e praças, as canções e a cor favorita para cobrir corpos e cabeças não lhe deixam dúvida: você está em dezembro na Dinamarca.

O dezembro chegou ao mundo todo, mas na Dinamarca ele não traz apenas o frio e a mudança na folhinha. Ele chega com cheiros, cores, sons e sabores que criam um clima que, desconfio, deve ser aquilo que chamam de natalino. Nos supermercados, você encontra tudo (e quando eu escrevo tudo eu quero dizer tudo) que você desesperadamente precisa para fazer deste um mês inesquecível até que o próximo dezembro chegue: velas, temperos, frutas, castanhas, biscoitos, bebidas, cartões, enfeites, bombons, lâmpadas, forros de mesa, guardanapos, copos, pratos, travessas, árvores de natal, flores, esmalte, gorros, fantasias e mais outras dezenas de coisas essenciais que não vou listar por falta de megabyte.

O décimo segundo mês do ano na Dinamarca chega com dezenas de convites para cafés-da-manhã, almoços, jantares e festas e com listas de dezenas de presentes para comprar.  Não adianta tentar fugir: o time do  Papai Noel, cantando uma bela canção, vai lhe pegar pelo braço, lhe envolver no clima natalino e lhe fazer festejar a chegada de… quem mesmo? Ah, claro! A chegada do Deus menino, que você vai ser convencida a celebrar comendo tudo aquilo que você evitou comer o ano todo e dando e recebendo presentes de utilidade duvidosa.

O mais impressionate é o que acontece ao chamado refinado gosto dinamarquês. Em dezembro, num passe de mágica, ele cede espaço a deslizes que me fazem admirar o poder hipnótico do tal clima natalino. Ruas são tomadas por corações gigantes, casas e árvores recebem correntes de luzes nas mais variadas formas e cores e jardins são cobertos por luminárias em formas de renas, duendes e outros seres cooptados para a conspiração, ou melhor, para o clima natalino.

As crianças formam um dos grupos mais organizados e engajados na construção e manutenção do clima natalino. Elas são as que mais frequentemente e entusiasticamente vestem a camisa e colocam o capuz do time vermelho e sabem todas as canções natalinas de cor, inclusive os lançamentos do ano. Fazem lobby pela compra de presentes, presentes e mais presentes, praticamente obrigam os pais a decorar suas casas e reivindicam, para desespero dos pais já levemente estressados com todos os compromissos do período, o preparo em casa de comidas típicas.  Elas, são elas as grandes aliadas do senhor rôrôrô na criação do clima natalino que, na Dinamarca, tem de ser ”hyggeligt” (um intraduzível adjetivo que significa algo entre aconchegante e agradável).

São elas que reclamam quando os pais não providenciam o calendário de presentes (Kalendergaver), uma invenção infeliz feita para enlouquecer adultos e enriquecer lojistas: 24 pequenos presentes, um para cada um dos 24 primeiros dias de dezembro. Algumas das crianças, depois de serem bem doutrinadas por pais sovinas ou ocupados, até aceitam que os Kalendergaver sejam substituídos pelos Adventsgaver, que consistem de quatro presentes mais caros, um para cada domingo que antecede o Natal.

Na escola da minha filha, tive a prova de que são elas, as crianças, as grandes aliadas do grande e gorducho senhor de vermelho na manutenção do status quo natalino. Logo no primeiro dia do mês, lá pelas oito da manhã, um grupo delas, reunidas no ginásio da escola, cantou alegremente uma das canções de Natal mais populares do país, a Canção de Natal numa escola da Dinamarca. Havia um entusiasmo tão extraordinário na cantoria da meninada, que tive de registrá-la num vídeozinho pelo celular. Quando, sem perceber, comecei a acompanhar a canção e a sorrir tolamente, saí rapidamente do ginásio, convencida do poder contagiante do clima natalino e preocupada sobre quanto tempo conseguirei resistir a ele.

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4 comentários Adicione o seu

  1. Querida Inés, o que gosto no Natal é a oportunidade de reunir família e amigos. Gostaria que houvesse menos ênfase no consumo e mais preocupação em estar bem e de bem com as outras pessoas. Mas, quando se tem filhos pequenos, é difícil não se deixar levar um pouco pela onda, embora seja impossível esquecer o sofrimento de tanta gente no mundo.

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  2. inesgpintos disse:

    Para mim também é difícil fugir do espíritu natalino, embora aqui em Madrid nao seja tao agobiante. Mais mesmo assim, se você diz que nao gosta do Natal, é percibido quasi como “má pessoa”.
    Nao gosto da alegria à força e sinto falta dos que nao estao o estao mais nao podem partilhar alegria porque carecem de recursos. Só gosto dos Reis Magos que, embora eles também sejam aliados dos lojistas, representam uma tradiçao linda para as crianças o tudos, mesmo tudos, colaboramos para nao romper à ilusao.

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  3. marilza disse:

    Olá Margareth, os dinamarqueses são animados nas festas natalinas? Que bom! Eu gosto muito dessa festa, no sentido familiar, tenho uma família grande, e é nessa ocasião que nos reunimos para reviver o passado, discutir o presente e especular o futuro. Tem fofocas, maledicências, malemolências, rs. Adoro a algazarra das crianças e o peru assado com farofa de nozes e uvas passas que minha irmã prepara. Meu povo tbm adora o meu manjar feito com o coco fresco e calda de ameixas. Comida simples, vinhos nacionais e conversas fiadas que varam a madrugada. No café da manhã, nada melhor do que rabanadas. Feliz Natal Margareth! Saúde, paz e amor para ti e para os teus. Abraço.

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    1. Quanta delícia, Marilza, Deu até vontade de me juntar à festa da sua família. rsrs. Os dinamarqueses são animadíssimos nas festas natalinas. Aqui é também uma festa em que as famílias se reúnem para festejar e acho que, como no Brasil, é o que mais gosto no Natal: uma oportunidade para estar com a família. As comidas são bem diferentes, mas também bem gostosas: tem carne de porco, ganso e pato são as carnes mais tradicionais. Há muitos biscoitos, bombons e arroz doce com amêndoas. Muito obrigada pelos bons votos. Feliz Natal pra você e para toda a sua família também, Marilza!

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