Campos – uma cidade à procura de quem a queira bem

Enquanto morei em Campos dos Goytacazes, RJ, ao conversar com pessoas nascidas na cidade ou redondezas, tive frequentemente a impressão de que elas estavam ali como enjauladas, loucas para fugir, nem que fosse por um fim de semana, para qualquer lugar. Podia ser a capital do estado, Guarapari, Búzios ou até mesmo São João da Barra. Nos finais de semana, os que podiam realmente fugiam, os que não podiam se refugiavam em casa ou num shopping e a cidade se esvaziava.

Praça São Salvador, Campos dos Goytacazes
Praça São Salvador, “carinhosamente” chamada de Forno de Microondas.

Apesar de ter apenas cerca de 400 mil habitantes, a cidade sofre com problemas de uma grande metrópole, como saneamento precário, péssimo transporte público e trânsito caótico, mas não tem as  vantagens que se espera de uma cidade grande. Por exemplo, Campos oferece raríssimas opções de lazer e cultura, as áreas verdes são pouquíssimas e mal equipadas, conta-se nos dedos de uma mão os bons restaurantes da cidade e o comércio é muito pobre.

O descaso e indiferença de muitos moradores com sua cidade equiparam-se aos demonstrados pelos representantes locais do estado.   A cidade cresce de forma desordenada e não se percebe o mínimo sinal de que a prefeitura sequer cogita planejar a ocupação e uso do espaço urbano. De vez em quando, aqui e acolá, pipocam obras um tanto quanto faraônicas que dão uma ideia das prioridades bizarras do governo local.

Entre essas obras pode-se o gigantesco e quase sempre vazio sambódromo local, o Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop) e a Praça São Salvador, o ponto central da cidade, que deixou de ser uma área arborizada para se tornar um calçadão árido e insuportavelmente quente  no verão, quando a temperatura na cidade frequentemente ultrapassa os 40 graus.  Não é à toa que o lugar ficou conhecido como “Forno de Microondas”, como informa o jornal local Folha da Manhã.

Arcos sobre o Canal Campos-Macaé.
Arcos sobre o Canal Campos-Macaé. Até bonitos, não são?

Mas a obra mais emblemática dessa visão distorcida de como usar o dinheiro público foi a renovação das margens do Canal Campos Macaé, popularmente conhecido como Beira Valão, que recebeu arcos e jardineiras em toda sua extensão urbana. À noite, os arcos são iluminados e até poderiam ser considerados bonitos se conseguíssemos esquecer o que escorre sob eles: as águas poluídas de um canal fedorento cuja visão, durante o dia, é repugnante. Deve ser o único exemplo no mundo de uma obra executada para enfeitar dejetos.

Os arcos durante o dia.
Mas a vista muda durante o dia.

O site da prefeitura de Campos dos Goytacazes, no entanto, informa que a área é um cartão postal e que os arcos de metal inoxidável  são ”dotados do mais moderno sistema de iluminação ornamental, inédito no interior do estado do Rio de Janeiro”.  O mesmo texto esclarece que ”os feixes de luz, na cor azul violeta, são direcionados de baixo para cima e, ao refletir na superfície lisa dos arcos, que tem acabamento em alucobond (material que provoca efeito reflexivo, de forma uniforme), realça (sic) a beleza das plantas…”, blá-blá-blá. O que quer que seja belo na obra deve ser visto de longe, porque o canal cheira muito mal. Aliás, também cheira mal o custo da obra, que ficou em 18 milhões (valor de 2011, quando a obra foi entregue, segundo o jornal local Ururau).

Ter trechos transformados  em esgoto a céu aberto é um triste fim para o Canal Campos-Macaé, que liga o Paraíba do Sul ao Rio Macaé e foi inaugurado em 1872 depois de 28 anos de obras executadas graças a mão de obra escrava. O canal, com extensão de 109 quilômetros de extensão, é considerado o segundo mais longo canal artificial do mundo, perdendo apenas para o Canal de Suez, e uma das maiores obras de engenharia brasileira do século XIX.

E fica muito pior quandose chega perto.
E de perto fica ainda pior. 

Pensando bem, os arcos talvez sejam mesmo um ótimo cartão postal da cidade. Eles simbolizam bem uma cidade que elege governantes que se sustentam em aparências para se manter no poder e ignoram as reais necessidades da população campista, que padece com problemas como a precariedade do transporte público, o avanço da criminalidade, a falta de opções saudáveis de lazer e cultura e a falta de saneamento básico.

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5 comentários Adicione o seu

  1. nayaluna disse:

    Excelente texto!
    Retrata muito bem a cidade, infelizmente.
    Nasci em Campos e com 11 anos vim com meus pais morar em Búzios, posso dizer que foi uma das melhores coisas que aconteceu em nossas vidas.
    Retornei a Campos várias vezes para visitas e morei mais 4 anos pra fazer faculdade, mas em momento algum me senti tentada a ficar na cidade.

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  2. Lua disse:

    Bem expressada a realidade da cidade. Caos total (ainda mais após a ultima eleição). Compartilhado no facebook.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada por compartilhar, Lua. É uma pena que as eleições sempre nos tragam decepções mas tenho esperança de que isso mude com o crescimento da consciência política das pessoas. Abraços

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  3. Obrigada, Maria Cecília. Apesar do tema não ser muito agradável, é bom saber que compartilhamos opiniões.

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  4. Maria Cecilia Magalhaes disse:

    Real e triste como postei no face.Infelizmente é a realidade.
    Parabéns pelo texto!!!

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