Mãos dadas

Hoje, Copenhague está de luto, com as bandeiras da cidade hasteadas a meio mastro e homenagens às vítimas do atentado ocorrido no fim de semana, que deixou três pessoas mortas. Na maior dessas homenagens, mais de 30 mil pessoas se reuniram no local em frente ao centro cultural Krudttønden, local do primeiro dos três tiroteios entre a tarde de sábado e a madrugada de domingo. Representantes da comunidade judaica, da polícia e de todos os partidos políticos do país participaram do evento.

Ontem, o líder da Sociedade Judaica da Dinamarca, Dan Rosenberg Asmussen, deu mais uma demonstração do sentimento de comunhão que une os dinamarqueses nesses dias. Em resposta ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que convidou os judeus dinamarqueses a se mudarem para Israel, onde estariam mais seguros, ele disse: “Agradecemos o convite, mas nós somos cidadãos dinamarqueses e este é o nosso país”*.

Nas redes sociais, além da indignação e choque, os dinamarqueses também têm reagido com apelos por união e tolerância. Numa atualização muitas vezes compartilhada no Twitter, um dinamarquês convidou: “Nossa resposta será mais amor e tolerância. Não será mais medo, intolerância e ódio”*. O pastor Christian Roar Pedersen pede que os dinamarqueses não permitam que o extremismo transforme os dinamarqueses em extremistas.

Numa entrevista coletiva, a primeira-ministra dinamarquesa repetiu o que havia dito sábado: “Este não é um conflito entre o Islão e o Ocidente. Este é um conflito entre os princípios básicos da nossa sociedade e o extremismo”. Numa declaração conjunta, grupos que representam instituições cristãs e muçulmanas da Dinamarca apelaram para que a sociedade se mantenha unida para evitar que o episódio provoque divisões entre os dinamarqueses.

Mas, quando as bandeiras voltarem ao topo dos mastros, passadas as homenagens, voltaremos ao dia a dia de um país onde a tolerância e solidariedade dos discursos talvez não se sustentem por muito tempo. As pesquisas de opinião, por exemplo, indicam que um quinto do eleitorado pretende votar no partido de extrema direita, o Danske Folkeparti, que defende, por exemplo, o fim da entrada de muçulmanos no país.

Imediatamente depois dos ataques do final de semana, um dos líderes regionais do partido se apressou a comentar no Twitter que “a esquerda dinamarquesa e todos os outros que apoiam o Islão devem ser considerados cúmplices”* dos atentados, segundo o jornal Information.

Até membros de partidos considerados moderados em relação à imigração vêm expressando opiniões que podem ser consideradas, no mínimo, antipáticas aos grupos muçulmanos. De acordo com o Information, Karen Jespersen, parlamentar e membro do partido de centro-direita Venstre, disse que o atentado foi “um produto da política de imigração imprudente e profundamente irresponsável”.

Foi, aliás, do Venstre que partiu a proposta de dificultar a entrada na Dinamarca de pessoas vindas de países com cultura e estilo de vida que o partido considera diferentes dos da Dinamarca, o que incluiria todos os países de maioria muçulmana e até o Brasil. O Venstre é o segundo maior partido do país e favorito para vencer as eleições parlamentares este ano.

No ato de hoje à noite, em seu discurso, a primeira-ministra Helle Thorning-Schmidt usou uma expressão muito cara aos dinamarqueses: “Nesta noite, nós nos damos as mãos”*. Neste ano de eleição, quando a imigração será novamente tópico importante das campanhas dos candidatos, é improvável que as mãos continuem dadas por muito tempo.

* Trechos traduzidos pela autora.

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2 comentários Adicione o seu

  1. Obrigada por seu comentário, Marilza. A violência urbana no Brasil é assustadora e precisa ser enfrentada para que essa triste rotina acabe.
    Os atentados aqui foram assustadores porque Copenhague é uma cidade muito tranquila e porque foram considerados um ato contra a liberdade de expressão, Muitos dinamarqueses criticam os desenhos de Maomé mas a grande maioria está unida na defesa da liberdade de expressão.
    Quando aos extremistas, estou cada vez mais convencida de que eles usam a religião como uma desculpa para justificar uma guerra que, na verdade, é por poder e não pela defesa de princípios religiosos.
    Abraços

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  2. marilza disse:

    Olá Margareth, a imprensa noticiou o fato ocorrido aí na Dinamarca, mas como diz o povo daqui – “passou batido”, pois, só ontem morreram 5 traficantes em confronto com a polícia aqui no Rio, aliás, a guerra carioca, polícia x bandidos está mais violenta do que o de costume, porque está morrendo quase que um policial por dia. Tem aumentado muito os assaltos seguidos de mortes aqui na Cidade Maravilhosa, porém, mesmo assim a cidade bombou com turistas estrangeiros, agora no carnaval. Morreram um americano e um italiano, reagiram ao assalto.Quanto à guerra dos povos muçulmanos, sou completamente ignorante. É briga religiosa política? Mas eles não rezam 3 vezes por dia?! Será que são doidos, quanto mais rezam mais assombrações aparecem?! Será que foi tão somente por causa da charge de Maomé da revista francesa?! Acho que não… tem coisa aí… Ouvi aqui, na “Rádio Corredor”, que tem um grupo grande de terroristas islâmicos divididos entre Paraná, São Paulo e Piauí, que a Polícia Federal está monitorando. Que o Governo Federal está respaldando… Será?!
    Um abraço

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