Opinião pessoal

Algo que é extremamente irritante sobre ser uma mulher estrangeira num país como a Dinamarca é que algumas vezes é difícil avaliar se alguém fala com você algo que não faz sentido porque você é uma mulher ou porque você é uma imigrante ou simplesmente porque ele (geralmente se trata de um “ele”) não é uma pessoa suficientemente sensível.

Alguns dias atrás eu fui a uma palestra que fazia parte da programação da “Semana das Mídias Sociais”, em Copenhague. A palestra foi razoavelmente boa e, quando terminada, houve tempo para um debate. Três ou quatro homens fizeram perguntas para o palestrante e a maioria delas foi relacionada às implicações sociais, legais econômicas da tecnologia que estava em discussão. Eu fui a única mulher e, acredito, a única estrangeira a fazer perguntas. Desde então tenho pensado sobre o modo com que o palestrante começou a resposta dele a mim. Quando terminei minha pergunta, ele disse:

Bem, esta é uma opinião muito pessoal e eu a respeito mas …”

Eu ouvi a resposta dele, que foi bastante razoável, mas não consegui esquecer a pequena introdução. Claro que minha pergunta foi baseada numa opinião pessoal, mas também foi baseada na minha experiência profissional e formação acadêmica que, a propósito, inclui um mestrado na mesma universidade onde o palestrante fez o mestrado dele.

Os outros participantes do debate também expressaram “opiniões pessoais” mas eles mereceram respostas que não incluiriam uma introdução similar à que eu recebi.

Eu assumi que opiniões fossem respeitadas num fórum como aquele e portanto dizer que respeitava minha opinião foi absolutamente desnecessário.

Por que o palestrante fez aquela observação inútil? Foi fundada num prejuízo contra mulheres falando sobre tecnologia? Ou foi relacionada à predisposição negativa que ele tem contra uma mulher migrante negra discutindo tecnologia?

Provavelmente ele não queria me ofender, mas fiquei aborrecida. Sua introdução de certa maneira desqualificou minhas perguntas. Se apenas se tratava de uma opinião pessoal, ela não era suficientemente qualificada para merecer uma consideração mais atenta. Como resultado, a resposta dela soou mais como uma demonstração de boa vontade em relação a uma pessoa que tinha mais uma “opinião pessoal” do que um argumento qualificado sobre o assunto.

Conclusão: além de conhecimento e uma bela apresentação de slides, os prerrequisitos para um bom palestrantes devem incluir também sensibilidade.

 

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4 comentários Adicione o seu

  1. Muito obrigada,Marilza. Não costumo abaixar a cabeça, embora nos últimos anos tenha escolhido mais as minhas lutas. Viver em um país como a Dinamarca tem muitas vantagens mas, realmente, pode também ser difícil. É cansativo estar constantemente em guarda contra comentários preconceituosos. Abraços

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  2. marilza disse:

    Olá Margareth, se vc fez mestrado na mesma universidade do palestrante, já está na mesma paridade do palestrante. Vc é muito inteligente e criativa! Vc é uma pessoa admirável, saiba disso! Por isso, não deveria ficar melindrada. Isso foi uma questão, acima de tudo, machista, embora, o fato de vc ser estrangeira, mulher e negra, tenha dado “um nó” na cabeça branca-fidalga-dinamarquesa do palestrante, rs. Se fosse no Brasil, talvez fosse, até mais desagradável e grosseiro. Nesses casos, um semblante desafiador, de olhar fixo, e “sorriso de vestígio”, devolvendo o despeito, funciona bem, experimente, rs. Isso sim, é uma opinião pessoal, minha, que nada entendo de tecnologia nem tenho nível universitário, entretanto não me acho menos inteligente por isso. Contudo deve ser mesmo difícil ser estrangeira!
    abraço.

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  3. Eu já não gasto mais o meu tempo, tentando me comunicar com essas pessoas. Tentei, fiz tudo o que pude e percebi que sempre tentam nos inferiorizar; bagatelizando os nossos pontos de vista.
    Talvez pela ignorância de serem quase invisíveis como população perante o mundo, talvez pelo fato de, a apenas alguns quilômetros de distância, onde há uma fronteira com outro país europeu, o seu idioma já nada valha; ninguém se interessa ou sabe algo sobre ele…Então, quando podem se reunir e encontram alguém de fora, procuram fortalecer-se e nos colocam em segundo plano, procurando fazer com que nos sintamos exatamente assim: “de fora”.
    Acho que não vale mais a pena dividir experiências com pessoas que pensam assim. Saber da situação constrangedora que você viveu, me entristece bastante, pois conheço o seu valor acadêmico, prezada Margareth Marmori.

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    1. Obrigada, Regina. Na verdade nem cheguei a me sentir constrangida porque só mais tarde percebi a bobagem que o palestrante havia dito. Aí, fiquei irritada mas acho que, em qualquer caso, não reagiria ao que ele disse. Como você, ando muito indisposta para brigar contra esse tipo de comportamento. Acho que essa minha atitude pode mudar mas agora prefiro gastar minha energia com outras coisas.

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